Heurelho e Doniéber são os goleiros Gomes e Doni, que foram à última Copa do Mundo

Acho estranha – algo infantil – a atitude de pais que dão nomes estranhos e atípicos para os filhos.

Enfim…

A matéria principal do caderno de esportes d’O Estado de São Paulo, edição de 13/01/2013, fala da (má) situação atual dos goleiros Gomes e Doni, que representaram o Brasil, na condição de reservas, na Copa do Mundo de 2010.

Mas a minha atenção recaiu nos nomes reais deles, e até de parentes.

Transcrevo:

Daria para fazer outro livro só com os próprios irmãos de Gomes. Foram 12, oito homens. E deles, quatro goleiros. Os locutores ficariam loucos se tivessem vingado no futebol: Liberço, Hereulane, Zaite e Heurelho (esse é o Gomes).

E quanto ao companheiro:

Doniéber Alexander, o Doni, poderia fazer parte do clã – pelo nome esquisito e pela história de altos e baixos.

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Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (XIII)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

E o Secretário de Turismo da Guanabara, Sr. Rio Branco, mudava a ornamentação para o Carnaval, na Avenida Rio Branco, por uma outra mais leve, e saía-se com esta: ‘Deus me livre acontecer um acidente na Avenida do Vovô’. 

Era dos mais democratizadores o caso criado pelo Coronel Comandante do Batalhão de Carros de Combate, sediado em Valença (RJ), que cercou Barra do Piraí com 800 soldados e exigiu que a Câmara de Vereadores local elegesse os membros da mesa conforme listinha que entregou ao presidente da Assembleia. Dizem que foi a e eleição ‘democrática’ mais rápida que já houve. Num instante estavam eleitos os candidatos do Coronel e, se mais rápida não foi essa eleição, é porque alguns vereadores, ao verem tanto soldado embalado, tiveram que ir primeiro lá dentro, cumprir prementes necessidades fisiológicas. 

Na cidade de Mantena (MG) o delegado deu tanto tiro que a cidade deixou de ter população e passou a ter sobrevivente. Em Tenente Portela (RS) um policial chamado Neider Madruga prendeu toda a Câmara de Vereadores porque o candidato da sua curriola não foi eleito na renovação da mesa diretora. Mesmo com o habeas-corpus aos vereadores, dado pelo juiz local, o Madruga levou todos em cana para Porto Alegre, preferindo ‘fazer democracia com as próprias mãos’. 

Manchete do jornal ‘Correio do Ceará’: ‘Todo fumante morre de câncer a não ser que outra doença o mate primeiro’.

Os caixas eletrônicos são alvos dos criminosos cerebrais (chupa-cabra) e dos violentos (explosões a dinamite)

Os caixas eletrônicos surgiram aos poucos; inicialmente eram de difícil manuseio, mas foram evoluindo, descomplicando, se espalhando, se popularizando. Como toda tecnologia.

Para os bancos foi um ótimo negócio, pois se reduziu o fator humano: as máquinas diminuíram a necessidade de funcionários e enfraqueceram os movimentos grevistas, pois a manutenção e o abastecimento de dinheiro foram transferidos para empresas terceirizadas.

Mas o inevitável problema da criminalidade sempre rondou o novo setor, tendo as senhas como alvos desde o início.

Nos anos 90, meu saudoso amigo Asdrúbal (Martiniano Giovannini) teve o cartão bancário roubado num assalto, mas o susto maior aconteceu quando foi dar queixa e o delegado descobriu a sua senha na primeira tentativa.

É que o meu amigo fez uma combinação com sua data de nascimento; o caso acontecera numa manhã de sábado e só na segunda-feira ele recuperou a tranquilidade, quando compareceu ao banco e descobriu que aquele ladrão não era tão esperto. E trocou a senha.

Ele me contou o caso na manhã do sábado seguinte e eu trilhei a mesma estrada: na segunda-feira corri para trocar a minha senha pessoal, que também se baseava na data de nascimento.

O uso não autorizado, criminoso mesmo, de senhas de terceiros continua sendo um grande problema, mas a irregularidade mais brutal – e agora comum – é o arrombamento dos equipamentos com o uso de dinamite, crime que se banalizou e tem sido feito até por bandidos que mal sabem lidar com explosivos.

Não me lembro de algum caso em que os próprios criminosos foram vítimas da explosão, mas os menos habilitados já destruíram parte do prédio e até o dinheiro que buscavam com tanta avidez.

