O punga malhado na frente do campeão das corridas de cavalo no Brasil

O cavalo Didimo, além de campeão das corridas, tem sido o campeão da seção de fotos deste blog. Começou quando eu o elegi campeão moral do GP São Paulo, em maio, depois de chegar em terceiro lugar mesmo ficando sem passagem na reta final.

Depois ele ganhou uma corrida em São Paulo e em agosto alcançou a vitória mais importante, o Grande Prêmio Brasil, no Hipódromo da Gávea (Rio de Janeiro). A foto abaixo foi feita no cânter (apresentação).

Para quem não é do ramo, o Didimo é o cavalo de trás, pelagem castanha. O da frente não é de corrida, o que é facilmente identificável pela pelagem pampa, que não existe na raça Puro-Sangue Inglês, a única que participa das corridas tradicionais dos grandes hipódromos. É um cavalo de trabalho, montaria dos cavaleiros que ajudam na contenção dos irritadiços corredores. É um punga.

Didimo, campeão PSI

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A burocracia bancária é exagerada e irracional, e as contas-fantasmas do governo Collor são a causa

A burocracia é um comportamento tão arraigado no Brasil que tem ares de instituição; é característica – embora não exclusividade – do serviço público.

(Como a palavra tem mais de um sentido, adoto para este texto o de número 4 do dicionário Aulete, disponível no site UOL: Excesso de papelada e de exigências que tornam morosos os serviços prestados pelos órgãos públicos e privados: É uma burocracia sem fim tirar esses documentos.)

A tramitação é lenta, há excesso de documentos, excesso de certificações, de conferências, de revisões.

É cultural, é persistente, tanto que o último governo ditatorial-militar (João Baptista Figueiredo, 1979-85) criou um inédito Ministério da Desburocratização, arquitetado pelo empresário Hélio Beltrão (pai da gordinha e risonha jornalista global Maria Beltrão).

Provavelmente um dos ministérios de abrangência mais atípica da história da república brasileira, e deixou poucos resultados práticos, foi mais eficiente como jogada de marketing.

Nos tempos presentes, a rede bancária, majoritariamente privada, está se tornando escrava da acepção número 4 do conceito de burocracia.

Bem recentemente, ao apresentar documentos para assumir uma conta-corrente num banco privado, senti seu peso, suas dificuldades.

O funcionário precisou pesquisar circulares internas pela rede de computadores para conferir as exigências na apresentação de documentos, sempre recheadas de subitens, de sub-exigências.

No caso do comprovante de endereço/residência, as circulares discriminavam detalhes de cada opção; se se tratasse de uma conta telefônica, por exemplo, determinavam a qualidade da cópia, a necessidade de incluir frente e verso, a data da emissão e otras cositas más.

Mais recentemente, um familiar, titular de uma conta conjunta, precisou substituir o segundo correntista: o banco exigiu que o pedido apresentasse o reconhecimento da firma (assinatura) dos dois interessados. Em cartório.

A multiplicidade de exigências tem vinculação com a política de fiscalização do Banco Central, que por sua vez age com uma espécie de paranoia desde os múltiplos escândalos do mais vergonhoso governo brasileiro, o de Fernando Collor de Mello (1990-92).

A equipe do seu tesoureiro P. C. Farias abriu várias contas em nome de pessoas inexistentes, em dois ou três bancos “tolerantes”, para movimentar dinheiro proveniente de propina e de desvio dos cofres públicos.

O episódio Collor bem exemplifica uma das causas do excesso de burocracia no serviço público brasileiro (extensivo à rede bancária, controlada pelo Banco Central), que é dificultar a corrupção.

Cria-se um problema para corrigir – ou, pelo menos, reduzir – outro.

A consequência seria até digerível se a prática fosse capaz de resolver a questão, mas infelizmente nós, brasileiros, sabemos que as raízes culturais estão muito além da superfície, são bastante profundas.

Pílulas de João Ubaldo Ribeiro sobre o mau uso da língua portuguesa (II)

Transcrevo outro trecho (que permite leitura independente) do artigo “A decadentização da língua”, de João Ubaldo Ribeiro, publicado n`O Estado de São Paulo de 22/04/2007:

Há também um movimento que cada vez aumenta mais, para abolir a preposição ‘a’ no uso corrente. Ou seja, prestando atenção, você vai ouvir na televisão alguém dizendo ‘daqui dois dias’ ou, bem pior, ‘igual eu’. Em compensação ‘neste ano’ ‘nesta semana’, por exemplo, que nunca foram correntes para dizer ‘este ano’ ou ‘esta semana’, agora são a única maneira certa de falar. ‘Neste ano, tu vai fazer igual eu, procurar uma parada diferente no carnaval, não é?’

