Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (XI)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

Em São Paulo, entrevistado num programa de televisão, o Deputado Arnaldo Cerdeira explicou porque seus coleguinhas aumentam constantemente os próprios subsídios: ‘Quando eu entrei para a política, meus charutos custavam 300 réis, agora estão custando mil e duzentos cruzeiros cada um’. Infelizmente quem entrevistava o Sr. Cerdeira era uma mulher e não ficava bem ela mandar que ele enfiasse o charuto noutro lugar. 

Janeiro de 66 – A Pretapress continuava trabalhando ativamente e colecionando novas notícias para o Festival de Besteira que Assola o País. E este ano começou tão bem que na Paraíba, o Prefeito da cidade de Juarez Távora nomeou para a Prefeitura local, como funcionário público, figurando na folha de pagamento, o cavalo ‘Motor’ de sua propriedade. Dizem que o cavalo do Prefeito João Mendes é muito cumpridor dos seus deveres. 

E quando isto aconteceu, todo mundo pensou que era brincadeira: a Procuradoria Geral da Justiça Militar encaminhou ao Juiz Corregedor um IPM instaurado na DOPS para apurar atividades subversivas. Esta nem a linha frouxa esperava: IPM na DOPS.

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A internet – especialmente o Facebook – está se tornando uma fonte de informações prévias às paqueras

Fui criado nos anos 1960 e 70 com a ideia de que só havia três modos de formação de um casal: namoro, noivado e casamento.

O namoro era um compromisso pessoal, mas bastante valorizado pelas duas partes do casal; o noivado implicava praticamente na obrigação do posterior casamento que, por sua vez, seguia cerimônias e comportamentos bem definidos, como a lua de mel, que culminava com o rompimento da virgindade feminina.

O que fugia de tais práticas era pouco valorizado, desprezado mesmo.

O divórcio só virou lei em 1977; antes dele, os legisladores criaram a estranha e extinta figura do desquite (separavam-se os bens, mas não era permitido outro casamento formal).

O compromisso era tão valorizado que justificava a exibição pública de um símbolo: os noivos usavam a aliança na mão direita e os casados na esquerda; uma prática menos conhecida era o uso de duas alianças por quem enviuvava.

A aliança tinha uma função sinalizadora: quando presente, era um sinal vermelho, impeditivo para novos compromissos, e sua ausência era um sinal verde da mulher para a corte masculina.

Poucas décadas se passaram e a revolução se instalou no comportamento intersexual (nos relacionamentos de casal), tornando naturais formatos como o relacionamento exclusivamente sexual, o ficar dos adolescentes, e as uniões não formalizadas.

“O que vão pensar de mim?”. A grande preocupação de quatro décadas atrás virou conversa de gente fora de época, um comportamento anacrônico.

Isto sem falar dos formatos mais atípicos, como os casamentos heterossexuais abertos, os casamentos gays e a dispensa da fidelidade.

De consequência, há quem tenha irmãos germanos (mesmos pais), irmãos paternos e, ainda, irmãos maternos. E os pais namoram outros parceiros, que já possuem filhos anteriores.

Quanto às alianças – aqueles caros anéis, joias douradas –, a tradição é tão forte que continuam muito usadas nos casamentos.

Mas perderam o caráter obrigatório, o que também prejudicou seu velho papel de instrumento de sinalização verde-vermelho.

Paquerar alguém que ostente uma aliança ainda tem um sabor de traição, mas a ausência dela não significa mais o antigo sinal verde, pois o uso tornou-se opcional, não obrigatório.

Para o homem que faz a corte ou a paquera – também vale para a mulher, ainda minoritária na iniciativa – perdeu-se a baliza da aliança, e muitas vezes ele faz o assédio que nem deveria ter iniciado.

Investe na mulher que não usa aliança e, com frequência, descobre que ela já está comprometida.

Mas a expansão da internet criou uma alternativa para a função sinalizadora que pertencia à aliança e tornou-se uma boa fonte de pesquisas desde que se saiba, pelo menos, o nome da pessoa-alvo (não vale para os contatos fugazes com desconhecidos, como nas festas).

E o Facebook – reinando entre as redes sociais – está se tornando a principal fonte; tem, inclusive, a opção de registrar compromissos amorosos no próprio perfil do usuário.

