O Brasil está coalhado de gente disposta a sacrifícios para levá-lo à prosperidade e justiça (quanta ironia, João Ubaldo!)

Se aparecer um concurso para escritor ou cronista que seja um Mestre em Ironia, eu já tenho – na ponta da língua – o meu candidato: João Ubaldo Ribeiro.

E ele se superou na crônica “O futuro em boas mãos”, publicada no Estadão (jornal O Estado de São Paulo) de 03/03/13, sobre a política brasileira.

Endeusou a classe política para provocar o leitor, e inverter a interpretação.

Transcrevo o parágrafo de abertura, criativíssimo e cômico:

Como estamos vendo nos noticiários, a campanha eleitoral já começou. Acho um pouco cedo, mas o pessoal fica nervoso com a disputa e a ansiedade parece ser geral. A política, o governo e a administração do Estado são das mais nobres atividades a que o cidadão pode entregar-se, pois se trata de um admirável exercício de altruísmo, amor à coletividade e ao semelhante, de nobre renúncia a interesses subalternos e vantagens indevidas e até mesmo a projetos pessoais. O homem público epitoma a virtude, não no sentido piegas que estamos acostumados a associar a esta palavra, mas na dedicação resoluta e firme ao bem público e às aspirações e direitos dos governados, numa vida cuja maior recompensa será o zeloso cumprimento dessa missão e nada mais. E o Brasil está coalhado de gente disposta a sacrifícios extremos para servir ao país e levá-lo a um futuro de prosperidade, justiça, segurança e felicidade.

E indico a leitura completa; o texto pode ser acessado clicandoaqui.

João Ubaldo Ribeiro critica a falácia dos governistas que continuam culpando as fantasiosas “elites”

Bem poucos anos atrás, flagrei um comentário interessante numa conversa entre dois (razoavelmente veteranos) participantes de movimentos de esquerda (atuaram em sindicatos e partidos):

– Não são bons tempos para os militantes de esquerda!

Mas uma leitura simplista e crédula dos discursos de autoridades constituídas indica o contrário: muitos dizem fazer uma administração “de esquerda”, portanto a “esquerda” parece fazer parte do Poder.

A contradição se explica pela amplitude do conceito de esquerda-direita, que permite a adaptação a qualquer uso.

O contrassenso ocorre com o poder central brasileiro (PT, PSB), que usa o mesmo discurso, mas mantém a base capitalista (historicamente associada à “direita”).

Outra falácia comum é situar os adversários do povão na classe etérea das “elites”.

Com tal figura, os governantes que se dizem esquerdistas explicam – ou tentam explicar – as dificuldades para resolver com rapidez as diferenças socioeconômicas da população.

E seguem remando…

Mas o mestre da ironia não perdoa: com a crônica “Que elites, que esquerda?”, publicada na edição de 17/03/2013 do jornal O Globo (e em vários jornais do país, pois é vendida por agência), João Ubaldo Ribeiro criticou e ridicularizou os inimigos das elites.

Escolheu o alvo: “…esse de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos”.

Critica um dos argumentos dos esquerdistas de ocasião: “Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político.”.

E mais outro: “Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe?”.

E aproveitou para implodir realizações governamentais: “[…] do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal?”.

Para aqueles que não se autoproclamam esquerdistas, informo que o texto completo pode ser acessado clicandoaqui.

 

João Ubaldo Ribeiro diz que os terceiridadistas andam muito irritados com a expressão “melhor idade”

Tem gerado muita ironia – e alguma irritação – o aparecimento de metáforas positivas para representar, e tentar dignificar, os idosos.

A maior polêmica ocorreu com a expressão “melhor idade”: mesmo entre os idosos mais otimistas prevalece o comentário de que se trata de um exagero desnecessário.

João Ubaldo Ribeiro, meu cronista favorito, está sempre a brincar com a velhice – tem 71 anos – em suas tradicionais crônicas publicadas n’O Estado de São Paulo, e puxou por este subtema no seu texto de 18/11/12:

…nós, terceiridadistas (resignemo-nos a ‘terceira idade’, pois que não há mais jeito, e recebamos com um sorriso dúbio ‘atroz idade’ e ‘indigna idade’, mas reajamos a bengaladas contra ‘melhor idade’ e ‘feliz idade’)…”.

