O brasileiro deveria ser menos tolerante aos atos de molecagem, irresponsabilidade, imaturidade e desrespeito

Meu pai (quer ainda está recebendo parabéns pelos recém-completados 90 anos – me relatou em abril deste 2012 um fato estranhíssimo: um carro novo, marca Ford Ka, estava estacionado 20 metros acima de nossa casa, cheio de lixo sobre o teto.

Achei a situação tão inusitada que fui à rua – bairro Santa Tereza, Belo Horizonte – conferir; e era exatamente o que ele disse.

Um vizinho se lembrou que, na véspera, acontecera a mesma coisa com um carro estacionado no mesmo quarteirão, pertencente a um funcionário de uma empresa de vigilância.

E concluiu que o segundo caso era uma brincadeira, uma desforra da vítima da véspera.

Algumas horas depois passei por lá: o Ka havia sido retirado, mas o lixo foi jogado no passeio/calçada do dono da casa em frente, uma pessoa idosa, com problemas de saúde, que obviamente nada tinha a ver com a brincadeira idiota.

O brasileiro cultiva e valoriza – desde que me conheço como gente – este comportamento supostamente brincalhão, mas despreza as consequências.

O caso me remeteu a um fato semelhante que aconteceu umas três décadas atrás, quando o Jockey Club de Minas Gerais tinha uma agência de apostas no Bairro Funcionários e eu costumava deixar meu carro lá perto enquanto acompanhava, às vezes durante horas, as corridas.

Um determinado dia – era um início de noite de domingo –, ao buscar o carro, percebi que dois rapazes estavam esvaziando os pneus; eram funcionários do clube, vendedores de apostas, que ficaram surpresos com a infeliz coincidência e confessaram que se tratava de uma brincadeira.

Explicaram que o carro foi escolhido aleatoriamente, o que me pareceu verdadeiro.

Acontece que eu também era diretor do clube – ainda que de outra área – e no dia seguinte reclamei com o gerente do setor.

Não me lembro mais dos detalhes, mas creio que um foi demitido e o outro admoestado – ou alguma coisa parecida; sofreram justas consequências, e me lembro que um deles, poucos anos depois, pediu a readmissão mas um contratador se lembrou do caso e negou.

Este comportamento – molecagens, brincadeiras, uma infantilidade que persiste pela vida adulta – é comum no Brasil, é típico de brasileiros, e só existe porque é relativamente tolerado.

E as consequências nem sempre se resumem ao prejuízo para os alvos diretos, ou terceiros que muitas vezes nem conhecem os autores.

Uma sociedade não se organiza quando a tolerância e a impunidade são consequências frequentes das normas escritas.

E ignora uma expressão proverbial, tão antiga quanto verdadeira: a liberdade de cada indivíduo sempre termina onde começa a liberdade do outro.

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