As manifestações contra a blogueira cubana Yoani Sánchez no Brasil evidenciaram as contradições dos remanescentes da esquerda

A agressiva recepção brasileira à dissidente cubana Yoani Sánchez é o mais recente exemplo das contradições ideológicas dos militantes de esquerda.

Contextualizando: Yoani Sánchez é uma cidadã cubana que se tornou largamente conhecida, principalmente no exterior, por publicar o blog “Generación Y”, crítico ao governo ditatorial-comunista de seu país, onde é censurado (a publicação depende de ajuda internacional, externa). Atualmente ela também é articulista do jornal brasileiro O Estado de São Paulo. Ela estava proibida de sair da ilha-país e acabou sendo beneficiada por uma mudança da legislação imigratória aprovada em janeiro último. Observação final: geração Y é um conceito sociológico que engloba a geração humana nascida por volta de 1980 (Yoani é de 1975).

Yoani foi recebida no Brasil com manifestações de protesto: a mídia identificou que os agressivos manifestantes eram vinculados a entidades de esquerda, que defendem com unhas e dentes a ideologia socialista e o formato ditatorial da administração cubana, há meio século nas mãos da família Castro.

Pesquisando os sites de notícia mais respeitáveis para entender o perfil dos fanáticos manifestantes, encontrei referências ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e ao grupo denominado União da Juventude Socialista (UJS); o jornalista Reinaldo Azevedo definiu o conjunto como “uma tropa de choque formada por petistas e militantes do PC do B”.

E a revista Veja descobriu a participação do governo brasileiro: “reunião havida na embaixada de Cuba, em Brasília, sob o comando do embaixador Carlos Zamora Rodríguez. […] Disquetes com um dossiê contra Yoani foram distribuídos, e se combinaram ali atos de protesto contra a presença da blogueira no Brasil. […] Havia lá um funcionário graduado do governo Dilma. Trata-se do coordenador de Novas Mídias da Secretária-Geral da Presidência, Ricardo Augusto Poppi Martins, que viajou para Cuba em seguida. […] A pasta de Gilberto Carvalho emitiu uma nota espantosamente mentirosa sobre o caso, na qual havia uma única verdade: a confirmação de que o tal assessor participara mesmo da reunião. Rodríguez confessou uma outra ilegalidade: afirmou que agentes cubanos acompanham cada passo de Yoani no Brasil.”.

A Secretaria-Geral do Planalto, onde Ricardo Poppi está lotado, apresentou três explicações em quatro dias (segundo a Folha de São Paulo) sobre a denúncia, e na terceira afirmou que “um CD entregue a um funcionário da Presidência dentro da Embaixada de Cuba foi destruído assim que ele soube que incluía um dossiê sobre a blogueira dissidente cubana Yoani Sánchez”.

Entre os grupos militantes identificados, a situação mais ambígua, mais contraditória, é a da militância petista.

Afinal, o seu partido, o PT, desde que virou governo continuou se declarando esquerdista embora siga administrando a economia em formato claramente capitalista e, pior, já se envolveu em vários flagrantes de corrupção graúda.

Acrescente-se que democracia nunca foi um dogma da chamada “esquerda radical”: PT e PCdoB possuem um histórico de crítica às ditaduras conservadoras e apoio às ditaduras esquerdistas.

E conheço estudiosos que entendem que não existe contradição quando um militante esquerdista pretende cercear o direito de adversários, pois neste caso predomina a teoria de que a “ditadura do proletariado” é um dogma, que se superpõe ao ideal da democracia.

Nas manifestações contra Yoani Sánchez, a contradição se materializou em confronto no seio partidário: um dos mais conhecidos e tradicionais líderes petistas, o senador Eduardo Suplicy (regularmente eleito por milhões de votos), entrou em confronto verbal com os manifestantes – muitos dele petistas, como relatado pelas fontes da informação – em Feira de Santana ao defender e proteger a dissidente cubana, a quem ciceroneava.

E acrescento à análise um fator sociológico que já é nosso velho conhecido: o espírito reformador da juventude.

As imagens de fotos e vídeos mostraram claramente que quase todos os manifestantes extavam na faixa dos 20 e poucos anos.

Jovens possuem a tendência de simplificar ideias: acreditam que o comunismo é mais humanista por negar diferenças e atacam qualquer obstáculo à implantação de um regime de ideologia esquerdista.

