Cientista Ennio Candotti atribui o acidente da Antártica/Antártida à mentalidade militar, que prefere armas à ciência

Já está em curso o processo de esquecimento do acidente da Antártida (uma explosão seguida de incêndio que destruiu, no dia 25/02/2012, boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém naquele continente).

É inevitável: a tradução inglesa para “notícias” (news) é mais realista que a versão brasileira, pois a mídia vive das novidades e a memória popular a segue, cordeirinha…

Mas o esquecimento não é bom conselheiro: quando lutar contra as causas perde prioridade, o problema permanece, com suas mazelas e o risco da repetição.

Achei insuficiente a explicação (ou desculpa) usada pelos responsáveis locais como causa do acidente: falta de investimentos do governo.

Adaptar-se a um orçamento real é tarefa de qualquer administrador, público ou privado; o descuido na segurança sugere erro, incompetência, acomodação.

Para relembrar o acidente e lutar contra o perigoso esquecimento, trago trechos de uma entrevista de Ennio Candotti (físico formado na USP, quatro vezes presidente da SBPC e o atual vice, professor da Universidade Federal do Espírito Santo) ao caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 04/03/2012.

Perguntado pela repórter Mônica Manir sobre a relação entre a carência de recursos financeiros e os acidentes de Alcântara (2003), Instituto Butantan (também incêndio, 2010) e na base na Antártida, respondeu:

Eu não associaria diretamente esses acidentes à falta de recursos. Acompanhei o que ocorreu em Alcântara e as razões eram muito mais estruturais e relacionadas ao modo como se organizavam os cuidados com a segurança, por exemplo. A explosão poderia ter acontecido mesmo se houvesse muitos recursos à disposição. No caso da Antártida, havia também regras de segurança específicas, que podem não ter sido devidamente obedecidas, ou a manutenção dos equipamentos pode não ter sido feita.”.

Candotti não tentou agradar a classe dos militares; pelo contrário, atribuiu a eles uma tendência para cometer erros administrativos e estratégicos:

Nas Forças Armadas, nenhum grito ultrapassa as continências. Além disso, um militar, entre investir em ciência e investir em mais corvetas, ele investe em mais corvetas. Entre a base da Antártida e comprar dois novos navios de proteção das fronteiras, compra os dois navios. A atividade de pesquisa é uma atividade nobre, mas não é considerada essencial.”.

A repórter também perguntou: “Mas a base recebeu muitas críticas por sua estrutura em módulos próximos, em que os geradores dividiam quase o mesmo espaço com laboratórios, biblioteca, alojamentos. Não faltou investimento em modernização?”. E acrescentou: “A próxima base brasileira na Antártida será desenhada por civis, e não mais construída como se fosse uma instalação militar.”.

Candotti respondeu:

É isso mesmo. Se os militares querem a colaboração com os cientistas, essa colaboração não é apenas como usuários da infraestrutura. Precisamos desenhar essa infraestrutura juntos, precisamos desenhar os veículos espaciais juntos, precisamos pensar de comum acordo os projetos. Isso vale para os navios oceanográficos também. De vez em quando acontecem esses lamentáveis incidentes e todo mundo acorda. Agora, a atividade científica é perigosa e suscetível a isso. É perigosa com muitos recursos, imagine com recursos escassos.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista realizada por Mônica Manir, cliqueaqui.