Nelson Prudêncio, que agora é Doutor (PhD), é um exemplo da transição do esporte para a vida de sucesso

Aos 18 anos, no auge de minha inexperiência, fui contratado como repórter do Jornal de Minas, jornal diário de Belo Horizonte.

O ano era 1973 e o regime político brasileiro era ditatorial-militar, com o qual o jornal tinha fortes vínculos.

Recebi ordens para fazer uma entrevista com o expoente maior do atletismo brasileiro, o triplo saltador Nelson Prudêncio.

Ele estava alojado numa dependência militar, provavelmente da Aeronáutica, pois verifico agora, em sua biografia, que ele trabalhou lá por três anos, a partir de 1971.

(Um dia ainda resgato esta minha primeira entrevista como jornalista; cheguei a guardar durante anos a página inteira mas, provavelmente, ela estava num pacote que teve que ir para o lixo depois que se transformou em ninho de ratos, baratas e formigas.)

O oficial que me encaminhou explicou que a entrevista teria que ser compartilhada com todo o grupo de atletas do qual Prudêncio fazia parte.

Provou que não entendia de jornalismo, pois nenhum editor daria a atletas comuns o mesmo destaque atribuído a um medalhista olímpico, então a única estrela de renome nacional no atletismo.

Criou-se uma situação esdrúxula: eu só fazia perguntas para Nelson Prudêncio, os outros viraram plateia; se fiz alguma pergunta aos demais, ela provavelmente nem foi datilografada.

Dez anos mais velho do que eu, ele provavelmente foi paternal com as minhas perguntas, certamente simples e óbvias.

Leio em 29/06/12, no site UOL Notícias, que Prudêncio é Doutor (ou PhD) desde 2006, quando “depois de uma pesquisa de cinco anos, concluiu a tese específica sobre a técnica do salto triplo”. Um trabalho importante para coroar a sua extensa carreira como professor de educação física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Parabéns!

O Brasil tem no alto triplo seus melhores resultados no atletismo, com seis medalhas olímpicas: ouro – Adhemar Ferreira da Silva – Helsinque-1952; ouro – Adhemar Ferreira da Silva – Melbourne-1956; prata – Nelson Prudêncio – Cidade do México-1968; bronze – Nelson Prudêncio – Munique-1972; bronze – João do Pulo – Montreal-1976; bronze – João do Pulo – Moscou-1980.

Cheguei a conhecer o mais importantes deles, Adhemar Ferreira da Silva, mas só de vista: sessentão ainda bastante empertigado, gostava de frequentar o Hipódromo de Cidade Jardim, São Paulo.

Era discreto, não o via em rodas; faleceu precocemente, provavelmente por conta do cigarro que usara até em sua fase de atleta.

Tinha uma particularidade interessante: altamente ligado à cultura e aos estudos, ficou famoso pela longa passagem por várias universidades: “escultor formado pela Escola Técnica Federal de São Paulo (1948), Educação Física na Escola do Exército, Direito na Universidade do Brasil (1968) e Relações Públicas na Faculdade de Comunicação Social Casper Libero (1990).” (fonte: 1000 Que Fizeram o Século 20 – Isto É – The Times).

A história mais impressionante é a do terceiro deles, João Carlos de Oliveira (o João do Pulo): conquistou quatro medalhas de ouro, em salto em distância e salto triplo, nos Jogos Pan-americanos de 1975 e 79, tendo na versão de 75 alcançado o recorde mundial do salto triplo. Foi medalha de bronze nas Olimpíadas de 1976 e 1980. Nesta última, realizada em Moscou, foi novamente favorito para o salto triplo, mas novamente ficou com a medalha de bronze, superado por dois soviéticos, depois de ter seus melhores saltos anulados por fiscais que estariam, supostamente, protegendo os representantes locais. Pode parecer teoria da conspiração, mas provavelmente a suposição é verdadeira: os líderes do regime comunista viam no esporte a principal forma de publicidade ideológica positiva. Mas em 1981 um motorista bêbado, dirigindo na contramão, bateu no carro de João do Pulo, que teve a perna direita amputada. Entrou para a política e cumpriu dois mandatos de deputado estadual. Morreu aos 45 anos, em 1999; segundo a Wikipedia, “devido a cirrose hepática e infecção generalizada, solitário e com dívidas financeiras”.

Agruras do destino não permitiram a ele desfrutar dos louros.

Para acessar a matéria sobre o doutorado de Nelson Prudêncio, cliqueaqui.

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