Certamente nem todos os “comprometidos” o informam, mas quem publica algo como “Em relacionamento sério com Fulano/a” está brandindo no dedo uma aliança virtual, está bloqueando paqueras.

Fidel Castro perdeu o direito do uso internacional da mais famosa marca de bebida cubana, o Rum Bacardi

O rum é uma bebida equivalente à cachaça brasileira, mas tem muito mais prestígio internacional por causa de sua origem caribenha – grande foco de turismo de verão.

E existe uma marca que se destaca, o Rum Bacardi, criado em Cuba por um espanhol, em 1862: “Don Facundo Bacardi comprou uma pequena destilaria por 3.500 pesos em Santiago de Cuba fundando a empresa Rum Bacardi y Compañia”.

Quando Fidel Castro comandou a revolução comunista, em 1959, expropriou a empresa e confiscou “os ativos da Bacardi então estimados em US$ 76 milhões, obrigando a família a exilar-se nos Estados Unidos”.

Ainda segundo a mesma fonte, “a família construiu novas instalações nas Bahamas, Canadá, Estados Unidos e Espanha. Além disso, passou a produzir seu rum em novas instalações no Brasil em 1961. Apesar disso, Fidel Castro tentou vender o rum, pois achava que havia se apoderado da marca. Porém a Bacardi ganhou todos os casos e processos nas cortes da Inglaterra, França, Israel e Japão, onde ele tentou vender o produto. Em meados da década de 70, o rum da Bacardi tinha se transformado no maior sucesso de vendas nos Estados Unidos e consequentemente no mundo”.

Impossibilitado de usar internacionalmente a marca Bacardi, Fidel determinou o uso de outra marca antiga – mas até então sem prestígio internacional –, o Havana Club, para a vendagem do rum que passou a ser fabricado com controle estatal; em 1970 construiu uma grande destilaria/engarrafadora em Santa Cruz del Norte, bem perto da capital Havana (fotografei esta indústria mas a imagem não ficou boa, pois foi feita da janela do ônibus).

Na viagem que fiz à ilha comunista em 2005, que narrei em meu Diário de um Turista em Cuba, disponível em formato PDF na coluna da direita deste blog, ou pelo link http://marcio.avila.blog.uol.com.br/cuba.htm, a guia me levou à entrada da mansão da família Bacardi, na cidade onde nasceu a empresa, Santiago de Cuba.

Extraí as informações acima num site dedicado a marcas famosas, para acessá-lo, cliqueaqui.

Em Santiago de Cuba tirei esta foto do atual Museu Emílio Bacardi (homenagem ao filho do fundador e principal desenvolvedor da empresa)

Em Santiago de Cuba tirei esta foto do atual Museu Emílio Bacardi (homenagem ao filho do fundador e principal desenvolvedor da empresa)

Relembrando um cantor esquecido: Milton Carlos, com sua inconfundível voz de falsete

Não me acostumo com o esquecimento a que certos fatos e pessoas são relegados; é como se não tivessem ocorrido, ou existido.

A perplexidade tem sido estimulada em mim com frequência, agora através do cantor Milton Carlos, que morreu em 1977, com apenas 22 anos de idade, no auge do sucesso.

Extraí da internet este resumo da tragédia: “Ele morreu […] quando vinha de Jundiaí para São Paulo a bordo de seu Passat. Viajava em companhia de sua noiva, a também cantora Mariney Lima e do empresário Genildo de Oliveira. O acidente ocorreu num trecho da via Anhanguera quando o Passat do cantor tentou ultrapassar uma carreta Scania Vabis e bateu em um caminhão Chevrolet. Com o choque, o carro do cantor desgovernou-se e foi colhido pela carreta. Milton Carlos e sua noiva morreram na hora.”.

Perdeu-se um talento que tinha tudo para efetuar uma carreira brilhante, pois o precoce artista já tinha emplacado vários sucessos nas paradas musicais.

Sua voz era ímpar, sui generis: um aparente falsete que pode até levar o ouvinte que não o conhece a pensar que está ouvindo uma mulher.

Encontrei diferentes análises para essa voz incomum.