Rio Acima (MG) inaugura a primeira maria-fumaça da região metropolitana de BH, mas só está liberando o acesso por etapas

A prefeitura de Rio Acima, pequena cidade de oito mil habitantes a apenas 34 quilômetros da capital de Minas Gerais, está construindo de forma paulatina – em pílulas! – o seu maior projeto turístico, uma maria-fumaça.

É um trem para passeios sobre a estrada de ferro que já foi o principal meio de transporte da região, e nas últimas décadas caiu no abandono.

Como abordei na análise do livro Rio Acima – Fragmentos da história de Minas, edição de 2010, autoria de Antônio Nahas Júnior, a cidade só foi emancipada em 1948, mas era um povoado que vivia da mineração dede o final do século 17, e desde o final do século 19 dependia do transporte ferroviário, agora substituído pelo padrão rodoviário nacional.

O denominado Trem das Cachoeiras já foi oficialmente inaugurado (30 de junho deste 2012), mas por enquanto só faz passeios curtos de 500 metros (segundo matéria do jornal Hoje em Dia) ou um quilômetro (segundo o departamento de turismo da prefeitura).

A inauguração ampla não parece estar longe: a prefeitura alega que falta apenas terminar um trecho (de asfaltamento).

Segundo o Hoje em Dia, “o projeto, fruto de uma parceria entre o Centro de Referência Ambiental e Turística (Crat) e a prefeitura, custou cerca de R$ 3 milhões. O diretor do Crat, Flávio Garcia Iglesias Fernandes, aposta no retorno do investimento em até 5 anos”.

O mesmo jornal informa, em outra reportagem, que a locomotiva (fabricada na Alemanha em 1924) foi encontrada em 2007 em uma usina de açúcar na Paraíba, puxando 30 vagões de cana por dia, e foi adquirida pela Prefeitura de Rio Acima, em parceria com o Centro de Referência Ambiental e Turístico (CRAT) do município. Depois de dois anos de restauração ela chegou à cidade.

E anuncia preços bem salgados para os passeios:

Para andar na maria-fumaça, a 15 km/h, é preciso desembolsar R$ 20 ou R$ 28, dependendo da escolha do vagão. Mas quem comprovar moradia em Rio Acima tem desconto de 40%. O Véu da Noiva e o Samsa são mais baratos que o Chica Dona, que tem decoração mais requintada. Os três compartimentos, batizados por alunos da cidade, têm ar-condicionado, música ambiente e televisão.

Acrescenta que “inicialmente, a Maria Fumaça deve percorrer um percurso de sete quilômetros saindo da Estação Ferroviária de Rio Acima, passando pelo Pontilhão de Aço e por uma cachoeira até o bairro Labareba, de onde retorna ao Centro da cidade. O trajeto acontece todo às margens do Rio das Velhas”. Os sete quilômetros somam a ida com a volta.

Boa sorte para Rio Acima, que realmente precisa de novas fontes econômicas para melhor atender a população.

Baseei meu texto em reportagens distintas do jornal Hoje em Dia (encontráveis na internet via Google), único diário da capital que está dando publicidade ao empreendimento. Tanto o site da prefeitura quanto o do CRAT são bastante falhos em informações.

O Trem das Cachoeiras é um projeto que mescla dinheiro público e privado, um formato de empreendimento frequente no Brasil, mas que sempre produz o risco de démarches e interrupções, pois é dependente da relação entre empresários e administradores públicos, com o agravante de que estes últimos possuem mandato fixo, são cambiáveis.

Mas foi uma iniciativa importante e respeitável: cabe aos órgãos fiscalizadores previstos pela Constituição – extensivo aos cidadãos e à mídia – o acompanhamento constante, ao longo dos anos, para viabilizar a transformação do projeto em um empreendimento estável, duradouro e lucrativo, de valor social.

Um comentário final, de temática linguística: o jornal Hoje em Dia registrou o trem de três formas: “maria-fumaça”, “Maria-Fumaça” e “Maria Fumaça”. Se consultasse o Aurélio, saberia que a primeira é a única correta, com hífen e minúsculas.

