A tragédia de Santa Maria foi apenas mais um exemplo da incapacidade brasileira de cuidar de questões preventivas

Entre os vários sentimentos que me atingiram após a morte coletiva, desesperadora, de duas e meia centenas de jovens em Santa Maria (RS, 27/01/13) está o da vergonha.

Vergonha por nossa sociedade ainda permitir que desastres facilmente evitáveis ainda produzam tragédias, mortes e destruições de tamanho alcance.

A mídia informou que o alvará estava vencido em julho de 2012, mas o fato é que até aquela data ele existia; portanto a administração pública entendia que colocar mais de mil jovens num galpão com uma única saída era aceitável e legal.

A boate Kiss parece um container de navio, e com um acesso externo bem mais reduzido.

E um oficial do Corpo de Bombeiros local ainda disse na tevê que o alvará poderia ter sido facilmente renovado, pois havia extintores de incêndio e as demais exigências de lei estavam atendidas.

Por que a Prefeitura e o Corpo de Bombeiros não usam algum simples programa de computador para registrar as datas de vencimento de alvarás, o que facilitaria uma imediata notificação com a proibição de funcionamento?

E criam uma estrutura capaz de fazer as vistorias em prazo hábil?

É um absurdo o uso de galpões improvisados, geralmente originários de indústrias ou empresas que quebraram – ou apenas os desativaram – anos ou décadas antes.

Eventos com centenas de participantes são sempre de risco; deveriam ser ao ar livre ou em construções projetadas exclusivamente para tal.

Soltar fogos de artificio em lugar fechado, não projetado para tal, é ilógico, irracional. Se a lei permite, é irresponsabilidade de quem a elaborou, ou de quem não corrigiu.

E a preocupação de conferir a consumação de bebidas e outros alimentos é coisa de Terceiro Mundo, de quem tem sobra de mão de obra sem qualificação para rodar as mesas e incentivar o consumo (e acrescentar na conta alguns itens não usados).

(Por conta disso, foi retardada a evacuação daqueles que tentavam fugir do pandemônio.)

No Primeiro Mundo, o que se pede em lanchonetes de eventos coletivos se paga no ato de entrega; não há empecilhos à saída do freguês.

A boate Kiss – muitos sempre souberam, mas o povo brasileiro só sabe agora – era um local de permanente risco de alguma tragédia coletiva.

E não seria surpresa se aparecerem indícios de corrupção de fiscais municipais; não é possível que a legislação seja tão frouxa, alguma etapa deve ter sido transposta irregularmente para que os promotores continuassem realizando eventos com tantos fatores de risco.

Comemora-se a quatro ventos a evolução da economia brasileira, o ufanismo às vezes se assemelha àquele artificialmente criado pelo regime militar do general Médici, mas o amadorismo e a irresponsabilidade que acompanham fatos como este são uma vergonha.

A vida humana vale pouco nesta terra.

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