José Dirceu e seus asseclas começaram assim…

Para acesso ao texto citado (revista Veja), cliqueaqui.

E para acesso ao texto da Folha sobre o funcionário do governo federal que se reuniu com o embaixador cubano, cliqueaqui.

Também indico um momento de descontração, onde o melhor humorismo virtual animado do país, o Charges do Maurício Ricardo, comprovou que os brasileiros estavam agindo tal e qual seus ídolos comunistas cubanos. Para acesso, cliqueaqui.

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Dilma troca redução da conta de luz pelo aumento da gasolina para equilibrar inflação, mas especialista afirma que a Presidenta comprometeu receitas futuras

Assisti, recentemente, a uma boa – embora precoce – discussão: as chances de reeleição de Dilma Rousseff no pleito presidencial de outubro de 2014.

De um lado, um grupo convicto de que os atuais mais de 80% de popularidade já permitem a previsão do segundo mandato.

E do outro já havia quem objetasse que o aumento do preço de combustíveis determinado em 29/01/2013 começava a mudar o quadro, pois o bolso é a parte mais sensível do corpo humano.

Consciente disso, a esperta Búlgara – como a chama o pessimista do parágrafo anterior – preparou, com antecedência, um recurso econômico para reduzir o impacto: uma redução paralela das tarifas de energia elétrica.

Mas usou um recurso de ética duvidosa, como explica a jornalista Suely Caldas, especializada em economia, que escreve regularmente n’O Estado de São Paulo, sempre na página 2 do caderno de economia, aos domingos, na seção de Opinião: “antecipar receita dos chamados recebíveis de Itaipu (créditos que o Tesouro tem a receber da hidrelétrica até 2023) para bancar o desconto nas contas de luz”. (edição de 27/01/2013)

E fez uma comparação com dois casos anteriores, nada louváveis:

1º) “o ex-governador Luiz Fleury [de São Paulo] foi buscar no futuro recursos para sua gestão” antecipando “a venda de energia elétrica a grandes consumidores por prazos de três, quatro anos, oferecendo descontos pra lá de camaradas […], mas as elétricas (então) estaduais (Cesp, Eletropaulo e CPFL) teriam de fornecer energia sem nada receberem durante o mandato de Covas”. 

2º) “em 2002, o ex-governador Anthony Garotinho retirou dos cofres da Previ-Banerj um lote de títulos públicos que tratou de transformar em dinheiro vivo, vendendo-os no mercado com deságio. Garotinho apropriava-se de dinheiro que não lhe pertencia, tampouco ao Estado, já que era destinado exclusivamente a pagar, no futuro, a aposentados do antigo banco estadual, vendido ao Itaú”. 

No crítico artigo ela cita outros artifícios contábeis do governo Dilma, usando palavras duras: “o que alguns chamam de contabilidade criativa, mas, na verdade, não passa de manobras, truques e trapaças para driblar a inflação e o resultado fiscal. A palavra-chave da pajelança é postergar”.

Em artigos anteriores, Suely já criticava o governo por adiar aumentos necessários do preço de combustíveis produzidos pela Petrobrás, sugerindo motivos políticos.

Desta vez o aumento foi de 6,6% para a gasolina vendida nas refinarias e de 5,4% para o diesel; no dia seguinte ao aumento, uma reportagem do Jornal Hoje (TV Globo) completou:

Os economistas dizem que o governo acertou ao deixar para reajustar o combustível só agora. É que em fevereiro, o impacto desse aumento no índice de preços ao consumidor deve ser compensado pela redução na tarifa de energia elétrica. Isso deve ajudar a controlar a inflação.

E retornando ao tópico que originou a discussão – a reeleição de Dilma Rousseff –, me posicionei pelo vaticínio de que “só o futuro dirá”.

A situação econômica do Brasil no segundo semestre de 2014 vai definir a possibilidade de reeleição e a chance dos concorrentes, que hoje parecem ser Aécio Neves e Eduardo Campos.

E acrescentei o fator Lula: argumentei que, se ele quiser voltar ao poder, sua cria mergulha; mas em 20/02/2013 ele aparentemente enterrou esta possibilidade ao defender enfaticamente a reeleição da Búlgara.

Para acesso ao inteiro teor do artigo de Suely, cliqueaqui.

