Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (XIV)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

Começa o novo martírio de Tiradentes! Um historiador mineiro levantou a questão, dizendo que Tiradentes barbudo e cabeludo era besteira, pois o mártir da Independência era alferes, e portanto, usava cabelo curtinho, como todo militar. O bla-bla-blá comeu firme e obrigou o Marechal Presidente a se manifestar, assinando um decreto que estabelecia a figura de Tiradentes a ser cultuada, isto é, seria a mesma da estátua do falecido, colocada na frente do Palácio Tiradentes, antiga Câmara Federal, no Rio. Nessa altura já tinha sido distribuído para as escolas um Tiradentes bem mais remoçado, sob protesto de professoras primárias que diziam ser o outro ‘mais respeitável’. Recolheu-se o Tiradentes mocinho, emitiu-se uma nota de Cr$ 5.000, com a forca aparecendo e o ‘Diário Oficial’ publicou a resolução presidencial de se venerar ‘a efígie que melhor se ajusta à imagem de Joaquim José da Silva Xavier gravada pela tradição na memória do povo brasileiro’. Quando todos esperavam que iam deixar Tiradentes sossegado, no ‘Diário Oficial’ seguinte ao da publicação do decreto presidencial, constava uma retificação que ninguém entendeu, dizendo: ‘Onde se lê Joaquim José, leia-se José Joaquim’. Ora, todo mundo sabe que o nome do mártir era Joaquim José, até mesmo aquele samba da Escola de Samba Império Serrano, que venceu um carnaval, mas os que estavam salvando o país tinham dúvidas. Uma plêiade de altas autoridades esteve reunida para confabular e veio a retificação da retificação, O ‘Diário Oficial’ do dia 27-4-66 publicava: ‘Fica sem efeito a retificação publicada no Diário Oficial de 19-4-66, na página 4.101’. Felizmente a coisa parou aí, do contrário iam acabar escrevendo Xavier com CH. 

Correu o mês de maio mais ou menos tranquilo, embora o Coronel Costa Cavalcanti, deputado pernambucano e líder da tal linha-dura, afirmasse que a candidatura Costa e Silva ‘cheirava a povo’, mostrando um defeito olfativo impressionante. Um outro Coronel, chamado Pitaluga, ainda em maio, ao passar o comando de seu regimento, fez um discurso no qual afirmava: ‘A Revolução de março livrou o mundo da III Guerra Mundial’. Lá no Vietnã todo mundo achou que o Coronel Pitaluga tinha razão.

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