Erotização e provocação: perigosos e complexos comportamentos da mulher

Talvez o regime militar brasileiro tenha sido, em sua época (1964-85), mais influente do que a igreja católica na repressão aos desejos sexuais — se é que se pode aquilatar tal comparação.

Na minha juventude (anos 70) a censura comandada pelo poder político-militar vigiava os meios de comunicação, principalmente cinema, televisão, jornais e revistas.

Pouco material sobrava para satisfazer curiosidade, instintos e desejos da juventude, principalmente – claro! – do sexo masculino.

Os donos dos cinemas procuravam todas as brechas possíveis para conseguir material erótico; apareceram até filmes de suposto caráter educativo ou científico, mas os exibidores sabiam que o objetivo maior do público era ver as partes proibidas dos corpos femininos ou simulacros de atos sexuais.

Uma vez assisti a um filme de educação sexual, de origem alemã, um entre muitos que passaram nas telonas; lembro-me de uma cena em que uma jovem excitou o seu namorado a tal ponto que ele forçou o ato sexual sem perceber a resistência dela ao clímax.

Em outras palavras, um estupro; mas a cena foi apresentada apenas como uma consequência possível para a mulher que não é capaz de controlar o ato de provocação.

Eu não me lembro de que o filme apresentasse uma condenação explícita ao ato do rapaz.

Esta velha história me veio à mente numa viagem a Porto Alegre, no final de novembro (2011), quando percebi que a roupa tipo collant estava voltando à moda; era grande a disseminação entre as jovens gaúchas.

As calças collant usadas eram tão justas que acompanhavam todas as curvaturas do corpo e formatos anatômicos externos.

Me chamou especialmente a atenção uma jovem de pouco mais de 20 anos que, dentro do trem, estava com uma calça collant de cor marrom claro, cor de pele, chamando bastante a atenção.

Comportava-se com aparente indiferença, fingia que não estava percebendo os olhares sequiosos, mas nenhuma mulher selecionaria tão cuidadosamente tal roupa se não soubesse muito bem o que estava fazendo. Óbvio.

A memória mais antiga puxa por um fato que presenciei há três décadas: uma bela e esguia colega moreno jambo às vezes aparecia com um collant bege, sem sutiã. Um dia levou uma cantada (e era um ambiente teoricamente mais liberal, uma redação de jornal), mas se sentiu ofendida e deu um show, quando poderia ter resolvido a questão em conversa particular.

Aos poucos percebi que ela não tinha a sexualidade bem resolvida. Tinha a necessidade de provocar, chamar a atenção (resquício infantil, decerto), mas não sabia lidar com as consequências.

A relação entre a erotização feminina e a reação masculina cria uma situação curiosa, uma briga de gato e rato: mulheres como a gaúcha do trem e a mineirinha mal resolvida querem ser vistas, mas não admitem ser tocadas; provocam o desejo, mas proíbem a reação mais ousada, ou mais direta, dos homens.

Uma situação menos ostensiva, menos radical, acontece com as mulheres que acertam o decote para que apenas uma parte do seio apareça; e ficam a todo omento corrigindo a posição da blusa para que não apareça demais, nem de menos.

E também com as que usam calça com a cintura baixa, e toda vez que se abaixam precisam colocar a mão para esconder, pelo menos em parte, a – chamemos assim – fenda nadegal.

(Que os dinossauros ainda chamam de rego, palavra esquecida…)

Mais radical é o que acontece nas praias: as mesmas mulheres que, em outros ambientes, escondem todo o corpo, só usam minúsculos biquínis e fingem não perceber os olhares desejosos.

Este conjunto de observações não trafega em sentido contrário às ideias de Sigmund Freud, o psicanalista que se notabilizou ao pesquisar as mais profundas influências do sexo no comportamento humano.

(E que as mulheres que lerem o texto não se preocupem com meus olhares analíticos: já consegui transferir meus pensamentos para o papel, depois para a internet, e agora estou à cata de outros objetos comportamentais. Ok?)

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