Passou despercebida pela mídia a implantação de chips em todos os veículos do Brasil

Passou despercebida pela mídia – embora ela seja carente de notícias na virada do ano – a entrada em vigor, desde o primeiro dia deste janeiro de 2013, da implantação de chips em todos os veículos do Brasil.

De acordo com o jornal O Estado de São Paulo, edição de 07/10/2012, “o Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav) pretende substituir os atuais radares por antenas capazes de se comunicar com os chips de uso obrigatório que deverão ser instalados nos para-brisas dos veículos. Um veículo em excesso de velocidade, em lugar de ter sua placa fotografada por um radar, teria então os dados de seu chip registrados em um sistema informático que o autuaria pela infração. Além disso, o sistema também poderá ser usado na cobrança de pedágio, no controle do tráfego, na identificação de veículos com multas ou impostos atrasados e na localização de veículos furtados ou roubados”.

Mas a matéria da qual extraí as informações acima não é uma notícia, e sim um artigo altamente crítico de Túlio Vianna, professor da Faculdade de Direito da UFMG, também autor do livro Transparência Pública, Opacidade Privada. Portanto, um especialista na relação cidadão-Estado.

Ele abre o segundo parágrafo com o primeiro ataque: “Ainda que a propaganda oficial procure dar destaque à suposta capacidade de inibir os ladrões de veículos, é pouco provável que, na prática, o sistema alcance esse objetivo. Isso porque o chip pode ser arrancado do para-brisa e inutilizado”.

E o terceiro parágrafo com uma crítica de cunho político: “Não se trata, pois, de um sistema criado para proteger motoristas de furtos ou roubos, mas sim para aumentar a arrecadação de multas, impostos e pedágios.”.

Todo o artigo é contrário ao sistema e inclui também esta comparação global: “Nos EUA, na Europa e em outros países desenvolvidos e com a democracia já consolidada nenhum sistema como esse foi implantado em escala massiva e com uso obrigatório.”.

Inegavelmente, qualquer controle deste tipo carrega uma ambiguidade: é positivo quando ajuda a vítima de um furto ou sequestro mas, por outro lado, permite e facilita aos órgãos públicos o acompanhamento mais efetivo das atividades dos cidadãos.

E, infelizmente, sabemos que as multas – leia-se, arrecadação de dinheiro para os cofres públicos – é o objetivo real das autoridades.

Mas existe um risco inerente, pois o mau uso dos modernos recursos da tecnologia traz consequências negativas para os cidadãos.

O exemplo mais conhecido é o avanço do sinal (semáforo) por parte de um motorista pressionado por uma ambulância, um carro de polícia ou um transeunte em atitude suspeita.

É pouco provável que o sistema possua capacidade de prever e documentar esta situação, o que vai aborrecer muita gente. E tomar seu suado dinheirinho.

Nada se faz no Brasil sem avanços e retrocessos simultâneos.

Para acesso ao texto citado, cliqueaqui.

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Cientista Ennio Candotti atribui o acidente da Antártica/Antártida à mentalidade militar, que prefere armas à ciência

Já está em curso o processo de esquecimento do acidente da Antártida (uma explosão seguida de incêndio que destruiu, no dia 25/02/2012, boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém naquele continente).

É inevitável: a tradução inglesa para “notícias” (news) é mais realista que a versão brasileira, pois a mídia vive das novidades e a memória popular a segue, cordeirinha…

Mas o esquecimento não é bom conselheiro: quando lutar contra as causas perde prioridade, o problema permanece, com suas mazelas e o risco da repetição.

Achei insuficiente a explicação (ou desculpa) usada pelos responsáveis locais como causa do acidente: falta de investimentos do governo.

Adaptar-se a um orçamento real é tarefa de qualquer administrador, público ou privado; o descuido na segurança sugere erro, incompetência, acomodação.

Para relembrar o acidente e lutar contra o perigoso esquecimento, trago trechos de uma entrevista de Ennio Candotti (físico formado na USP, quatro vezes presidente da SBPC e o atual vice, professor da Universidade Federal do Espírito Santo) ao caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 04/03/2012.

Perguntado pela repórter Mônica Manir sobre a relação entre a carência de recursos financeiros e os acidentes de Alcântara (2003), Instituto Butantan (também incêndio, 2010) e na base na Antártida, respondeu:

Eu não associaria diretamente esses acidentes à falta de recursos. Acompanhei o que ocorreu em Alcântara e as razões eram muito mais estruturais e relacionadas ao modo como se organizavam os cuidados com a segurança, por exemplo. A explosão poderia ter acontecido mesmo se houvesse muitos recursos à disposição. No caso da Antártida, havia também regras de segurança específicas, que podem não ter sido devidamente obedecidas, ou a manutenção dos equipamentos pode não ter sido feita.”.