Ou nem conseguiram executar a explosão, deixando para a polícia técnica o risco da desativação.

E a rápida difusão dos caixas eletrônicos, que se espalharam das agências bancárias para órgãos públicos, supermercados, hospitais e postos de gasolina, agora se inverte, e com a mesma rapidez: equipamentos são devolvidos e contratos cancelados – é o medo do boom.

Já os criminosos menos violentos, mais cerebrais, inventaram o chupa-cabra, artefato que prende o cartão ou o envelope de depósito.

Para descobrir a senha é necessário efetuar uma complexa operação: ou memorizar a sequência de teclas digitadas pelo usuário, ou instalar uma filmadora na agência, ou usar algum equipamento sofisticado que lê e grava os dados do cartão, inclusive a senha (na internet consta que esta última opção é possível, ainda que pouco comum).

Ou convencer o usuário a informar a senha, e para isso alguns criminosos criaram truques de convencimento, como se percebe nesta matéria publicada no site G1 (Globo) de 09/06/2012, intitulada “Cliente desconfia de golpe em caixa eletrônico e aciona a PM em BH”, com o seguinte texto: “Um cliente escapou de uma tentativa de golpe em um caixa eletrônico na manhã deste sábado (9) em um terminal no Bairro Belvedere, na Região Sul de Belo Horizonte. Segundo a Polícia Militar, após o cartão do homem ficar travado na máquina, um indivíduo apareceu para lhe oferecer ajuda e passou um número de telefone que o ajudaria a resolver o problema. Ainda de acordo com a PM, a atendente pediu o CPF e a senha do cliente. Desconfiado, o homem desligou o telefone e acionou a polícia. Quando os militares chegaram ao local constataram que havia um dispositivo que travava o cartão no terminal. A polícia desconfia que se o cliente passasse a senha para a telefonista, o indivíduo que havia oferecido ajuda voltaria ao banco e retiraria o cartão para realizar saques. O suspeito fugiu.”.

Na primeira vez que eu ouvi falar deste golpe, os criminosos chegaram a imprimir um folder falso do banco que citava o número de telefone, sempre atendido por uma comparsa que fingia ser teleatendente.

Outra modalidade é instalar o chupa-cabra na bandeja de depósitos, e torcer para que os envelopes cheguem recheados, com muito papel-moeda.

Em 28/07/2012 aconteceu um recorde em Teresina (PI): a Polícia Militar anunciou a apreensão de 82 artefatos desse tipo apenas na noite daquele sábado.

Mais recentemente, os criminosos tecnológicos criaram o sistema que a mídia está chamando de “pescaria eletrônica”; segundo o delegado Romério Almeida, de Fortaleza (CE), o criminoso conecta um laptop ao caixa e causa uma pane no sistema operacional, o que libera o acesso ao cofre.

Por enquanto parece restrito aos hackers, mas inevitavelmente algum deles vai criar e vender – pela internet – um programa que possa ser executado por usuários menos capacitados.

Criminoso inteligente e competente é um artigo que jamais faltou ao mercado.

Poucos anúncios de projetos destinados aos consumidores se transformam em realidade

Políticos e administradores públicos estão sempre à busca de espaço na mídia para anunciar novas leis, portarias e outros procedimentos para beneficiar o cidadão ou o consumidor.

Mas o desejo de mostrar, para o grande público, o resultado de um trabalho muitas vezes é maior do que as consequências práticas, e não são poucos os casos de fracasso, de inutilidade.

Situação semelhante acontece com a mídia, que para ganhar audiência e leitores está sempre à caça de novidades, mas mostra pouca preocupação com o real alcance delas, com o futuro.

Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da ProTeste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), é colunista e blogueira da Folha de São Paulo; ela intitulou de “Unicórnios do consumo” seu artigo de 03/09/12 e relacionou vários “benefícios legais à disposição dos consumidores que se assemelham aos unicórnios. Cavalos brancos com um chifre espiralado na testa. Bonitos, simpáticos, mas mitológicos”.

Selecionei os seguintes unicórnios descritos por ela:

Que fim levaram os remédios fracionados? Certamente, não estão nas farmácias, e as desculpas para sua inexistência se amontoam. 

E o acesso à internet via rede elétrica? Por enquanto, não saiu do papel. Não dá nem choque. 