E na foto abaixo, também de 17/07/2012, meu pai posa junto à maria-fumaça que pretendemos conhecer e usar quando a prefeitura fizer a inauguração real:

Maria-fumaça de Rio Acima (MG)

Antônio Nahas Júnior escreve um livro competente sobre a história da cidade de Rio Acima (MG)

Li, bem recentemente, o livro Rio Acima – Fragmentos da história de Minas, edição de 2010, autoria de Antônio Nahas Júnior.

Rio Acima é um pacato município que faz parte da região metropolitana de Belo Horizonte (MG), com população estimada (2006) de 8.000 habitantes. Situa-se a 34 quilômetros da capital e foi emancipado em 1948.

A obra merece largos elogios, pois foi escrita com todos os rigores da técnica historiográfica, o que lhe confere crédito e valor.

O autor informa que, nas origens mais remotas da fixação da civilização no local (século 17), o bandeirante paulista Borba Gato criou locais de garimpo por toda a região central de Minas Gerais e que alguns se transformaram em vilas, arraiais e cidades.

Depois a coroa portuguesa instalou a freguesa de Santo Antônio do Rio Acima, criada a partir da fundação da Comarca de Rio das Velhas, em 1711.

Na impossibilidade de obter dados exatos dos primórdios da localidade, pois a época era de pouca cultura e parca documentação, Nahas se atira na história vinculável: bandeirantes, mineração, trabalho escravo e as pouco conhecidas, mas fartamente documentadas, viagens dos dois Dom Pedro à região.

Já a história recente de Rio Acima está inteiramente vinculada a uma personalidade isolada: o industrial e político Américo René Giannetti.

Ele instalou um complexo industrial que permitiu a emancipação da cidade, que teve um médico da sua indústria como primeiro prefeito.

Giannetti – hoje mais lembrado como nome do parque municipal de Belo Horizonte – tinha tanto poder e prestígio que se elegeu prefeito da capital, mas morreu em 1954, durante o mandato.

Para acessar a matéria do jornal Estado de Minas sobre a obra citada, cliqueaqui.

Abaixo estampo fotos que fiz numa única e curta viagem a Rio Acima, em 17/07/2012. Na primeira, meu pai posa na pequena praça no centro da também pequena Rio Acima:

Rio Acima (MG)

Na segunda, as ruínas das antigamente portentosas instalações das indústrias de Américo René Giannetti, junto à linha de trem que está em restauração:

Rio Acima (MG)

Quem constrói casa irregular na beira da estrada só quer acesso fácil para as fontes de dinheiro

A questão das moradias irregulares no Brasil é obviamente antiga, mas sem perspectiva de melhoras. E a retrospectiva histórica só nos leva a projetar pioras.

Principalmente nas favelas e nas beiras das estradas.

No caso das estradas, é rotineiro o noticiário de manifestações de invasores que muitas vezes resultam em confrontos com órgãos de segurança; a elevada incidência de atropelamentos e mortes também é notícia de rotina.

Os moradores reclamam que não têm para onde ir, mas estão faltando com a verdade: o que eles realmente desejam é morar num lugar onde encontram fácil acesso para fontes de renda, como é o caso de estradas movimentadas.

Em Belo Horizonte, minha base, o problema maior acontece no Anel Rodoviário, uma extensa pista na periferia administrada (e mal) pelo Ministério dos Transportes.

Segundo matéria divulgada pelo portal do grupo Record de mídia em 2010, mas ainda válida, “o DNIT [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes] estima que somente nos 26,5 km do anel rodoviário, em Belo Horizonte, 2.500 mil famílias vivam à beira da via, na qual circulam 100 mil veículos por dia”.

Outro foco de idênticos problemas é a BR-381, também citada na mesma reportagem: “A situação também é crítica na BR-381, especialmente na saída da região metropolitana da capital para o Espírito Santo. Em boa parte dessa rodovia, barracos disputam espaço com carros, enquanto a lei determina em 40 metros, a partir do eixo da pista, a extensão da faixa de domínio das estradas federais.”.

A mesma matéria dá a pista da extensão da ineficiência dos poderes públicos: segundo o inspetor Aristides Júnior, da PRF (Polícia Rodoviária Federal), “os cidadãos constroem os seus barracos durante a madrugada e de forma rápida. Raramente flagramos alguém. Quando conseguimos, impedimos a obra e comunicamos ao Dnit”.

