Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (VII e último da série)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

Finalmente, adeus para ‘existir’ e ‘haver’. Agora só se diz ‘você tem’. ‘Você tem uma área chamada Amazônia. Muito bem, que é que você tem lá? Você tem uma floresta que precisa ser preservada. E aí você tem que caminhos?’ Eu não sei, só sei que nós tínhamos uma língua própria antigamente.

Anúncios

Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (III)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Abaixo, selecionei mais dois casos acontecidos em minha Minas Gerais, ambos com alusões aos animais (quadrúpedes):

As besteiras andando soltas pela aí provocaram — como era justo se esperar — mau exemplo em todo o interior. No nordeste de Minas a cidade de Itaobim, que fica à beira da estrada Rio-Bahia, viria para o noticiário depois que o prefeito local plantou lindas e tenras palmeiras para enfeitar a estrada, e a Oposição — com inveja — soltou 100 cabritos de madrugada, que jantaram as palmeiras. 

Em Belo Horizonte assumia a Secretaria de Agricultura o ruralista Evaristo de Paula e saudava o Governador Israel Pinheiro em sua posse, afirmando que ‘o Sr. Israel tem sangue de boi em suas veias, cheira a capim e traz em si o movimento telúrico dos milharais em espiga’. Só faltou o cara dizer que o Sr. Israel Pinheiro era a própria estátua da Reforma Agrária.

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (VI)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

A linguagem informática também traz suas pesadas contribuições. Por que diabo ‘salvar’, que não quer dizer nem ‘guardar’, nem ‘gravar’ nem nenhum sinônimo destes, é usado, quando temos palavras perfeitamente adequadas? Por que ‘malévolo’, ‘mal-intencionado’ ou ‘maldoso’ é ‘malicioso’? Por que ‘corporate’, até fora da linguagem informática é ‘corporativo’? Por que um determinado sistema não ‘suporta’ outro, como se se detestassem?

O primeiro sucesso de Gabriel, o Pensador, em 1992, falava no assassinato do Presidente Collor

Aos 38 anos de idade, o cantor Gabriel, o Pensador, não consegue manter sua carreira no nível que se prenunciou quando alcançou as paradas de sucesso, aos 20 e poucos anos.

Ele era, então, uma novidade, mas também um estranho no ninho: branco, classe média, filho de uma jornalista importante, cantando uma música que tinha e tem os negros pobres como seu grande público consumidor.

A identificação cultural é essencial no mundo das artes, e aí Gabriel selou o seu destino profissional; segue trabalhando, mas com horizontes limitados.

A mãe Belisa Ribeiro já foi repórter e âncora de destaque no jornalismo dos anos 1980; afunilou a carreira quando topou trabalhar na campanha do então candidato Fernando Collor à presidência da república.

Deixou a equipe atirando: alegou discordar da decisão de Leopoldo Collor – o irmão mais velho do candidato – que contratou uma ex-namorada de Lula para “denunciar” que ele tentou induzi-la a abortar.

Dois anos depois, o filho Gabriel conseguiu gravar seu primeiro sucesso: Hoje Eu Tô Feliz (matei O Presidente). Fernando Collor era o alvo da música e do hipotético atentado.

Uma interpretação largamente difundida foi a de que a música do filho foi a vingança de Belisa pela traumática saída da equipe de Collor; na época acreditei piamente na história, mas o mais provável é que tenha sido um ato pessoal de um jovem revoltado com a corrupção política.

A música é bem característica de um garotão, de um iniciante: agressiva, direta, sem sutilezas. Chegou a ser censurada pelo governo.

Selecionei, abaixo, algumas impressionantes estrofes em que o sonho de um menino rebelde, revoltado, agressivo, era matar o símbolo da corrupção política no Brasil de 1992, o próprio presidente da república, Fernando Collor de Mello.

Elas foram extraídas de vários trechos da longuíssima música, mas dispenso o indicativo de intervalo pois ficou até parecendo uma sequência natural:

É tua primeira música, de 1992, tá cuspindo no prato que comeu?

Encontrei ele e a mulher na rua, não resisti. Peguei um pedaço de pau que tava no chão e aí…

Atirei o pau no rato

mas o rato não morreu

Dona Rosane admirou-se

com o ferrão, o três oitão que apareceu!!!

Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu

eu acabava de matar o presidente do Brasil!

ah Dona Rosane

mas se você quer saber

porque eu matei o Fernandinho

presta atenção

sua puta!

escuta direitinho

ele ganhou a eleição

e se esqueceu do povão

e uma coisa que eu não admito é traição

prometeu, prometeu,

prometeu e não cumpriu

então eu fuzilei

vai pra puta que o pariu

Alegria, tudo em paz

e ninguém vai bloquear nosso dinheiro

nunca mais

No dia 29/12/92 Collor tornou-se o único presidente cassado na história da república brasileira, mas agora ostenta o importante cargo de senador, eleito por mais de meio milhão de pessoas que mostraram ter o sentimento de cidadania obstruído pelo manto da ignorância, ou por interesses escusos.