O pesquisador Bruno Negromonte, em seu blog Musicaria Brasil, afirma que a voz de Milton “não era falsete. Milton Carlos foi uma criança que não teve mudança de voz. Ele crescia, mas sua voz continuava infantil e com o tempo feminina. Era uma voz ímpar, bastante peculiar porque continha, além da beleza esfuziante, uma evidente androginia. E isso chamou a atenção das gravadoras, que logo o convidaram para gravar por volta de 1970. E o que podia ser uma coisa negativa se tornou positiva”.

Outro texto da internet, assinado por Aparecido Barbosa (2011), compara sua voz com a de Maria Creuza e o classifica como “contratenor, porém nestes trata-se de um dom natural, não exigindo o treinamento a que se submetem os cantores líricos para alcançar este timbre”.

Ambos desmentem meu título, o qual mantenho, pois a classificação “falsete” permite melhor identificação do público, que não precisa entrar em questões técnicas complexas.

Milton trafegava por dois estilos: música romântica e samba.

Compunha em parceria com a irmã Isolda, uma garota, três anos mais nova; ela seguiu no ramo e foi responsável por vários sucessos de Roberto Carlos (que já tinha gravado três músicas da parceria deles).

Mas lá pelos anos 1990 a mídia noticiou que Isolda estava magoada, pois Roberto Carlos não estava mais gravando suas composições – e ela perdeu sua galinha de ovos de ouro.

Milton Carlos, apesar de todas as suas qualidades e da grande vendagem de seus sucessos, não tem uma página na Wikipedia, nem sequer um site oficial; encontrei, apenas, uma elogiável mas muito modesta página em fansites, criada e mantida por algum fã, que exagerou um pouco no título: “O maior cantor de todos os tempos”.

Tem uma reduzida biografia redigida pelo bravo divulgador da MPB, Ricardo Cravo Albin (para acessá-lo, cliqueaqui).

Gravava as músicas compostas em parceria com Isolda e também as de outros autores; talvez o maior sucesso de sua autoria tenha sido o Samba Quadrado, carro-chefe do álbum de igual nome, produzido em 1973.

E das músicas em que atuava exclusivamente como intérprete, o maior sucesso foi Memórias do Café Nice, uma referência à mais famosa – já extinta – cafeteria do Rio de Janeiro, ponto de encontro de várias classes sociais.

A letra é uma bela homenagem aos músicos e sambistas do passado, e foi composta por Artúlio Reis – nome raro nas paradas de sucesso –, e embute uma curiosidade: Monalisa, filha de Artúlio, figura como parceira, mas era apenas um bebê na época; o registro deve ser debitado ao entusiasmo paterno.

No ano da morte, 1977, Milton lançou o quinto LP e já estava nas paradas de sucesso com a regravação da marchinha-bolero Dorinha meu amor.

Para acesso à audição das músicas citadas, ou de qualquer música de Milton Carlos, basta fazer uma rápida e fácil pesquisa na internet (não veja necessidade de indicação de links).

Morre o homem, permanece a obra. Ainda que insuficientemente lembrados.

Um episódio degradante da política e da economia brasileiras: o uso de bancos estaduais para desvio de dinheiro, resultando em falências e demissões em massa

Depois que o Partido dos Trabalhadores (PT) tornou-se partido do governo, a questão da privatização das empresas estatais foi sendo paulatinamente esquecida da agenda política.

A privatização havia sido a principal base ideológica e de realização administrativa do partido que o antecedeu no domínio político do país, o PSDB; e o presidente Fernando Henrique Cardoso (1994-2001) conseguiu efetivar esse ambicioso e complexo projeto.

Já a retórica do PT, então na oposição, defendia a estatização e demonizava o neoliberalismo, e o adversário político.

O líder petista Lula ganhou o direito democrático de sucessão mas, antes mesmo de assumir o governo, se comprometeu, perante representantes da classe empresarial, a não revisar as privatizações; a contradição foi varrida para baixo da tapete, até cair no esquecimento.

A política de criar empresas públicas teve seu auge nos governos militares-ditatoriais (1964-85), criadores da maior parte das que existiam até o governo Sarney.

Inicialmente eles impunham, de um modo geral, uma administração profissional; ou relativamente profissional, já que era frequente a contratação de funcionários por indicação dos militares mais influentes e de seus aliados.

