Hoje um santuário, o Caraça foi um marco na educação em Minas Gerais

Uma instituição importante na história da educação em Minas Gerais é o Colégio do Caraça, que teve no século 19 sua fase de glória; segundo a Wikipedia “dois futuros presidentes da República aí fazem seus estudos – Afonso Pena e Artur Bernardes – e outros tantos ex-alunos se tornaram governadores de estado, senadores e deputados, altas autoridades eclesiásticas”.

Sempre teve orientação religiosa (católica) e situa-se no município de Santa Bárbara, a 120 quilômetros da capital Belo Horizonte, em plena serra da Canastra.

Trechos de sua história podem ser extraídos das memórias de homens ilustres (a matrícula era exclusiva para o sexo masculino) que por lá passaram.

Talvez a citação mais ampla tenha sido a de Joaquim de Salles (1879-1962), que por lá passou vários anos no final do século 19 e narrou sua infância e juventude no livro Se Não Me Falha a Memória, editado em 1993, três décadas após sua morte, pelo Instituto Moreira Salles.

Ele presenciou uma grande crise que quase provocou o fechamento da instituição, provavelmente por conta das transformações vividas pela proclamação da república, que teve como uma de suas consequências uma grande perda da influência política da Igreja católica.

No início de século XX o Colégio foi transformado em “Escola Apostólica” (seminário) e funcionou até 1968, quando um incêndio destruiu parte das instalações e do acervo da biblioteca.

Só foi restaurado em 2002 e hoje funciona como “Centro de Peregrinação e Cultura”, arrecadando valores módicos, essenciais à sua manutenção.

Tem um site muito rico, de grande valor histórico, com transcrição de registro de matrículas de ex-alunos desde 1856; de lá extraí vários dados para fins de genealogia que dispus no site Geneaminas.

Para acesso ao site do Santuário do Caraça, cliqueaqui.

E como homenagem a Joaquim de Salles, fonte indispensável para pesquisas sobre o colégio, extraio sua biografia de um longo texto do Danilo Arnaldo Briskievicz, disponível na internet:

JOAQUIM FERREIRA DE SALLES (12-07-1879 – 02-02-1962): militou em diversos jornais cariocas de seu tempo, tendo sido diretor e proprietário de A Notícia, de 1918 a 1923. Eleito deputado à Câmara Federal em 1915, por Minas Gerais, foi continuamente reeleito até 1930. Ao eclodir a Revolução encontrava-se na Europa, onde permaneceu até 1932, quando abandonou a atividade política. Nos primeiros anos do Estado Novo voltou por breve tempo ao jornalismo novamente à frente de A Notícia. Nas décadas de 50 e 60, iniciou a publicação de suas memórias no Jornal do Comércio e depois no Diário Carioca, memórias essas que culminaram na obra Se não me falha a memória, publicada somente em 1993.

Para acesso ao texto de Danilo A arte da tipografia e seus periódicos.(2002), cliqueaqui.

Estive no Caraça uma única vez, em 2007, com meu pai Eugênio e minha saudosa mãe Genny, ciceroneado por meu amigo João Bosco Custódio, que residiu por lá alguns poucos anos, a trabalho.

Durante o passeio fiz a foto abaixo, que retrata a igreja; abaixo aparece o telhado do colégio e ao fundo a serra.

Santuário do Caraça

João Bosco e filhas com minha saudosa mãe Genny e meu pai Eugênio junto às ruínas do colégio incendiado há meio século

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Psiquiatra garante que muitos torturadores dos anos 1970 eram psicopatas e outros roubavam das vítimas

A presidente da República Federativa do Brasil e ex-guerrilheira Dilma Rousseff criou a Comissão da Verdade para reinstalar na agenda pública a questão das torturas aos militantes esquerdistas durante a ditadura militar (anos próximos a 1970).

Ainda não conseguiu sensibilizar a mídia, mas eu aproveito o gancho para extrair dois trechos de uma entrevista do psiquiatra e também ex-guerrilheiro Reinaldo Morano Filho ao caderno Aliás, d’O Estado de São Paulo, edição de 19/05/2012.