Para acesso à caudalosa letra de Gabriel usei um site especializado, que pode ser conferido clicandoaqui.

Belisa montou um bom site; na biografia conta que nasceu em 1955, teve o filho Gabriel aos 19 anos e passou por um câncer em 2010. Para acessar, cliqueaqui.

As eleições de Belo Horizonte, como de todo o Brasil, tiveram irregularidades, no mínimo, antiéticas

Em Belo Horizonte, minha base, o  prefeito Márcio Lacerda – com o fundamental apoio do senador Aécio Neves – se reelegeu; derrotou o ex-prefeito petista Patrus Ananias, que fez a campanha se amparando em Lula e Dilma.

As duas campanhas – como é da tradição brasileira – tiveram atos antiéticos de parte a parte.

A última cartada de Patrus Ananias foi um absurdo vídeo, gravado no meio do ano por celular, em que o deputado Délio Malheiros fez críticas terríveis ao prefeito Márcio Lacerda, cinco dias antes de aceitar a indicação para o cargo de vice-prefeito na chapa de quem havia destratado.

Já a trapalhada da equipe de Patrus Ananias ocorreu em setembro e foi menos dramática, mas também lesiva aos princípios da ética: fizeram uma edição de uma foto de um ato público da campanha, alterando os rostos das pessoas.

Transplantaram e multiplicaram imagens de participantes, principalmente de um negro (ops!, afrodescendente) e de uma mulher para criar uma falsa cena de diversidade social.

Estampo, abaixo, a foto graficamente editada:

Observem os rostos copiados (assinalados pela mesma cor) na edição de uma foto de campanha do PT em Belo Horizonte.

Alguns casos estapafúrdios dos anos 1960, narrados com a ironia fina de Stanislaw Ponte Preta (II)

Sigo republicando, abaixo, trechos do livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de 1966, escrito pelo jornalista e redator humorístico Sérgio Porto (1923-68), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Foram extraídos da primeira parte, que é uma coletânea de casos reais selecionados do noticiário jornalístico e comentados pela ótica irônica do inesquecível agitador cultural, então muito revoltado com a revolução de 1964, que chamava de “Redentora”, dois anos antes do endurecimento da ditadura militar e da criação da censura prévia.

Abaixo, selecionei os acontecidos em minha Minas Gerais, que já foi considerada um símbolo do conservadorismo brasileiro:

Em Mariana (MG) um delegado de polícia proibiu casais de sentarem juntos na única praça namorável da cidade e baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais. No mesmo Estado, mas em Belo Horizonte, um outro delegado distribuía espiões da polícia pelas arquibancadas dos estádios porque ‘daqui para frente quem disser mais de três palavrões, torcendo pelo seu clube, vai preso’. 

O Secretário de Segurança de Minas Gerais, um cavalheiro chamado José Monteiro de Castro — grande entusiasta do Festival de Besteira — proibia (já que fevereiro ia entrar) que mulher se apresentasse com pernas de fora em bailes carnavalescos ‘para impedir que apareçam fantasias que ofendam as Forças Armadas’. Como se perna de mulher alguma vez na vida tivesse ofendido as armas de alguém! 

A coisa atingia — como já disse — todas as camadas sociais, inclusive a intocável turma dos grã-finos. Por exemplo: num dos clubes mais elegantes de Belo Horizonte, realizou-se a festa para a escolha da ‘Glamour Girl de 1965’. A eleita, sob aplausos gerais, foi devidamente cercada e enfaixada. Na faixa, lia-se: ’Glamour GIR de 65’. Levando-se em conta que Gir é uma raça de gado vacum, foi chato.”

Hotéis de selva são ótimas opções de lazer ecológico, mas também são caros

Ingressei no mercado (consumidor) da fotografia digital em 2005: aproveitei uma viagem ao Paraguai e optei pela marca Casio, modelo padrão para amadores.

Ela ainda tira boas fotos; as câmeras projetadas para amadores pouco evoluíram, só adicionaram recursos supérfluos ou de uso complexo.

No ano seguinte foi usada numa viagem à Amazônia, embora a minha câmera principal ainda fosse uma analógica, de recursos profissionais, também da marca Casio.

Mas em condições de iluminação favoráveis fez boas imagens, como a que se segue, da entrada do Hotel Ariaú, um hotel de selva.

É um complexo hoteleiro situado no município de Iranduba, limítrofe da capital Manaus; tem várias construções de madeira interligadas por passarelas que ficam na altura das copas das árvores.

A foto é de 23 de outubro de 2006, época de pouca chuva; o gramado abaixo fica todo encoberto pelas águas em outros períodos, quando as passarelas se transformam em pontes para pedestres.

O post parece até uma propaganda do hotel, que é caríssimo: aproveitei um pacote de três dias, creio que promocional.

Mas compensou.

Hotel Ariaú, Iranduba, Amazonas

Publicado em Viagens. Tags: . Leave a Comment »