Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (IV)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia, o que certamente resultaria na proibição da publicação.

Seguem alguns parágrafos e espero que meus leitores se divirtam como eu me diverti na primeira leitura (anos 80) e em releituras:

Lembrem-se que notei o alastramento do Festival de Besteira depois [1965] que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de um nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que seu filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo que o filho era um debilóide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista. Foi um pega-pra-capar e o professor quase penetra pelo cano. Foi preciso que vários pedagogos da região — todos de passado ilibado — se movimentassem em defesa do caluniado, para que ele se livrasse de um IPM. 

Ibrahim Sued, que já era do Festival antes de sua oficialização, estreava num programa de televisão e avisava ao público: ‘Estarei aqui diariamente às terças e quintas’. No mesmo dia, aliás, o Governo tomava uma resolução interessante: depois da intervenção em todos os sindicatos, resolvia enviar uma delegação à 16a. Sessão do Conselho de Administração da OIT, em Genebra. O Brasil faria parte, justamente, da Comissão de Liberdade Sindical. 

Um time da Alemanha Oriental vinha disputar alguns jogos no Brasil e o Itamaraty distribuiu uma nota avisando que os alemães só jogariam se a partida não tivesse cunho político. ‘Cunho político’ — explicaria depois o próprio Itamaraty, era tocar o hino nacional dos dois países que iriam jogar. Um dia eu vou contar isto aos meus netinhos e os garotos vão comentar: ‘Esse vovô inventa cada besteira!’

Sérgio não viveu o suficiente para contar a história-besteira para os netinhos, mas deixou sua mensagem literária.

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