Emoções humanas: psicólogos explicam que “soltar os cachorros” faz tão mal quanto guardar mágoa

Desde jovem ouço falar que as pessoas devem reagir sempre que são provocadas, pois guardar mágoas e ressentimentos é péssimo, é uma fonte de sentimentos negativos futuros.

Mas a minha experiência de vida foi me ensinando que reagir com dureza é igualmente ruim, pois gera novos problemas, inimizades e até demissões.

A reação ideal está em algum ponto entre a explosão e a carneirice, e para isso as pessoas precisam se preparar, até mesmo treinar.

Esta ambígua situação foi o tema de uma reportagem com um título que já resume dilema e solução: “Soltar os cachorros’ faz tão mal quanto guardar mágoa; equilibre-se”.

Foi publicada no site UOL (que pertence ao jornal Folha de São Paulo) e se baseou em entrevistas com dois psicólogos.

Eles explicaram que pais tendem a ensinar aos filhos a reprimir sentimentos e reações, mas as consequências podem ser negativas e até levar à depressão.

Mas também não defendem uma reação à altura da provocação: “Pessoas que reagem instintivamente às situações, sem antes refletir sobre o acontecido, geralmente se envolvem em discussões desgastantes, saem ainda mais magoadas e, pior, não conseguem resolver o caso de um jeito eficiente. A expressão ‘quem fala o que quer, ouve o que não quer’ veste os mais impulsivos como uma luva.”.

 

No decorrer da entrevista, os especialistas entrevistados sugerem estratégias interessantes para evitar os dois extremos – e suas consequências – com base no conceito lógico de que “é sempre melhor deixar para voltar ao assunto numa ocasião em que o lado racional poderá falar mais alto que o emocional”.

Parabenizo as repórteres Marina Oliveira e Rita Trevisan, que produziram um belo exemplo de jornalismo com valor social, e sugiro a leitura completa do texto.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

João Ubaldo Ribeiro critica a falácia dos governistas que continuam culpando as fantasiosas “elites”

Bem poucos anos atrás, flagrei um comentário interessante numa conversa entre dois (razoavelmente veteranos) participantes de movimentos de esquerda (atuaram em sindicatos e partidos):

– Não são bons tempos para os militantes de esquerda!

Mas uma leitura simplista e crédula dos discursos de autoridades constituídas indica o contrário: muitos dizem fazer uma administração “de esquerda”, portanto a “esquerda” parece fazer parte do Poder.

A contradição se explica pela amplitude do conceito de esquerda-direita, que permite a adaptação a qualquer uso.

O contrassenso ocorre com o poder central brasileiro (PT, PSB), que usa o mesmo discurso, mas mantém a base capitalista (historicamente associada à “direita”).

Outra falácia comum é situar os adversários do povão na classe etérea das “elites”.

Com tal figura, os governantes que se dizem esquerdistas explicam – ou tentam explicar – as dificuldades para resolver com rapidez as diferenças socioeconômicas da população.

E seguem remando…

Mas o mestre da ironia não perdoa: com a crônica “Que elites, que esquerda?”, publicada na edição de 17/03/2013 do jornal O Globo (e em vários jornais do país, pois é vendida por agência), João Ubaldo Ribeiro criticou e ridicularizou os inimigos das elites.

Escolheu o alvo: “…esse de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos”.

Critica um dos argumentos dos esquerdistas de ocasião: “Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político.”.

E mais outro: “Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe?”.

E aproveitou para implodir realizações governamentais: “[…] do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal?”.

Para aqueles que não se autoproclamam esquerdistas, informo que o texto completo pode ser acessado clicandoaqui.

 

Andres Oppenheimer, analista de política internacional, acredita que o bolivarianismo de Chávez esteja decadente

E a mídia segue sua velha rotina: manchete hoje, pé de página amanhã.