O citado DNIT, por sua vez, não tem poder de polícia e se limita a levar alguns casos à Justiça: “O superintendente regional do Dnit em Minas Gerais, Sebastião Donizete de Souza, reconhece que as invasões fugiram ao controle. Souza enfatiza que, por meio da Procuradoria Federal Especializada, ajuizou ações de reintegração de posse para desocupar a faixa de domínio das rodovias.“ Completa, textualmente, o superintendente: “Algumas delas tiveram decisões favoráveis em última instância. Mas entendemos que se trata de uma questão social e não podemos apenas desalojar as famílias.”.

A consequência dessa antiga disputa, travestida de tolerância, é um jogo de gato-e-rato em que todos perdem: usuários, poder público, invasores sem terra e população local.

É um jogo que possui uma sequência histórica, cronológica e cíclica: constrói-se uma estrada, depois os invasores se instalam progressivamente nas laterais, o trânsito fica ruim ou inviável, o governo constrói uma variante cara e depois o ciclo recomeça na própria variante ou em algum trecho próximo.

Uma peneira que tapa o sol.

Para acesso à matéria da Record (R7), cliqueaqui.

Obras públicas, no Brasil, são sinônimo de aborrecimentos aos usuários e grande prejuízo para comerciantes

Obras públicas de grande vulto são necessárias, são indispensáveis, o povo agradece; mas no Brasil são geralmente mal programadas e causam transtornos que variam do aborrecimento (para alguns) ao dramático (para outros).

Em Belo Horizonte, a mais recente das várias reformas da Praça Diogo de Vasconcelos (Savassi) prejudicou pedestres e deu graves prejuízos a comerciantes; agora o endereço dos mesmos problemas passou para a Avenida Santos Dumont, no centro da cidade.

O jornal Estado de Minas fez em 18/05/2012 uma matéria que se enquadra na genérica classificação de “reportagem de comportamento”: entrevistou populares e comerciantes prejudicados pelas obras que interditaram totalmente o trânsito de veículos.

O primeiro entrevistado foi um balconista de uma loja não identificada: “Cristian Ferreira diz que o patrão não está. ‘Saiu pra procurar serviço. Parece até brincadeira, mas é verdade’, sorri, muito sem graça.”.

O repórter Jefferson da Fonseca Coutinho apresenta outro caso: “Na casa lotérica, no número 540, a gerente Cláudia Cristina Conceição Castro, de 37, está espantada com a queda da clientela. Já fez as contas e diz que a redução dos serviços beira os 70%. A administradora diz que o dono, ‘infelizmente’, já fala em redução do quadro de pessoal.”.

Em outro caso exercita o texto livre e usa até ironia: “A música alta do bar da Míriam invade o passeio da Santos Dumont. A volta. Uma beleza: ‘Estou guardando o que há de bom em mim…’, roda o disco do cantor Roberto Carlos, clássico, na vitrola de ficha, atração do lugar. Não funciona. O estabelecimento está quase deserto. Um casal apenas, só no paparico, ao som do Rei, cervejinha e tira-gosto no balcão. Ao fundo, a cozinheira descasca o alho.”.

O inevitável problema da segurança também aparece: “A noite é aborrecimento de outra natureza para o técnico em informática Marcos André, de 23, morador do Conjunto Paulo VI. O caminho do emprego para o ponto do ônibus, para ele, ‘depois que escurece, parece filme de terror’.”.

Um bom trabalho do repórter.

A necessidade de grandes obras públicas no Brasil – no caso, das grandes reformas – tem sua origem no projeto original, que geralmente é simplista, imediatista e despreparado para os avanços naturais do futuro.

E segue pela ineficiência da fiscalização dos órgãos oficiais, que permitem novas obras ou reformas fora dos padrões técnicos necessários ao processo de urbanização.

Mas a questão não se resume a isso: mesmo quando adequados às necessidades contemporâneas, vias, logradouros e prédios públicos são regularmente reformados pelos administradores públicos para uso no marketing político. Estão de olho nos próximos processos eleitorais.

Para gáudio da máquina de interesses que cerca os cofres públicos.

(Obs.: Mais de três meses depois da matéria, ao passar pela Praça da Estação, lancei o olhar para a Avenida Santos Dumont. Acho que o problema piorou.)

Para acessar a matéria do jornal Estado de Minas, cliqueaqui.