Os números comprovam que George W. Bush foi o culpado da crise econômica dos EUA em 2011

A crise econômica dos Estados Unidos de 2011 afetou o país-líder de uma forma heterogênea: duramente recessiva em alguns setores, fugaz em outros.

Talvez por isso sua extensão não tenha sido bem compreendida por outros povos, ou mesmo pelos próprios ianques; nem nos efeitos, nem nas causas.

A consequência é que o antipático presidente George Walker Bush não foi demonizado o suficiente, ele que talvez tenha sido o principal responsável por ela.

Encontrei um artigo de Suely Caldas, jornalista e professora da PUC-Rio, colunista fixa (todo domingo) da página 2 do caderno de economia d’O Estado de São Paulo, que incluiu um bom resumo do malfeito do terrível ex-presidente:

Até a gestão Bill Clinton, em 2001, a dívida dos EUA somava US$ 5,8 trilhões. Nos oito anos de George W. Bush ela mais que dobrou, foi para US$ 11,9 trilhões e para US$ 14,3 trilhões na gestão Obama. Os gastos para sustentar as guerras contra Iraque e Afeganistão, os cortes de impostos dos mais ricos e a crise de 2008 explicam esse salto. Ao chegar ao poder, em 2001, Bush encontrou um superávit público de US$ 5,6 trilhões, que ele tratou de transformar em déficit de US$ 3,3 trilhões apenas dois anos depois. Foi essa a maldição que Bush deixou para Obama.”.

Para acesso ao texto, cliqueaqui.

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João Ubaldo Ribeiro diz que é uma incoerência considerar xingamento ser chamado de jegue

Meu escritor brasileiro (vivo) preferido, João Ubaldo Ribeiro, procurou um tema ligado à data de primeiro de abril deste 2012 para escrever a sua tradicional coluna dominical de O Estado de São Paulo, publicada naquele dia.

Poderia usar o tradicional dia da mentira, mas optou pelo domingo de ramos, festa religiosa católica, a cada ano com menos Ibope.

E escolheu como mote um jumento sagrado:

Hoje é Domingo de Ramos e me lembrei de estampas dos livros de minha infância, mostrando Jesus entrando em Jerusalém, cercado por folhas de palmeiras agitadas pelo povo e montado num jeguinho.”.

Aproveitou o ensejo para criticar a incoerência popular de “considerar xingamento ser chamado pelos nomes de animais amigos ou úteis, como cachorro, vaca ou galinha, e achar elogio receber apelidos de feras ou predadores, como tigre, águia ou raposa.”.

Envereda, adiante, pela desvalorização do jumento, ou jegue (forma comum no nordeste do baiano João Ubaldo):

Apesar de sua inestimável folha de serviços, o jegue não tem o respeito e a estima das novas gerações, pois que, além de tudo, é tecnologia antiga. Ninguém quer mais saber de jegues e agora, naturalmente, todo mundo anda de moto.”.

Ironiza a substituição do jegue pelas motocicletas:

Até o fato de trabalhar de graça [o jegue] e praticamente não ter custos o prejudica, essas coisas de graça não são boas para a economia. As motos dão escoamento à produção de um importante complexo industrial, geram consumo em muitas outras áreas, criam empregos e assim por diante.”.

A crônica O jumentinho de Nosso Senhor merece uma leitura completa; para acessá-la, cliqueaqui.

Analista Celso Ming diz que a Embrapa perdeu o bonde e está em decadência por influência política e ideológica

Sempre fico decepcionado com a dificuldade brasileira de associar a eficiência com o longo ou longuíssimo prazo.

Segundo o jornalista Celso Ming, especialista em economia e colunista do jornal O Estado de São Paulo, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), de participação decisiva na evolução tecnológica da agricultura brasileira, está em franca decadência.

Na coluna de 01/04/20112 diz que “há cinco anos, sementes com tecnologia da Embrapa respondiam por 50% da produção de soja do Brasil; hoje, não passam de 10% – estima a consultoria Céleres. Esse encolhimento não se deve apenas à insuficiência de recursos para pesquisa, mas também a graves equívocos estratégicos do passado”.

E detalha:

Durante bom tempo, contaminada por preconceitos ideológicos, a administração da Embrapa se recusou a avançar no desenvolvimento de técnicas de modificação genética. Temia pela produção de aberrações vegetais e de prejuízos para a saúde e para o meio ambiente. Bastou isso para que a pesquisa nacional do setor se ananicasse. Abriu-se espaço enorme, hoje dificilmente recuperável, para sementes transgênicas de grandes multinacionais, como Monsanto, Syngenta e Bayer CropScience. 

