A burocracia bancária é exagerada e irracional, e as contas-fantasmas do governo Collor são a causa

A burocracia é um comportamento tão arraigado no Brasil que tem ares de instituição; é característica – embora não exclusividade – do serviço público.

(Como a palavra tem mais de um sentido, adoto para este texto o de número 4 do dicionário Aulete, disponível no site UOL: Excesso de papelada e de exigências que tornam morosos os serviços prestados pelos órgãos públicos e privados: É uma burocracia sem fim tirar esses documentos.)

A tramitação é lenta, há excesso de documentos, excesso de certificações, de conferências, de revisões.

É cultural, é persistente, tanto que o último governo ditatorial-militar (João Baptista Figueiredo, 1979-85) criou um inédito Ministério da Desburocratização, arquitetado pelo empresário Hélio Beltrão (pai da gordinha e risonha jornalista global Maria Beltrão).

Provavelmente um dos ministérios de abrangência mais atípica da história da república brasileira, e deixou poucos resultados práticos, foi mais eficiente como jogada de marketing.

Nos tempos presentes, a rede bancária, majoritariamente privada, está se tornando escrava da acepção número 4 do conceito de burocracia.

Bem recentemente, ao apresentar documentos para assumir uma conta-corrente num banco privado, senti seu peso, suas dificuldades.

O funcionário precisou pesquisar circulares internas pela rede de computadores para conferir as exigências na apresentação de documentos, sempre recheadas de subitens, de sub-exigências.

No caso do comprovante de endereço/residência, as circulares discriminavam detalhes de cada opção; se se tratasse de uma conta telefônica, por exemplo, determinavam a qualidade da cópia, a necessidade de incluir frente e verso, a data da emissão e otras cositas más.

Mais recentemente, um familiar, titular de uma conta conjunta, precisou substituir o segundo correntista: o banco exigiu que o pedido apresentasse o reconhecimento da firma (assinatura) dos dois interessados. Em cartório.

A multiplicidade de exigências tem vinculação com a política de fiscalização do Banco Central, que por sua vez age com uma espécie de paranoia desde os múltiplos escândalos do mais vergonhoso governo brasileiro, o de Fernando Collor de Mello (1990-92).

A equipe do seu tesoureiro P. C. Farias abriu várias contas em nome de pessoas inexistentes, em dois ou três bancos “tolerantes”, para movimentar dinheiro proveniente de propina e de desvio dos cofres públicos.

O episódio Collor bem exemplifica uma das causas do excesso de burocracia no serviço público brasileiro (extensivo à rede bancária, controlada pelo Banco Central), que é dificultar a corrupção.

Cria-se um problema para corrigir – ou, pelo menos, reduzir – outro.

A consequência seria até digerível se a prática fosse capaz de resolver a questão, mas infelizmente nós, brasileiros, sabemos que as raízes culturais estão muito além da superfície, são bastante profundas.

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