E para a matéria do Jornal Hoje, televisivo, sobre o aumento de combustíveis, cliqueaqui.

Fernando Gabeira, de petista a antipetista. E também antiLulista

Político e jornalista, ex-guerrilheiro e ex-petista, Fernando Gabeira apareceu muito na mídia em torno de 2005, quando expôs a sua decepção com Lula e o Partido dos Trabalhadores.

Ao rever uma entrevista que ele deu à Folha de São Paulo em 04/09/2005, intitulada Gabeira vê em Lula “despreparo” de Severino, meu lado de historiador amador me orientou a republicação de alguns trechos que bem demonstram a opinião de uma pessoa qualificada sobre um período importante da política brasileira contemporânea:

Faço a minha autocrítica. Blindamos o Lula com o argumento de que as pessoas que achavam que ele dizia coisas sem sentido eram preconceituosas. Existe na sociedade brasileira, sobretudo na classe média, um sentimento de culpa em relação aos pobres. Daí a grande adesão à tese de que a classe operária teria um papel messiânico. Apesar de ter contribuído para a campanha do Lula e de me sentir responsável por ajudar a meter o Brasil nessa encrenca, acho que temos que superar essa fase de culpa diante dos pobres e dos incultos. Minha experiência pessoal é a de um homem que também não era rico. A diferença é que certas pessoas têm curiosidade e outras não têm. Se você é pobre e tem curiosidade, você estuda. Temos que acabar com o elogio da ignorância. 

[…] 

Ele é tão pragmático que percebeu que a esquerda tinha uma fantasia a respeito do papel do operário. E resolveu encarná-lo. Ele ainda não se deu conta de que não foi a classe operária que chegou ao poder. No script da esquerda, ele representa a classe operária. Mas o script é dos intelectuais, que fantasiam muito a respeito do operariado. Uma filósofa como a Marilena Chaui, quando ouve o Lula, diz: ‘O Lula, quando fala, tudo se esclarece, tudo se ilumina’. 

[…] 

Uma pessoa como eu deveria ser proibida de ter grandes sonhos. Percebo que, não só não realizamos tarefas básicas, como cometemos uma série de atrocidades em nome dos sonhos. Nós, da esquerda, formulamos a idéia de um novo mundo, de um novo homem. Hoje, penso que devemos aceitar as pessoas tais como elas são, tentando melhorá-las, mas sem essa perspectiva do novo homem. É preciso trabalhar com a realidade. Sem medos nem esperanças.”. 

São subsídios válidos para a compreensão da adoração popular que levou Lula à condição de mito; uma tentativa de compreender a incapacidade coletiva de fazer uma análise objetiva de suas qualidades e defeitos.

E já que a minha pretensão é de republicar subsídios de valor histórico, é indispensável contextualizar: o Severino do título da Folha – que não aparece nos trechos republicados – é o político Severino Cavalcanti, ex-deputado federal de baixa formação intelectual (daí a comparação com Lula) que foi transformado em presidente da Câmara Federal em fevereiro de 2005 com amplo apoio do baixo clero (deputados de pouco prestígio), e que teve que renunciar logo em setembro após ser flagrado cobrando propinas com a ajuda de ameaças.

Gabeira foi o principal responsável pela desmoralização pública de Severino após fazer-lhe acusações duras e diretas em plenário, largamente transmitidas e repetidas pela mídia televisiva. Atualmente com 82 anos, Severino está sem mandato político.

Para acesso ao texto integral, cliqueaqui.

Os conquistadores espanhóis arrasaram com todos os indígenas que habitavam Cuba

Conheci Cuba durante uma viagem que fiz à ilha comunista em 2005, que narrei em meu Diário de um Turista em Cuba, disponível em formato PDF na coluna da direita deste blog, ou pelo link http://marcio.avila.blog.uol.com.br/cuba.htm.

No pacote estava incluída uma passagem pela Península Zapata, parte sul da província (equivalente aos estados brasileiros) de Matanzas, tendo como atrações uma grande lagoa (Laguna del Tesoro), o Gran Parque Natural Montemar, uma criação de crocodilos e algumas ilhas que já foram habitadas pelos indígenas taino.

A guia explicou que todos os indígenas que habitavam Cuba em 1492, quando da chegada dos conquistadores espanhóis liderados por Diego Velázquez, foram aniquilados.