Candotti não tentou agradar a classe dos militares; pelo contrário, atribuiu a eles uma tendência para cometer erros administrativos e estratégicos:

Nas Forças Armadas, nenhum grito ultrapassa as continências. Além disso, um militar, entre investir em ciência e investir em mais corvetas, ele investe em mais corvetas. Entre a base da Antártida e comprar dois novos navios de proteção das fronteiras, compra os dois navios. A atividade de pesquisa é uma atividade nobre, mas não é considerada essencial.”.

A repórter também perguntou: “Mas a base recebeu muitas críticas por sua estrutura em módulos próximos, em que os geradores dividiam quase o mesmo espaço com laboratórios, biblioteca, alojamentos. Não faltou investimento em modernização?”. E acrescentou: “A próxima base brasileira na Antártida será desenhada por civis, e não mais construída como se fosse uma instalação militar.”.

Candotti respondeu:

É isso mesmo. Se os militares querem a colaboração com os cientistas, essa colaboração não é apenas como usuários da infraestrutura. Precisamos desenhar essa infraestrutura juntos, precisamos desenhar os veículos espaciais juntos, precisamos pensar de comum acordo os projetos. Isso vale para os navios oceanográficos também. De vez em quando acontecem esses lamentáveis incidentes e todo mundo acorda. Agora, a atividade científica é perigosa e suscetível a isso. É perigosa com muitos recursos, imagine com recursos escassos.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista realizada por Mônica Manir, cliqueaqui.

Nova crise se avizinha, e o Brasil ainda é ineficiente na produção industrial dos produtos que exporta

Por todo o século 20 se falou que o Brasil estava errado em ter uma política econômica basicamente exportadora de produtos primários e importadora de produtos industrializados.

Ok, a situação melhorou bastante. Mas boa parte do que ainda é exportado poderia receber processamento industrial nas terras brasileiras, em indústrias nacionais, contratando mão de obra também local, além de especializada e melhor remunerada.

Com o acima exposto concorda o físico Ennio Candotti (quatro vezes presidente da SBPC e o atual vice, também professor da Universidade Federal do Espírito Santo) e assim falou ao caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, edição de 04/03/2012:

Veja, ainda temos um perfil de exportador de matérias-primas. A China nos manda produtos elaborados e nós mandamos matérias-primas. Ela vem fazendo isso nos últimos cinco, oito anos. Há dez anos, portanto, a China não era exportadora de matérias elaboradas. Ou seja, em uma década, o perfil da economia de um país pode mudar, mas isso exige planejamento, esforço concentrado. Temos uma pauta de exportações em que o valor agregado é ainda muito modesto. O fato de termos poucas patentes reflete isso. Discutíamos isso 30, 20 anos atrás, no início da industrialização da Coreia, e ainda não produzimos um carro nacional. A Índia está fabricando um carro de US$ 2 mil, a China vende automóveis muito baratos. Não saberíamos fazer coisa semelhante? Saberíamos, sim. Talvez o fato de exportarmos grãos e minérios nos dê uma situação cômoda de poder gerar riqueza sem investir muito em inteligência.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista realizada por Mônica Manir, cliqueaqui.

Analista Celso Ming diz que a Embrapa perdeu o bonde e está em decadência por influência política e ideológica

Sempre fico decepcionado com a dificuldade brasileira de associar a eficiência com o longo ou longuíssimo prazo.

Segundo o jornalista Celso Ming, especialista em economia e colunista do jornal O Estado de São Paulo, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), de participação decisiva na evolução tecnológica da agricultura brasileira, está em franca decadência.

Na coluna de 01/04/20112 diz que “há cinco anos, sementes com tecnologia da Embrapa respondiam por 50% da produção de soja do Brasil; hoje, não passam de 10% – estima a consultoria Céleres. Esse encolhimento não se deve apenas à insuficiência de recursos para pesquisa, mas também a graves equívocos estratégicos do passado”.

E detalha:

Durante bom tempo, contaminada por preconceitos ideológicos, a administração da Embrapa se recusou a avançar no desenvolvimento de técnicas de modificação genética. Temia pela produção de aberrações vegetais e de prejuízos para a saúde e para o meio ambiente. Bastou isso para que a pesquisa nacional do setor se ananicasse. Abriu-se espaço enorme, hoje dificilmente recuperável, para sementes transgênicas de grandes multinacionais, como Monsanto, Syngenta e Bayer CropScience. 

A regulamentação para liberação das culturas transgênicas no Brasil ocorreu em 2005. Desde então, a CTNbio, organismo encarregado de aprovar sementes geneticamente modificadas no País, liberou 32 variedades, duas produzidas pela Embrapa. Nenhuma delas está no mercado.”.

Ming foi bem direto no título do artigo: “A Embrapa perdeu o bonde”.