A regulamentação para liberação das culturas transgênicas no Brasil ocorreu em 2005. Desde então, a CTNbio, organismo encarregado de aprovar sementes geneticamente modificadas no País, liberou 32 variedades, duas produzidas pela Embrapa. Nenhuma delas está no mercado.”.

Ming foi bem direto no título do artigo: “A Embrapa perdeu o bonde”.

Ele não se aprofunda na questão político-ideológica, mas é fato que grupos de ecologistas-radicais aninhados no PT sempre foram contrários ao latifúndio e ao agronegócio, atividades que souberam usar as tecnologias aperfeiçoadas pela Embrapa.

Os mesmos grupos torcem o nariz para os alimentos transgênicos, muitas vezes com argumentos embasados em fantasia pura.

Para acesso ao texto, cliqueaqui.

O belo distrito de Milho Verde fica mais perto (metaforicamente) com o asfaltamento da estrada para o Serro, sua sede

Em outubro de 2010 tentei conhecer o distrito de Milho Verde, pertencente ao município histórico do Serro, região central de Minas Gerais.

Não tive sucesso: desisti na metade da precária, perigosa, irregular e deserta estradinha rural de 25 quilômetros, preocupado com o desempenho do meu pobre carro urbano.

Neste intervalo o governo do Estado asfaltou a via; no dia 05/04 finalmente completei o trajeto e conheci Milho Verde.

A obra foi tão profunda, radical, que nem reconheci o caminho; trocou-se um acesso precário, antigo, por um moderno e rápido.

E passei os dias da Semana Santa, de forma agradável e tranquila, na região de meus ancestrais pelo lado materno.

Falta agora a continuação da estrada até o distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, e depois até Diamantina. Mas também falta uma obra mais importante: a ligação por estrada asfaltada entre as duas cidades mais importantes da região, que são Serro e Conceição do Mato Dentro.

A igrejinha da Nossa Senhora do Rosário é o cartão postal mais conhecido de Milho Verde embora não seja a igreja matriz (que é mais rica, mas não dá imagens fotográficas tão belas). Segue abaixo uma foto da igrejinha, num fim de tarde deste abril de 2012:

A igrejinha da Nossa Senhora do Rosário é o cartão postal mais conhecido de Milho Verde

O uso do título de Doutor reflete uma forma de egocentrismo, de conquista de status

Em janeiro de 1986, quando eu fiz o primeiro de meus vários estágios profissionais (medicina veterinária) junto ao Jockey Club de São Paulo, observei que outros estagiários, estudantes portanto, tratavam-se uns aos outros de “doutor”. Ou doutora.

Falavam às vezes rindo, como se fosse brincadeira, mas observei que havia algo de sério nas entrelinhas. Ou nas entrepalavras.

No fundo, estavam querendo se acostumar ao pomposo título, à expectativa de serem tratados com mais respeito e distanciamento.

E sentir o sabor de ganhar status e a sensação de subir na vida, se destacar na sociedade, sonho que já não parecia tão distante.

Essa forma de tratamento – doutor – sempre estimulou a diferenciação entre as pessoas, ao contrário de senhor, que é usada apenas por respeito à idade, ou entre desconhecidos.

Não pesquisei o histórico do uso de doutor como forma de tratamento, mas presumo que, no Brasil, já tenha sido usada quase exclusivamente para os médicos.

Talvez pelo status da medicina: ainda que, dois ou mais séculos atrás, ela fosse uma ciência limitada, às vezes até com claras semelhanças com o charlatanismo, era altamente valorizada por cuidar da saúde, um requisito para a manutenção da própria vida.

Por tal lógica, é possível que apenas os médicos tenham sido doutores no passado, mas outras categorias foram aderindo, em busca de status, respeito, diferenciação.

Também é possível que as primeiras classes a imitar tenham sido as derivadas da medicina, como a veterinária e a odontologia.

A fisioterapia é um ramo bem mais recente; a memória me lança aos mesmos anos 1980, quando observei, numa academia de ginástica, um agressivo fisioterapeuta que se referia em voz alta, a si e à sua também antipática colega, como “doutores”, para deixar claro aos clientes que esta era a forma de tratamento exigida.

Queria o título a qualquer custo, mesmo que arrancado a ferro e fogo das bocas das pessoas.

Os advogados talvez tenham sido o segundo bloco profissional a adotar o título, o que incentivou a banalização pois o número de diplomados em Direito se multiplicou espantosamente nas últimas décadas (afinal, trata-se de um curso bem mais barato e mais fácil de ser oferecido pelas universidades, pois não exige grandes espaços, hospitais-escola, equipamentos sofisticados nem cadáveres humanos).

Ser doutor perdeu importância, mas a vaidade humana não permite o desaparecimento de tal forma de tratamento.