Eram três os grupos indígenas extintos: os outros eram os guanahatebey e os siboney.

Na Península Zapata os cubanos recriaram cabanas e equipamentos originalmente usados pelos taino; coube à argentina Rita Longo (não fui feliz ao pesquisar na internet a biografia dela) a elaboração de esculturas representando os indígenas.

Na foto abaixo, apresento uma escultura de um taino dominando um cocodrilo, com a interessante opção pela cor rosa:

Escultura da artista plástica argentina Rita Longo na Península Zapata (Cuba: um índio taino dominando um cocodrilo, com a interessante opção pela cor rosa.

Escultura da artista plástica argentina Rita Longo na Península Zapata (Cuba: um índio taino dominando um cocodrilo, com a interessante opção pela cor rosa.

Um deputado e um senador lideraram a promulgação da nova lei seca, que ainda vai prejudicar a vida de muita gente inocente

A cada reportagem sobre a fiscalização da versão mais recente da “lei seca” eu vou ficando mais preocupado com as injustiças que ela parece capaz de produzir.

A versão anterior, de 2008, já trazia um limite preocupante para o teor de alcoolismo: as reportagens garantiam que um ou dois copos de cerveja podiam até jogar o motorista na cadeia.

Particularmente, não acredito que um copo de cerveja afete os reflexos de um motorista padrão, mas não nego que existem pessoas hipersensíveis.

Reconheço que aquela legislação parecia cumprir o propósito de assustar e inibir.

Não foi o que o Congresso Nacional pensou, e quatro anos depois reduziu drasticamente o índice limite de 0,6 grama de álcool por litro de sangue para 0,05. Dividiu o que já era pouco por 12 partes.

Testes recentes, acompanhados pela mídia, deram resultados preocupantes: um bombom de licor, uma dose de remédio homeopático e um enxaguante bucal atingiram índices que, pela nova legislação, causariam a prisão do motorista (para acesso à matéria, cliqueaqui).

Mas a nova lei (nº 12.760) vai além: autoriza o uso de testemunhos, exame clínico, imagens e vídeos como meios de prova para confirmar a embriaguez de motoristas.

Editorial de O Estado de São Paulo de 27/12/2012 levanta dúvidas quanto à eficiência de todos os procedimentos; com relação às provas testemunhais, afirma: “Iniciar ações penais com base nelas é uma temeridade. É muito fácil pessoas que presenciam acidentes – sejam policiais ou simples passantes – se enganarem, pela dificuldade de observar e formar um juízo sereno numa situação de grande tensão. Acidentes em geral provocam revolta, que gera sentimento de vingança. Como esperar que, pela simples observação visual, nessas condições, elas possam determinar se a pessoa envolvida num acidente consumiu bebida alcoólica além do limite legal”.

Exames clínicos são de realização difícil nos locais das blitze e somente são de aplicação rotineira nos acidentes; vídeos e imagens são as provas mais fracas, passíveis de recusa pelo poder judiciário por serem dependentes de critérios subjetivos, interpretativos.

Além das injustiças previsíveis pelo uso da lei, a gravidade da punição eleva a possibilidade de corrupção: alguns policiais verão aí a chance de ganhar bastante dinheiro com chantagem.

Pesquisando as matérias jornalísticas disponíveis na internet, concluí que a dureza da lei foi motivada pelo empenho de alguns políticos interessados em usá-la como trunfo de carreira, ganhar a fama de reformadores e inflar o currículo com algo marcante.

Os relatores foram o deputado Hugo Leal (na Câmara) e o senador Ricardo Ferraço (no Senado), que nas entrevistas assumiram publicamente a opção pelo endurecimento das medidas, procuram capitalizar e personalizar o ato.

Para obter a aprovação da pesada lei eles precisaram contar com a inércia de centenas de deputados e senadores indiferentes às consequências e falhas do projeto.

Com a aprovação pelas duas casas e a anuência da presidente Dilma Rousseff, que não vetou nenhum artigo ou expressão, os políticos mantiveram incólume a tradição brasileira de criar o fato e deixar o futuro resolver as consequências.

Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (XV)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

Em Belém do Pará um vereador era o precursor dessa bobagem de proibir mulher em anúncio publicitário. É verdade que o Prefeito Faria Lima, de São Paulo, foi mais bacaninha ainda, porque iria — mais tarde — proibir mulher e propor que ‘figuras da nossa História ilustrassem os anúncios’, isto é, Rui Barbosa vendendo sabão em pó, Tiradentes (já definitivamente barbudo) fazendo anúncio de lâmina de barbear, etc. No entanto, quando da proposta do precursor, na Câmara de Vereadores de Belém, um outro edil protestou, afirmando: ‘O mal não reside nas figuras femininas, mas no coração de quem vê nelas o lado imoral. Eu, por exemplo, seria capaz de olhar a foto de minha mãe nua e não sentiria a menor reação’. Nome desse vereador que respeita o chamado amor filial: Álvaro de Freitas, ao qual aproveitamos o ensejo para enviar nossos parabéns. 

E julho começava com uma declaração muito bacaninha da Deputada espiroqueta Conceição da Costa Neves, que afirmava nos bastidores da Assembleia Legislativa de São Paulo: “A ARENA, se quiser, pode cassar o meu mandato e fazer dele supositório para quem estiver precisando”.

E esta é clássica:

O Coronel brigou com o Major porque um cachorro de propriedade do primeiro, conjugava o verbo defecar bem no meio da portaria do edifício de onde o segundo era síndico. Por causa do que o cachorro fez, foi aberto um IPM de cachorro. King — este era o nome do cachorro corrupto — cumpriu todas as exigências de um IPM. Seu depoimento na Auditoria foi muito legal. Ele declarou que au-au-au-au.

O tráfico de mulheres existe, mas é bem diferente do formato surrealista com que é tratado na novela Salve Jorge

Nos anos 1960 a televisão ainda era precária, com aparelhos pequenos, imagem em preto e branco, de pouca definição; mas as telenovelas já tinham farta audiência.

Uma característica da época era o surrealismo dos enredos; talvez o grande exemplo tenha sido O Sheik de Agadir: transmitida pela TV Globo entre 1966 e 1967, acontecia nos desertos árabes (mas filmada na praia de Cabo Frio) e a jovem atriz Marieta Severo era uma serial killer que matou metade dos personagens.

A TV Globo seguiu investindo, melhorou os enredos e a qualidade técnica, mas, ocasionalmente, volta a apelar para o surrealismo.

Foi o caso de O Clone (2001-2002): como o próprio nome sugere, dois homens, mais do que irmãos, são clones, cópias genéticas. Parte da história se passa no Marrocos e novamente as línguas se misturam, mas os autores resolvem a questão sem dificuldade, desaparecendo com o árabe (a produção disfarçou com a licença para que os atores mais competentes criassem sotaques e trejeitos engraçados).

Ou em Caminho das Índias, de 2009, onde brasileiros e indianos se comunicavam como se falassem a mesma língua (nem indianos falam a mesma língua, é o país recordista em dialetos).

O humorístico Casseta e Planeta foi bem feliz na satirização do Caminho: qualquer fala de personagens era motivo para todo mundo iniciar as dancinhas indianas.

O mais recente ataque de surrealismo está no ar com a estranhérrima Salve Jorge, em que atrizes com cara de madame do soçaite (Vera Fischer, Claudia Raia, Totia Meirelles) interpretam bandidas violentas, cotidianamente envolvidas com o submundo do crime. Completas caricaturas.

A história (tráfico de mulheres para prostituição) se passa na Turquia, e novamente a produção passa bem ao largo das dificuldades naturais dos contrastes com a cultura e uma língua oriental.

Sei que estou criticando milhões de mulheres e milhares (ou apenas alguns milhões a menos?) de homens, mas prestar atenção e até se envolver emocionalmente com pessoas e situações tão inverossímeis é muito esquisito.

Agora, viajar na maionese é a explicação que a autora Glória Perez deu para o título: “A ideia surgiu no momento em que assisti a retomada do complexo do Alemão. [… ] O título surgiu da constatação do quanto essas pessoas foram guerreiras para conseguir sobreviver sob o domínio do tráfico [… ] Quando se fala em guerreiro se pensa no mito de São Jorge”.

Parabenizo pelo sentimento humanitário mas, e a Turquia, onde entra?

Só rindo.

Para ler outras justificativas e comentários de Glória Perez, cliqueaqui.