E seguiu pelo mesmo caminho, mesclando informações sérias com ironias e brincadeiras; quase no final destaco também este trecho:

Os idosos, como adverte todo dia algum comentarista de entonações sinistras, cada vez aumentam em número e já começam a causar uma série de problemas. Deixá-los trabalhar mais tempo antes da aposentadoria não resolve, porque atravanca o mercado de trabalho para os jovens. Sustentá-los é uma carga cada vez maior para a previdência social. O sistema de saúde também sofre, sobrecarregado por uma demanda que não para de crescer. Não é impossível que se conclua que representam um custo impossível de pagar e o correto é morrerem pela pátria, como está nos hinos.”.

Para acesso ao texto integral, cliqueaqui.

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (VII e último da série)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

Finalmente, adeus para ‘existir’ e ‘haver’. Agora só se diz ‘você tem’. ‘Você tem uma área chamada Amazônia. Muito bem, que é que você tem lá? Você tem uma floresta que precisa ser preservada. E aí você tem que caminhos?’ Eu não sei, só sei que nós tínhamos uma língua própria antigamente.

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (VI)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

A linguagem informática também traz suas pesadas contribuições. Por que diabo ‘salvar’, que não quer dizer nem ‘guardar’, nem ‘gravar’ nem nenhum sinônimo destes, é usado, quando temos palavras perfeitamente adequadas? Por que ‘malévolo’, ‘mal-intencionado’ ou ‘maldoso’ é ‘malicioso’? Por que ‘corporate’, até fora da linguagem informática é ‘corporativo’? Por que um determinado sistema não ‘suporta’ outro, como se se detestassem?

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (V)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

‘Loira’, que era variante, agora está ficando padrão. Ninguém, que eu tenha escutado, diz que um sujeito é ‘loiro’ e eu acho que até pega mal em certas mesas de boteco, mas só se escreve ‘loira’ agora. Outras palavras não estão tendo formas destronadas, estão sendo expulsas da língua, como os bons e velhos verbos ‘pôr’ e ‘botar’. Acho que até em Itaparica galinha já está colocando ovo, em vez de botar. Colocando, imagino eu, é mais elegante. Da mesma forma, ‘penalizar’, um verbo antes tão expressivo, botou para fora ‘punir’ (não sem uma certa relação com o que acontece na sociedade) e ‘prejudicar’. Ninguém prejudica mais, só penaliza, que tem a vantagem adicional de terminar em ‘izar’.

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (IV)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

Os timbres também são amalucados. A droga ‘ecstasy’ é para ser pronunciada com ‘e’ aberto, pelo menos enquanto não for naturalizada, mas aqui virou uma maneira exótica de pronunciar ‘êxtase’. Isso, aliás, é comum, na incorporação de palavras de nossa língua-mãe, ou seja, o inglês. Quando o ‘volley’ (‘vóli’, às vezes quase ‘váhli’) se naturalizou, virou ‘vôlei’. Até aí, tudo bem, naturalização é naturalização, mas por que ‘doping’, além de receber frequentemente dois pp, é ‘dópingue’? (Aliás, isto me traz a cabeça algo que tem pouco a ver com o que escrevo agora: por que a gente se irrita tanto quando inglês ou americano escreve Brasil com z? Em inglês, é com z, assim como América aqui é com acento, França é com cedilha e ‘a’ no fim e Alemanha é bastante diferente de Deutschland. Deve ser o nosso combativo nacionalismo de araque.) Outra mudança de timbre que me chateia é a de ‘obsoleto’. Não é conhecimento secrêto que o corrêto – e não é preciso ser discrêto quanto a isso – é ‘obsoléto’, mas escuto gritos de ‘olha aí o baiano’ sempre que pronuncio certo. Tenho vontade de acertar um ‘dirêto’ no cara.