O que foi tratado ontem com destaque e até estardalhaço, hoje mal recebe uma mísera nota, como está acontecendo com a tragédia dos 241 mortos dia 27/02/13 em Santa Maria (RS)…

…e o impacto político da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, em 05/03/13.

Mas o último caso tem data marcada para a volta à primeira página dos jornais: dia 14 de abril próximo, data da eleição do sucessor de Hugo Chávez.

Com atraso, li uma boa análise sobre o legado dele, redigida pelo jornalista Andres Oppenheimer (jornal The Miami Herald, EUA) e publicada pelo O Estado de São Paulo de 10/03/13.

A velha e fundamental economia é tida por ele como a chave (assumo o trocadilho) do sucesso do recém-falecido presidente: “Como os anos de Chávez no poder coincidiram com o maior boom do petróleo na história recente da Venezuela, e porque Chávez distribuiu tanto dinheiro aos pobres, ele muito provavelmente será lembrado mais como um ‘defensor dos pobres’ do que como o populista que destruiu o setor privado do país, afugentou investimentos e deixou a Venezuela mais dependente de petróleo do que nunca.”.

Oppenheimer situa em 2008 o auge do prestígio internacional do coronel venezuelano, coincidindo com o preço recorde de 146 dólares do barril de petróleo.

Embora acredite que o chavismo vai perdurar na Venezuela, o autor entende que “os ciclos políticos da América Latina tendem a mudar a cada tantos anos”, mas o bolivarianismo está datado:

Assim como tivemos ditaduras militares nos anos 70, social-democracias nos 80, governos favoráveis ao livre mercado nos 90 e chavismo nos anos 2000, podemos estar entrando em uma nova década de um pragmatismo um tanto diferente, preferivelmente democrático.”

Uma visão não muito otimista da América Latina, que realmente mais patina e escorrega do que corre em direção a um futuro idealizável.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Duas éguas brancas galopando na pista de grama do Hipódromo da Gávea

Faço algumas fotos verticais de cavalos galopando, mas elas ocupam muito espaço na tela do computador. Uma opção é montar duas fotos verticais, lado a lado, para distribuir melhor o espaço.

E escolhi as imagens abaixo, das éguas Zafira e Spring Love, ambas da raça Puro-Sangue Inglês, que até recentemente participavam de corridas no Hipódromo da Gávea, Rio de Janeiro. Acho que merecem ilustrar o meu blog pois ficaram bem nítidas, embora estivessem em movimento (galope de apresentação ao público).

Os equinos de pelagem tordilha (pelos brancos e pretos) são os preferidos do público que comparece aos hipódromos por serem mais raros e – imagino eu –mais vistosos por causa do contraste de cores com o ambiente.

Éguas Zafira e Spring Love, ambas da raça Puro-Sangue Inglês

Éguas Zafira e Spring Love, ambas da raça Puro-Sangue Inglês

Acumulação compulsiva de cães: um problema psiquiátrico com reflexos na saúde pública (agravado pela ineficiência das autoridades)

O título que se segue já resume bem uma matéria do site UOL (propriedade do jornal Folha de São Paulo) de 18/03/13: “Incêndio mata 43 cães em Curitiba; dona era ‘acumuladora compulsiva’, diz prefeitura”.

Achei especialmente interessante a classificação psíquica da dona da casa incendiada e dos cães:

’Ela se encaixa em todos os critérios que definem um acumulador compulsivo’, afirmou Biondo, que também é professor de Medicina Veterinária da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e fez pesquisas sobre o assunto em sua pesquisa pós-doutorado nos EUA. 

Como o distúrbio ainda é pouco conhecido no Brasil, um laudo psiquiátrico que faz parte da ação judicial atesta que a proprietária dos cães é ‘mentalmente saudável’. Nos Estados Unidos, o problema só foi incluído na classificação de doenças mentais em janeiro deste ano. 