Mas o sistema degenerou, e os anos 1980 conheceram incontáveis denúncias de irregularidades no setor.

Para não entrar em todos os malefícios da estatização em nosso país, até porque não sou um pesquisador em economia, me restrinjo à área bancária.

O regime militar e os governadores nomeados criaram vários bancos que foram terrivelmente manipulados – principalmente na década de 80 –, com farto desvio de dinheiro.

Desvio direto, mas também indireto: má administração, empreguismo de parentes e aliados, empréstimos pessoais sem comprovação de viabilidade.

O Estado de Minas Gerais chegou a ser o proprietário de cinco bancos (Agrimisa, Bemge, BDMG, Credireal e Caixa Estadual); sobreviveu apenas o Banco de Desenvolvimento que, provavelmente por ter função de fomento, não produzia dinheiro fácil para os políticos.

Um dos meus primeiros empregos foi no maior deles, o Bemge, onde trabalhei por apenas dois meses e 20 dias, tempo suficiente para perceber a perigosa mistura de política com administração de grandes negócios.

(Antes da revolução da informática os cargos de escriturário eram fartos, mas o salário era, literalmente, mínimo.)

O presidente do banco à época (1975), Admardo Terra Caldeira, tinha um currículo acadêmico e profissional como economista, era um tecnocrata – termo em voga na época, com algum caráter depreciativo –, o que não acontecia com o vice-presidente, Pio Soares Canedo, que já tinha sido vereador, prefeito, deputado estadual e vice-governador.

Havia outros diretores indicados por vinculação política, e esta infiltração na primeira linha administrativa transferiu para a segunda linha uma grande parte do poder e também o contato mais direto – às vezes traumático – com os funcionários.

No Bemge, essa segunda linha era representada pelos adjuntos de diretores, funcionários de carreira com direito a decisões que, em instituições bem estruturadas, caberiam aos seus superiores.

Na minha área, o adjunto-chefe tinha o incomum nome de Ubsclender Amâncio: altamente temido pelos bancários, tido como capaz de maltratar ou demitir por motivos insignificantes.

Chegou ao cargo porque sabia onde o poder realmente se aninhava: uma vez ele entrou no elevador acompanhando Pio Canedo, e aos meus olhos de 21 anos me pareceu agir como um cordeirinho.

E essa foi a época boa, época em que os bancos estaduais ainda davam lucro; uma década depois a situação econômica nacional piorou: inflação em elevação e desestabilização política, com a transferência do poder de militares para civis desacostumados com a alta administração.

Os políticos mineiros aproveitaram para lançar garras sobre os cinco grandes cofres: a consequência foi o naufrágio de quatro bancos, o que também aconteceu com de dezenas de outros em vários estados brasileiros.

O Bemge foi encampado pelo Banco Itaú em 1998, transação precedida por um largo investimento de dinheiro dos cofres do Estado de Minas Gerais para sanear a instituição, pelo menos o suficiente para permitir o negócio.

Poucos de seus ex-funcionários foram beneficiados ou, pelo menos, mantiveram o padrão anterior: a maioria foi demitida pela reformulação administrativa e pela influência da informática na redução da necessidade de mão de obra.

O Banco Credireal sofreu intervenção do Banco Central de 15/05/87 a 15/05/89, e foi privatizado em agosto de 1997.

Mais confusa – não consegui decifrar – é a situação do Banco Agrimisa, que acabou vendido; a internet registra intermináveis ações judiciais, duas décadas depois.

A situação da Caixa Econômica Estadual explodiu antes: chegou a passar por um período de intervenção administrativa (mesmo período do Credireal), o que não conseguiu impedir a posterior liquidação extrajudicial instaurada em 1991.

Entre as irregularidades anunciadas, a mídia descobriu que vários deputados receberam empréstimos financeiros que eles não pagavam, e nem a instituição cobrava.

Seus ex-funcionários ainda encontram guarida em outros órgãos públicos estaduais, mas a mesma sorte não tiveram os funcionários do Bemge, Agrimisa e Credireal, e a maior parte deles perdeu o emprego.