Ele não se aprofunda na questão político-ideológica, mas é fato que grupos de ecologistas-radicais aninhados no PT sempre foram contrários ao latifúndio e ao agronegócio, atividades que souberam usar as tecnologias aperfeiçoadas pela Embrapa.

Os mesmos grupos torcem o nariz para os alimentos transgênicos, muitas vezes com argumentos embasados em fantasia pura.

Para acesso ao texto, cliqueaqui.

Explosão da base da Antártida ressalta as questões da falha de segurança e do custo elevado para resultados duvidosos

No recentíssimo dia 25/02/2012, uma explosão seguida de incêndio destruiu boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém no continente gelado do sul da Terra.

A jogada de marketing do dia 28 de fevereiro foi centralizar a atenção nos dois mortos, o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos, cujos corpos foram recebidos no Rio de Janeiro com honras militares, com a presença do vice-presidente da República, Michel Temer, e do ministro da Defesa, Celso Amorim; ademais, foram agraciados com o grau de comendador da Ordem do Mérito da Defesa e postumamente promovidos a segundos-tenentes.

As tragédias humanas sempre garantem o desvio da atenção, a troca de foco…

Infelizmente, o acidente representa apenas mais um ponto na elevada estatística de falhas na construção e manutenção de obras e prédios do Brasil; um mês antes caíram três no Rio de Janeiro.

Neste tipo de acidente o erro é humano, quase sempre; mas dificilmente o público receberá informações sobre o que realmente ocorreu neste caso, pois o controle da base é militar e ela está localizada longe demais para permitir investigações independentes.

E existem velhas dúvidas sobre a importância real de um gasto de milhões na manutenção da estação, inaugurada em 1984 (a questão começara em 1975, durante o Regime Militar, quando o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica).

Em resumo: gasta milhões para ter presença na região e obter vantagens caso apareça uma situação propícia a tal, num futuro inescrutável, desconhecido, imprevisível.

Por enquanto, o continente hipergelado continua sendo, aparentemente, de pouco valor econômico ou geopolítico.

Ecologista Jared Diamond afirma que Brasil dá mau exemplo na preservação de suas florestas tropicais

O biogeógrafo americano Jared Diamond talvez seja o mais conhecido ecologista do planeta, e um grande apologista dos perigos da falta de preservação dos recursos naturais.

Em longa entrevista concedida ao caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o jornalista levantou a seguinte questão: “Alguns cientistas afirmam que não se pode dizer ao certo que o aquecimento global seja culpa da ação do homem; pode ser parte de um ciclo natural da Terra.”.

Diamond respondeu: “O argumento de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje sejam apenas naturais é simplesmente ridículo. Tanto como aquele que nega a evolução das espécies. As evidências de que tais mudanças se devem a causas humanas são irrefutáveis. Os anos mais quentes registrados em centenas de anos se concentram nos últimos cinco que passaram. O planeta já enfrentou flutuações de temperatura no passado, mas nunca nos padrões registrados hoje. Não conheço um único cientista respeitável que afirme que as atuais mudanças de clima não se devam à ação humana.”.

E lembrou que a catástrofe – ele usa mais a expressão colapso – pode ser evitada: “Se ocorrer, será porque nós, humanos, o causamos. Não há segredo sobre quais são os problemas: a queima exagerada de combustíveis fósseis, a superexploração dos pesqueiros no mundo, a destruição das florestas, a exploração demasiada das reservas de água e o despejo de produtos tóxicos. Sabemos como proceder para resolver essas coisas. O que falta é vontade política.”.

Foi discreto e cavalheiresco quanto à participação do Brasil na degradação do meio ambiente; no resumo que abriu a reportagem, os editores da matéria relatam que ele “avalia que o Brasil dos combustíveis verdes tem sido ‘uma inspiração para o mundo’, mas também um ‘mau exemplo’ na preservação de suas florestas tropicais”.

Para acessar o inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

Número de telefone vai passar a ter nove dígitos

No início da década de 1970 estive em Paracatu (MG) para assistir corridas de cavalos e fiquei surpreso quando dei um telefonema local e descobri que o número tinha apenas dois dígitos: uma fagulha de memória me garante que era 29, ou talvez 40.

E, também vagamente, me lembro de que precisei da intervenção de uma telefonista pública.

Na capital Belo Horizonte o número de dígitos já era, então, bem maior do naquela terra natal do meu avô, mas bem menos do que os atuais oito.

E o formato atual não vai durar muito tempo: o telejornalístico Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 22/12/11, anuncia que “os números de telefone vão passar a ter nove dígitos. A mudança começa em São Paulo”.

Ainda bem que decorar número de telefone não é uma necessidade: celulares, aparelhos sem fio, agendas eletrônicas e computadores dispensam o uso de espaço no disco de memória humana, que fica disponível para tarefas mais interessantes.