‘Ainda não temos profissionais aptos a identificar o distúrbio nem legislação que nos permita entrar nas casas dos doentes. Mas o caso dela é típico. Ela recolhia coisas que encontrava na rua, no lixo, e levava para casa. Há meses teve água e eletricidade cortadas por falta de pagamento’, disse Biondo. Daí o uso da vela, provável causa do incêndio, para iluminar a casa. 

‘Em geral, os portadores do distúrbio são mulheres de alguma idade e solitárias. Elas fecham a casa, fogem do contato com as pessoas. Com a progressão da doença, passam a acumular também animais e jamais cogitam entregá-los à adoção’, informou.

O absurdo é a dificuldade do poder público em resolver este tipo de problema; no caso curitibano, a matéria diz que “o acúmulo de cães na casa era conhecido pela prefeitura, Ministério Público e Spac (Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba), que movia ação judicial por maus-tratos contra a proprietária”.

Acrescenta que “Prefeitura e Spac esperavam uma decisão judicial que lhes permitiria entrar na casa e recolher os animais para a sexta-feira (15). Mas a sentença não saiu”.

A lerdeza imposta pela legislação, com uma pitada de acomodação dos órgãos executores, cria consequências para a saúde pública, afetando quem não tem culpa pela compulsão patológica da curitibana:

A situação incomodava os vizinhos. ‘O cheiro é horrível, a sujeira atraía ratos. Acho que ela tem aquela doença dos acumuladores compulsivos’, afirmou a comerciante. Os 29 cães que sobreviveram foram levados ao abrigo da Spac.

Não é um caso incomum (o incêndio foi o fator que deu a notoriedade); arrisco dizer que qualquer cidade grande tem vários exemplos, ainda que menos exagerados.

Enfrentei situação bem parecida em Belo Horizonte, há uma década: um vizinho manteve dezenas de cães em imundície, inclusive com casos positivos de leishmaniose.

Órgãos públicos receberam denúncias, mas ele não permitia a entrada de fiscais; estes aplicavam multas, que certamente nem eram pagas.

Para piorar, o acumulador compulsivo mineiro era diabético e sofreu amputação de dedo, situação incompatível com a imundície do local de sua convalescença e convivência.

Menos dramática e bem mais original foi o caso de uma ex-vizinha, que era acumuladora compulsiva de… marimbondos.

Quando reclamamos, explicou que eles eram de uma “raça mansa”.

Impressionado com o inusitado, numa tarde de agosto de 2003 coloquei um banquinho junto ao muro e tirei uma foto, mas o ângulo e a grade não ajudaram a definir bem a imagem, que não merece ser publicada no blog. Vale o meu testemunho.

Algum tempo depois ela instalou um anteparo escuro no alto do muro, provavelmente porque percebeu que algumas de minhas visitas também usavam um banquinho para admirar o inusitado. Anos depois se mudou.

Típico da “raça brava” humana: não se importa em incomodar, mas trata da reação externa de defesa como um incômodo inaceitável.

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As afirmações sobre o poder cancerígeno dos adoçantes artificiais são improváveis

Embora eu nunca tenha sido candidato à “turma dos gordinhos”, lá pelos 20 e poucos anos de idade me interessei por estudar – e praticar – a alimentação saudável.

Apreciador de doces e chocolates, esbarrei com uma dificuldade: a persistente informação de que o mais popular dos adoçantes, a combinação sacarina-ciclamato de sódio, seria cancerígeno.

Mas todas as referências se voltavam para um único estudo, realizado nos anos 1960, tendo ratos como cobaias.

Curioso, li o tal estudo no original, publicado em uma revista científica; me pareceu uma fonte frágil para criar um conceito definitivo.

Mais três décadas se passaram e as suspeitas sobre o fator cancerígeno não receberam nenhum reforço de peso; ou seja, tornou-se um trabalho isolado, sem poder de influência científica, real.

Ainda assim, continua respeitado por alguns profissionais das áreas de medicina e nutrição, e com isso assustando as pessoas…

…e causando preocupações e prejuízos a diabéticos e obesos.