O primeiro trecho exemplifica uma situação que apareceu, com frequência, em relatos de presos políticos: o uso deturpado do “patriotismo” para ocultar de roubos perpetrados por agentes públicos:

Eu mesmo tenho coisas que gostaria de tornar públicas. Fala-se pouco dos furtos cometidos por agentes da repressão na época. Obras de arte, objetos pessoais, etc. Eu tinha um fusquinha 1967, adquirido com meu salário de funcionário do Banco do Brasil. Comprei da mãe de um colega do curso de medicina. Quando fui preso, dia 15 de agosto de 1970, o levaram. Anos mais tarde, acho em um arquivo de Campinas uma série de documentos: primeiro, um auto de apreensão do Fusca, datado de 16 de abril de 1971, quase um ano depois. Então, um encaminhamento do juiz auditor alegando que o veículo fora adquirido ‘com dinheiro da organização terrorista’. Em seguida, o mais fantástico: o carro foi transferido para o delegado Renato D’Andrea, citado em todas as listas de torturadores.”.

E o segundo trecho lembra outra situação comum em relatos de presos políticos: agentes com sinais de depravação mental, psicopatas mesmo, que se aproveitaram da posição indefesa dos esquerdistas para dar vazão aos instintos criminosos:

A (psicanalista e membro da CV) Maria Rita Kehl usou uma expressão para ser referir a isso: gozo, um termo lacaniano. Eu chamo de prazer mesmo. Um prazer sádico, do poderoso que é dono da situação diante de alguém desamparado. Esse sadismo se manifesta às vezes de forma sexualizada. Por isso, a quantidade de estupros e abusos.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

Os antigos pousos para tropeiros eram essenciais para garantir o transporte de mercadorias para as pequenas cidades do interior

Os caminhões são os principais transportadores de mercadorias dos tempos contemporâneos; graças a eles a população recebe os produtos indispensáveis à alimentação, vestuário, trabalho e lazer.

No passado não tão distante este papel era representado pelos tropeiros, que faziam um trabalho bem mais árduo do que os sucessores motorizados.

As mercadorias eram transportadas de cidade para cidade no lombo de burros, sob intempéries, em caminhos cansativos e perigosos.

Era a única forma que nossos antepassados possuíam para receber os produtos de subsistência, e nas pequenas cidades e vilas o sistema perdurou até meados do século 20. Meados, repito.

E o perigo de assaltos que hoje ronda o caminhoneiro já existia: um velho vizinho recentemente falecido contou que foi tropeiro até madura idade e acrescentou que, naqueles tempos e em certos lugares, a justiça se fazia à margem do Estado.

Contou o caso de dois rapazes que furtaram o dinheiro que estava na sela de uma mula mais afastada do lote mas acabaram descobertos.

Boletim de ocorrência? Queixa na delegacia? Denúncia anônima? Na região de Medina, cidade mineira, a realidade era bem mais objetiva, e mais crua: foram executados na beira de um riacho.

Como os caminhoneiros dependem dos postos de parada, os tropeiros também dependiam de pontos de apoio que, muitas vezes, montaram estruturas profissionalizadas.

Esta era uma fonte de renda adicional do coronel Juca Cândido, dono de uma fazenda no distrito de Milho Verde, município do Serro, a 312 quilômetros da capital Belo Horizonte.

Seu filho Herth Terezinho Alves, que completou 85 anos em 07/06/2012 (Parabéns!), gravou uma entrevista em 2005 (disponível no YouTube) relatando que o pai instalou um pouso para tropeiros e alugava o pasto onde os animais passavam a noite ou mesmo descansavam de dia, quando necessário.

Extraí da entrevista esta descrição: “Ele cobrava 200 ou 300 réis por cabeça e as mercadorias mais comuns que eram levadas para Diamantina eram queijo, café e toucinho. E voltavam de Diamantina fazendo carreto para as lojas do Serro com querosene, sal, sabão. Vinham da região da mata: Sabinópolis, Guanhães, Itabira. Eram cinco, seis lotes por dia.”.

Os herdeiros do coronel administram o Hotel Rancho Velho e as terras estão hoje nas mãos de Herth e de seu irmão mais velho Zezé.

Assim era a vida de nossos antepassados, seja como consumidores, seja como parte desta cadeia econômica.

Os costumes mudaram com tanta rapidez que as pessoas típicas das grandes cidades só sabem da importância – ou até mesmo da existência – dos tropeiros por algum vínculo familiar ou por estudos de História.

Mas qualquer enquete informal vai indicar que a maioria de seus avós e bisavós vieram de pequenas cidades e vilas que dependiam de tal forma de transporte, e as hoje pequenas e históricas Serro, Diamantina, Conceição do Mato Dentro e Ouro Preto, com o auxílio de algumas outras, formam a base da população da capital Belo Horizonte.

Para acesso ao vídeo da entrevista, cliqueaqui.

Capturei a imagem abaixo de Herth dando a citada entrevista: