Ex-padre encerra sob críticas mandato na Prefeitura de Diamantina, cidade de larga tradição religiosa

As cidades históricas de Minas Gerais são sempre associadas – corretamente – à cultura barroca e, de consequência, à Igreja Católica.

E nelas os padres católicos eram cidadãos de primeira importância nos séculos 18 e 19.

As famílias geralmente tinham um ou mais padres em seu seio; em minhas pesquisas genealógicas descobri que um irmão de minha tetravó Raquel tinha três dos oito filhos usando batina.

E, como é próprio da espécie humana, eram frequentes os desvios éticos: muitos padres foram também fazendeiros, empresários ou políticos, e as histórias contam que nestas funções não seguiam os conselhos que davam aos fiéis.

Com frequência tinham escravos; outros trancaram as obrigações celibatárias no cofre e jogaram a chave fora, pois tiveram namoradas, amantes, filhos.

O Código Civil de 1916, que vigorou até 2002, registrava o “filho sacrílego”, que era o filho de padre…

A classificação certamente foi incluída no código porque não era uma situação excepcional, era até comum. Ou razoavelmente comum.

Padre político ainda existe, mas é raro: uma exceção recaiu em Diamantina, importante cidade histórica de Minas Gerais, talvez a mais bem conservada delas.

No último dia de 2012 encerrou-se o mandato do Padre Gê, que perdeu a chance de reeleição por pequena diferença.

Na verdade, é um ex-padre: em reportagem do jornal Estado de Minas (2010), ele informou que renunciara recentemente aos votos religiosos por dificuldade de compatibilizar as duas atividades.

Mas não deixou de usar o título de padre na política, ainda um fator de respaldo e respeito numa cidade com tantas tradições católicas.

Não encerrou bem o mandato, foi alvo até de uma comissão de inquérito na Câmara Municipal, o que deve ter ajudado o candidato opositor, Dr. Paulo Célio…

… que ganhou o pleito, mas não esquentou a cadeira pois foi cassado, não por erro seu, mas de seu candidato a vice, Gustavo Botelho Júnior, que teve uma prestação de contas como prefeito rejeitada pelo Tribunal de Contas do Estado.

A administração municipal caiu no colo do presidente da Câmara, seu partidário e adversário do padre.

A manchete do jornal Estado de Minas de 12/01/2013 destacou a possibilidade de cancelamento da participação da prefeitura no carnaval deste ano, por conta da crise financeira do Executivo.

O prefeito interino atribui a culpa ao Padre Gê, que teria deixado os cofres públicos vazios e endividados.

Mais do que de lazer, a questão é econômica, pois as cidades históricas de Minas Gerais tornaram-se os locais da principal manifestação de carnaval no Estado, com grande afluxo de público e de dinheiro.

Longe de mim discutir se o Padre Gê precisa voltar ao confessionário na condição de confessante; não acompanho a política local e vivo no Brasil tempo suficiente para saber que tanto é possível a má administração pública quanto os exageros das acusações de adversários.

Mas Diamantina não merecia toda esta celeuma, e suas consequências.

Para acesso à matéria do jornal Estado de Minas, cliqueaqui.

Ilustro a matéria com uma foto da catedral de Diamantina durante a semana santa de 2012 (08 de abril).  O pano vermelho faz parte do palco que foi usado nas cerimônias religiosas, na porta da igreja.

Ilustro a matéria com uma foto da catedral de Diamantina durante a semana santa de 2012 (08 de abril). O pano vermelho faz parte do palco que foi usado nas cerimônias religiosas, na porta da igreja.

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