Os críticos dos adoçantes sempre encontram espaço na mídia para defender posição, divulgar seus nomes e fazer marketing pessoal/profissional.

Um recente exemplo foi a matéria com o tendencioso título “Só deve usar adoçante quem realmente precisa, defendem especialistas”, publicada em 15/03/2013 no portal UOL (que pertence ao jornal Folha de São Paulo).

Logo no lide (parágrafo de abertura), a autora praticamente empurra o leitor para o lado negativo: “Desde que os adoçantes foram criados, na década de 1960, várias dúvidas e polêmicas surgiram no rastro do produto colocando em dúvida não só sua eficácia, mas, principalmente, seus efeitos sobre a saúde. Embora vários estudos ainda não sejam conclusivos, convém saber mais sobre o assunto e sempre ouvir a opinião de especialistas.”. Nem a “eficácia” nem os “vários estudos” aparecem, de fato, na sequência da reportagem.

Como texto jornalístico, falhou ao ouvir os dois lados ao usar uma balança desequilibrada: a bandeja dos críticos tinha duas entrevistas com nutricionistas enquanto a dos defensores trazia apenas uma referência a uma cartilha avalizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A cartilha se baseia no Informe Técnico n. 40 da Anvisa; para não alongar, extraio um único e importante trecho: “Há aproximadamente 475 estudos científicos comprovando que o ciclamato não é carcinogênico.”.

E acrescento um trecho importante extraído diretamente do próprio Informe Técnico n. 40 da Anvisa, que é um órgão ligado ao governo brasileiro e ao Ministério da Saúde: “Em 1999 o ciclamato foi classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) como pertencente ao Grupo 3, isto é, não carcinogênico para humanos.”.

O fato é que a diabete e as doenças causadas pela obesidade são deprimentes: provocam dores fortes, lesões, gasto elevado de dinheiro, depressão, sofrimento e elevada mortalidade.

A crítica aos substitutivos do açúcar precisa ser mais responsável e deveria se ater a fatos concretos. E dar mais espaço aos especialistas possuidores de uma visão científica mais aberta, menos radical.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Para acesso ao Informe Técnico n. 40 da Anvisa, cliqueaqui.

Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (XVII)

Encerro nesta oportunidade a republicação de trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia. Pelo tom das críticas certamente teria sido preso e, talvez, torturado se tivesse sobrevivido mais um pouco.

Espero que meus leitores tenham se divertido.

E seguem os três últimos eventos:

Um grupo de Teatro Amador da Guanabara ia a Sergipe para encenar ‘Joana em Flor’, de autoria do coleguinha Reinaldo Jardim, e o General Graciliano não sei das quantas, secretário de segurança, mandou chamar a rapaziada, mantendo o elenco preso por várias horas, proibindo a peça, emitindo opiniões sobre teatro, citando autores, entre os quais J. G. de Araújo Jorge, não antes de ser soprado pelo ordenança, e disse que todo mundo era subversivo. Depois fez uma declaração digna de um troféu: ‘Em Sergipe quem entende de Teatro é a Polícia’. 

E quando a gente pensava que tinha diminuído o número de deputados cocorocas, aparecia o parlamentar Tufic Nassif com um projeto instituindo a escritura pública para venda de automóveis. Na ocasião enviamos os nossos sinceros parabéns ao esclarecido deputado, com a sugestão de que aproveitasse o embalo e instituísse também um projeto sugerindo a lei do inquilinato para aluguel de táxis. 

O novo chefe do Serviço de Censura, Sr. Romero Lago, enviava telegrama a todas as delegacias do Departamento Federal de Segurança Pública ordenando que impedissem cineastas estrangeiros de filmarem no Brasil, ‘a fim de evitar que distorcessem a realidade nacional’. Que grande pessimista o Dr. Lago, capaz de acreditar que exista um cineasta tão maquiavélico a ponto de distorcer a realidade nacional.