O carro elétrico é uma promessa de veículo com combustível limpo. Mas os fabricantes alegam que é caro. Além disso, há poucos locais para recarregá-los. Então, continuamos queimando combustíveis fósseis, que poluem e fazem muito mal à nossa saúde. 

Todas estas promessas poderiam pegar carona no trem-bala, aquele que seria, mas não foi, e que talvez ainda seja. 

A regulamentação dos SACs (Serviços de Atendimento ao Consumidor) foi uma proposta muito boa. Mas, em lugar de melhorar os serviços, multiplicou os protocolos. Muitos números, poucos resultados. 

Venda casada é uma das práticas abusivas definidas pelo artigo 39 do CDC (Código de Defesa do Consumidor): I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos. Tente, entretanto, contratar somente o acesso à banda larga, ou a TV por assinatura. Os preços desses serviços são inflados, empurrando o consumidor a adquirir um ‘combo’, ou seja, um pacote composto, também, por telefone fixo. Isso não seria venda casada? Pois é. 

E conclui a autora:

“São alguns exemplos de como velhas e nocivas práticas, muitas vezes, são tão arraigadas que é difícil mudá-las. Não bastam leis, portarias, resoluções, nem ameaças dos governantes de plantão. “ 

Para acesso ao texto de Maria Inês Dolci, cliqueaqui.

O golpe do bilhete de loteria premiado tem – seguramente – mais de um século de existência e sucesso

Reportagem dos telejornais mineiros em 28/08/12 conta que na evoluída cidade de Pouso Alegre, sul do Estado, duas mulheres caíram no velhíssimo golpe da loteria premiada.

Resumo um dos casos com trechos do site G1: “Em Pouso Alegre (MG), a Polícia Civil investiga vários casos e trabalha com a hipótese dos crimes terem sido cometidos por um casal. Na ânsia pela grande quantia de dinheiro anunciada no bilhete – R$ 2 milhões – a professora foi ao banco e sacou R$ 5 mil.”.

O outro caso envolveu mais dinheiro e explica melhor o mecanismo do golpe: “Na última semana, uma outra mulher de 57 anos caiu no mesmo golpe. Ela conta que foi abordada por um homem simples, que pedia informações, sobre um endereço. O homem contou que tinha um bilhete, mas que para ficar com o prêmio a vítima teria que pagar. Ela então foi ao banco, sacou R$ 20 mil e entregou para o golpista, que em seguida desapareceu.”.

É incrível a capacidade humana de não aprender com a experiência e com as informações. Uma inversão da lógica.

Mal deixei a infância e já ouvia falar deste golpe; os mais velhos e os livros me acrescentaram que ele é tão antigo quanto a própria instituição da loteria oficial.

A consequência para a vítima nos inspira o sentimento de piedade; mas, como alguém pode ser tão burro, tão ingênuo?

A ambição de resolver a vida em um rápido momento cega e ensurdece as pessoas. Ou, usando uma figura de linguagem menos drástica, amortece o raciocínio, a capacidade de refletir e de avaliar.

E como o golpe é aplicado por pessoas de aparência ingênua, deixa no ar uma contradição: ainda que não tenha formulado racionalmente o conceito, quem está aceitando o negócio também está sendo desonesto com o pretenso proprietário do bilhete premiado. Estaria explorando a ignorância alheia!

Toda manhã saem de casa um trouxa e um esperto.

O mercado do cavalo envolve muito dinheiro e empregos, mas daí a superar a da indústria automobilística, é exagero

A minha formação autodidata em uma área mais tradicional das ciências sociais, que é a História, me ensinou o valor da pesquisa e também da informação correta, exata.

Num contraponto, a minha vivência nas atividades da equinocultura, e especificamente nas exposições e corridas de cavalos, me ensinou a desacreditar das informações sobre a circulação de dinheiro no setor.

Profissionais do ramo anunciam negócios vultosos, milionários mesmo, que não podem ser comprovados, pois foram realizados entre particulares. Negócios reservados.

E acrescento que até mesmo os preços nos leilões, individuais ou globais, podem ser superdimensionados.

A mídia contribui para o festival de ilusões: os próprios repórteres priorizam as informações sobre negócios milionários, ainda que o único documento comprobatório seja a palavra do interessado.

