Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (IV)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

Os timbres também são amalucados. A droga ‘ecstasy’ é para ser pronunciada com ‘e’ aberto, pelo menos enquanto não for naturalizada, mas aqui virou uma maneira exótica de pronunciar ‘êxtase’. Isso, aliás, é comum, na incorporação de palavras de nossa língua-mãe, ou seja, o inglês. Quando o ‘volley’ (‘vóli’, às vezes quase ‘váhli’) se naturalizou, virou ‘vôlei’. Até aí, tudo bem, naturalização é naturalização, mas por que ‘doping’, além de receber frequentemente dois pp, é ‘dópingue’? (Aliás, isto me traz a cabeça algo que tem pouco a ver com o que escrevo agora: por que a gente se irrita tanto quando inglês ou americano escreve Brasil com z? Em inglês, é com z, assim como América aqui é com acento, França é com cedilha e ‘a’ no fim e Alemanha é bastante diferente de Deutschland. Deve ser o nosso combativo nacionalismo de araque.) Outra mudança de timbre que me chateia é a de ‘obsoleto’. Não é conhecimento secrêto que o corrêto – e não é preciso ser discrêto quanto a isso – é ‘obsoléto’, mas escuto gritos de ‘olha aí o baiano’ sempre que pronuncio certo. Tenho vontade de acertar um ‘dirêto’ no cara.

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