Por egoísmo linguístico, as pessoas pouco se preocupam com a clareza e objetividade na conversação

Em 1977, fiz a grande viagem de minha vida, a mais inesquecível: foram 30 dias rodando – de ônibus – o sul do Brasil, Uruguai, Argentina e fronteira do Paraguai; roteiro aberto, indo para onde desejasse, no dia que quisesse.

Em Buenos Aires recebi a informação de que não conseguiria hotel em Bariloche (era julho, auge do frio e das atrações turísticas das montanhas); por sugestão de três jovens viajantes paranaenses fui a Mendoza, também nos Andes, onde entrei numa excursão para conhecer o Aconcágua, o pico mais alto da América do Sul.

Nas redondezas (uma avalanche impedia o acesso ao pé da montanha) almocei com um jovem casal argentino; em dado momento eles comentaram que eu estava muito calado e expliquei que a dificuldade para conversar em espanhol causava um pouco de desânimo, de preguiça.

Me exigia interromper o falante a todo instante para pedir a repetição de palavras mal entendidas.

Nas décadas que se seguiram, no transcorrer de outras viagens ou em outros contatos com estrangeiros, sempre percebi a mesma dificuldade – minha e de outras pessoas –, essa necessidade constante de interrupções para entender palavras e não perder a sequência, o sentido da frase.

O fenômeno certamente não é incomum ou antinatural: línguas são diferentes, mesmo quando possuem um enraizamento aparentado, como é o caso do português e do espanhol.

Para complicar a compreensão dos diálogos humanos aparecem outros fatores como os sotaques, as expressões regionais e a dicção (que é o cuidado individual com o ato de falar)…

… que atrapalham mesmo quando os falantes estão usando a mesma língua – ainda que com menor impacto.

Acrescento aos empecilhos anteriores o que atrevo a chamar de “preguiça comunicacional”: a despreocupação com a fala clara, a boa dicção e o volume adequado ao ambiente (em locais barulhentos o falante nem sempre eleva a voz o suficiente para compensar a interferência externa).

Como exemplo prático, basta a observação dos diálogos cotidianos: é frequente o ato de o interlocutor não entender a frase, perguntar “o quê?”, a outra pessoa melhorar a dicção e o volume, e a conversa prosseguir.

Existe uma tradição cultural do descuido com a fala, uma despreocupação com a compreensão do interlocutor – falo do Brasil, não domino a ciência da linguística comparada.

E também há quem peque pela falta de objetividade: a ideia a ser exposta pode estar clara no cérebro do falante, a exposição é que não está na mesma faixa de elaboração. E a frase produzida é insuficiente para a compreensão do ouvinte.

É um comportamento tão frequente que a Torre de Babel só não se instala porque outros fatores ajudam na compreensão, como o gestual e o prévio conhecimento do assunto em discussão.

A questão não é nova nas minhas observações, o estopim para este texto foi um fato pequeno, rotineiro, per si insignificante.

Aconteceu numa lanchonete: a funcionária me perguntou se podia esquentar o salgadinho pedido; não entendi bem a pergunta e pedi para ela repetir.

Mas os poucos segundos que separaram a pergunta da resposta foram suficientes para que eu deduzisse qual deveria ser a questão.

A contextualização fez o papel que deveria caber à dicção.

É um tipo de deficiência de comunicação que é cotidiano, imperceptível, inserido no dia a dia; só não gera maiores dificuldades para os diálogos orque o pedido de repetição é um ato frequente, praticamente mecânico.

A insegurança vai recair sobre o visitante estrangeiro, que se decepciona com a dificuldade de compreensão ainda que já esteja com um razoável domínio da complexa língua portuguesa.

Eu me arrisco a denominar de egoísmo linguístico o comportamento dos descuidados falantes.

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