Autoridades vaidosas e muitos empresários (por exemplo) demonstram claramente que só negociam com quem os trata desta forma, exigem ser chamados de Doutor, não de Senhor. Ou na flexão feminina, pois a mulher, ao chegar ao mercado de trabalho, absorveu os mesmos defeitos.

E por aí segue e seguirá a humanidade, com seus ególatras que perseguem a tentativa infantil, inútil, de sobressair da multidão, de parecer especial, superior, quase imortal.

Pesquisa informa: Jovens estão substituindo os velhinhos aposentados na profissão de síndico de prédio

O aumento rápido da população e da incidência de roubos em casas transformam os condomínios/prédios em principal formato de residência nas cidades médias e grandes do Brasil.

À questão da segurança se soma o fato de que as famílias modernas são pequenas e o casal trabalha em tempo integral, tornando a residência um alvo fácil para ladrões.

Mas o condomínio cria um problema novo: famílias sem parentesco ou outros vínculos precisam conviver, discutir assuntos comuns e eleger o administrador, o síndico.

Que atire a primeira pedra o condomínio que não passou por crises de relacionamento!

Crises que deveriam ser mediadas pelo síndico, mas com frequência ele/ela é a causa de boa parte deles.

Matéria da Folha de São Paulo de 12/02/12 abre a questão com um título otimista: “Síndicos estão mais jovens e democráticos”.

Informa que, na supermegalópole brasileira, “atualmente, 4 milhões vivem em condomínios verticais ou horizontais da capital. Governar essas microcidades por mandatos de dois anos é tarefa de 30 mil síndicos eleitos ou reeleitos em assembleias, que ocorrem principalmente no primeiro trimestre de cada ano”.

O jornal entrevistou Rosely Schwartz, professora da Escola Paulista de Direito e autora do livro “Revolucionando o Condomínio”, que analisou: “Na década de 1990, prevaleciam os senhores aposentados. Nos anos 2000, as mulheres conquistaram mais espaço. Agora, há perfis diversificados. O síndico está evoluindo, acompanhando as exigências legais e a complexidade administrativa dos novos condomínios”.

Por um dever de sinceridade – não teria sentido usar um blog para escrever o que não se pensa – me sinto obrigado a dizer que tenho uma visão pessimista da capacidade brasileira de se organizar socialmente, em grupos.

Falta objetividade, faltam noções de formatos adequados de comportamentos.

Egoísmos sempre explodem.

Fecho com a transcrição de um parágrafo da mesma reportagem, que é meramente informativo mas entendo importante:

Desde 2003, quando entrou em vigor o novo Código Civil, o síndico responde judicialmente por tudo o que acontece portaria adentro, incluindo questões criminais, tributárias e trabalhistas.”.

Chico Anysio já acusou Jô Soares de desempregar humoristas quando este se fixou em talk-show e desistiu dos programas de auditório

Acho interessantes as discussões do tipo “quem foi o melhor”.

Nunca haverá unanimidade pois conceitos e opiniões variam, mas existem preferências. São os “mais votados”, formal ou informalmente.

Talvez Chico Anysio, falecido em 24/03/2012, aos 80 anos, tenha sido o mais importante comediante brasileiro do século 20.

Além do seu trabalho, ele também deixou a imagem do espírito associativo, de sua constante defesa do mercado de trabalho para os colegas de profissão.

Em torno de 1990 Chico chegou a fazer críticas públicas a Jô Soares: alertou que a substituição do programa de auditório por um talk show (concretizada no SBT) levaria à perda definitiva de uma opção de trabalho para os humoristas.

Relembrando a história: Jô pilotava na Globo o programa “Viva o Gordo” e em 1988 transferiu-se para o SBT, onde manteve por curto tempo um de formato semelhante e criou o Jô Soares Onze e Meia, só para entrevistas. Chegou a dizer que este último era o seu sonho. Depois acabou com o primeiro (“Veja o Gordo”) e se manteve no segundo, transferido em 2000 para a TV Globo. É o único comediante fixo no talk show.

Quando o criticou, Chico Anysio acreditava que a Rede Globo não criaria um programa semelhante, pois somente ele e Jô tinham perfil adequado a liderar aquele modelo de empreitada. E certo estava.

Por outro lado, como criticar o Jô? É justo que o profissional fique algemado, impedido de mudar de estilo porque existe uma expectativa de que não haverá uma sucessão assemelhada?

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

O inteligente Jô não deixou o assunto render.

O tempo passa e a tudo muda; foi-se o maior de todos e Jô Soares envelhece; a nova geração experimenta novas fórmulas que pouco duram, mercê das grandes mudanças que afetam os veículos e as preferências do público.