E o público parece apreciar o enfoque, mesmo que seja só para criticar no dia seguinte:

— É um absurdo alguém pagar 1 milhão por um cavalo, e tanta gente passando fome…

O mote para falar desta corrente de ilusões foi a reportagem da edição de agosto de 2011 da revista Globo Rural sobre a raça Quarto-de-Milha; mais especificamente, o trecho abaixo, baseado em informações de Aluisio Marins, professor da Universidade do Cavalo, de Sorocaba (SP):

Marins observa que o mercado para quase todas as raças evoluiu após o último levantamento da CNA [Confederação Nacional da Agricultura], o que torna plausível um movimento financeiro acima dos R$ 10 bilhões por ano. “É uma indústria cuja receita seguramente supera a da automobilística”, diz. É óbvio que a criação de equinos — considerando todo o território nacional — é um mercado que produz renda e empregos em grande quantidade.

Alguém deveria dizer ao professor – que é profissional do ramo, parte interessada portanto – que, para superar a indústria automobilística, há que se fazer muito malabarismo estatístico.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

De lambuja, reproduzo do mesmo site a foto abaixo, tirada no único hipódromo – que eu saiba – que faz corridas regulares para a raça Quarto-de-milha, em Sorocaba (SP):

O para-choque da Kombi é o joelho do motorista – um modelo de carro inseguro, ultrapassado, e com frequência mal cuidado

O telejornalístico Bom Dia Minas, de 10/11/2011, anunciou que “uma Kombi pegou fogo e parou o trânsito da Avenida Nossa Senhora do Carmo”, em Belo Horizonte, o que causou um “engarrafamento que reflete desde o centro da cidade”.

O caso serviu de exemplo para introdução e argumentação, é um entre incontáveis outros pois a Kombi é um automóvel frequentemente envolvido em acidentes, por mau uso como também pela fragilidade do modelo.

Tem a fama de sofrer, com frequência, incêndios espontâneos, o que não parece simples boato: o site www.flashbackers.com.br atribuiu o problema a um passa-fio existente na parede entre os compartimentos de motor e de passageiros, por onde passava o grosso cabo que leva corrente elétrica para o motor de partida.

Sua arquitetura o torna perigoso em caso de batida frontal pois a frente se resume a uma chapa de lataria, o que gerou uma antiga brincadeira: o para-choque da Kombi é o joelho do motorista. O que inclui o joelho do eventual passageiro do banco da frente.

Ademais, encontrar alguma Kombi parada em qualquer cidade brasileira, com defeito mecânico, atrapalhando o tráfego, é coisa de rotina.

Aqui a explicação é geralmente outra: o elevado percentual de veículos velhos e mal cuidados.

O caso mais típico que conheci foi o do veterano seu Zé da Kombi, que sobrevivia na década de 1990 fornecendo serragem para os cavalos do Hipódromo Serra Verde (que faliu – o hipódromo e não Seu Zé, que já era um falido natural – e deu lugar para a atual Cidade Administrativa, sede do governo mineiro).

Seu Zé circulava com o seu cacareco pelos bairros do distrito de Venda Nova, comprando ou ganhando raspas das serrarias que ensacava e entregava no Jockey a preço que parecia insuficiente para o seu sustento – pelo menos era o que indicava o estado precário de sua Kombi.

Por onde trafegava certamente punha em risco pedestres e os demais carros, mas estava sob o olhar complacente dos moradores e autoridades, apiedados com o esforço dele (e de qualquer trabalhador braçal) pela sobrevivência.

O mesmo site citado (flashbackers) conta a história e analisa as características da Kombi, claramente um modelo antigo que já deveria ter saído das linhas de produção, mas que ainda é popular e é fácil de entender o porquê.

Por possuir um grande espaço interno, inteiramente coberto, que protege o interior de chuva e dificulta o acesso de mercadorias aos ladrões, é uma ótima opção para pessoas mais simples fazerem pequenos serviços.

Mas o grupo socioeconômico que tem Seu Zé como membro certamente ganha pouco e não sabe administrar finanças pessoais, e a manutenção de um veículo automotor se torna uma dificuldade, em muitos casos uma impossibilidade.

E a experiência de vida me ensinou que tais veículos são, com elevada e assustadora frequência, dirigidos por motoristas ruins, um risco em potencial para o tráfego e para os pedestres.

E o viciosíssimo ciclo se fecha: os motoristas/proprietários ganham mal e não investem na manutenção do equipamento nem na melhoria de sua própria qualidade de vida, realimentando o círculo.