Um longo artigo escrito pelo bacharelando Eduardo André Vargas de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, relaciona 40 instituições bancárias estaduais que sofreram alguma forma de intervenção do governo federal, quase sempre resultando em privatização ou liquidação (para acesso ao texto, cliqueaqui).

Esta questão dos bancos estaduais – que enterrou um astronômico montante de dinheiro público – exemplifica a importância do liberalismo econômico em países com elevado índice de corrupção: o dinheiro público não pode ter acesso fácil para os gestores, pois inevitavelmente haverá aqueles que vão abusar.

Quanto menos empresas públicas, melhor.

A velha fábula da raposa que tomava conta das galinhas vale como lição e alerta.

Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (X)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

Segundo Tia Zumira ‘o policial é sempre suspeito’ e – por isto mesmo – a Polícia de Mato Grosso não é nem mais nem menos brilhante do que as outras polícias. Tanto assim que um delegado de lá, terminou seu relatório sobre um crime político, com estas palavras: ‘A vítima foi encontrada às margens do Rio Sucuriu, retalhada em quatro pedaços, com os membros separados do tronco, dentro de um saco de aniagem, amarrado e atado a uma pesada pedra. Ao que tudo indica, parece afastada a hipótese de suicídio’. 

Repetia-se em Porto Alegre episódio semelhante ao ocorrido com Sófocles, em São Paulo. O Coronel Bermudes, secretário da insegurança gaúcha, acusava todo o elenco do Teatro Leopoldina de debochado e exigia a presença dos atores e do autor da peça em seu gabinete. Depois ficou muito decepcionado, porque Georges Feydeau – o autor – desobedeceu sua ordem por motivo de força maior, isto é, faleceu em Paris, em 1921. 

Em Campos ocorria um fato espantoso: a Associação Comercial da cidade organizou um júri simbólico de Adolf Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento Hitler foi absolvido.

Produtores de Hollywood precisaram corromper autoridades brasileiras para filmar 007 Contra o Foguete da Morte, no Brasil

As edições dominicais dos jornais impressos sofrem de uma velha ambiguidade: são as mais vendidas, mas também as que possuem menos material noticioso, pois o dia anterior é sábado, meio expediente para muita gente, quase domingo.

(As edições das segundas-feiras também são carentes de notícias mas vendem menos exemplares, e por isso recebem menos páginas impressas.)

O Estado de São Paulo sempre entendeu a equação e há décadas produz uma edição dominical recheada, leitura para o dia inteiro.

E cheia de matérias frias – a velha gíria criada para as reportagens não urgentes – que podem ser lidas naquele dia, ou semanas e meses depois.

Aniversários de velhos eventos são sempre bons motivos para reportagens amplas, repletas de pesquisas, como foi o caso da matéria principal de recente domingo, 30/09/2012.

A pretexto de lembrar o 50º aniversário da estreia de 007 Contra o Satânico Dr. No, o primeiro filme da série do espião James “007” Bond, o Estadão dedicou ao tema quatro páginas do Caderno 2.

Vários atores interpretaram o personagem, entre eles Roger Moore, hoje com 84 anos de idade, que fez sete filmes entre 1974 e 85, inclusive 007 Contra o Foguete da Morte, de 1979, que teve cenas brasileiras rodadas no Rio de Janeiro e em Foz do Iguaçu.

A reportagem relembra, ainda, um comentário de Moore que, apesar o vago elogio final, foi bem negativo para o nosso país:

Conhecer o Rio foi incrível. Lembro que foi difícil filmar no Pão de Açúcar. Havia certo clima de corrupção na época. Tivemos de negociar com autoridades para ter permissão para filmar lá. Em compensação, o brasileiro é um dos povos mais carismáticos que conheci.”.

Infelizmente, carisma vale bem menos do que corrupção na escala ética.

Para acesso à matéria que incluiu a crítica disfarçada de Roger Moore, cliqueaqui.

E para ilustrar o meu texto, estampo uma bela foto que fiz de dentro do bondinho do Pão de Açúcar. Embaixo, a bela enseada de Botafogo, com suas areias, lanchas e iates.

E para ilustrar o meu texto, estampo uma bela foto que fiz de dentro do bondinho do Pão de Açúcar. Embaixo, a bela enseada de Botafogo, com suas areias, lanchas e iates.