Os sírios-brasileiros nem parecem conterrâneos de Bashar Assad

Belo Horizonte foi um grande centro receptor de imigração sírio-libanesa nas primeiras décadas do século 20.

Convivi com vários deles na minha atividade de turfe (corridas de cavalos), geralmente filhos e netos de imigrantes; boa parte dos que conheci – com os quais ainda convivo agradavelmente – são pessoas educadas, inteligentes, que se destacaram em nossa sociedade.

Nem parecem proceder de dois países que frequentam um noticiário de guerras constantes, intermináveis: o Líbano viveu uma guerra civil nos anos 70 e a atual situação da Síria não está longe disso.

O jornalista e escritor Jon Lee Anderson esteve na Síria e publicou um longo texto na revista americana New Yorker, traduzido em duas páginas pelo caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 28/02/2012, sob o título “A Síria contra si mesma”.

Gostaria de extrair alguns trechos interessantes, mas desta vez o jornalão paulista não publicou a matéria na internet.

Anderson informa que o atual presidente Bashar Assad “lidera um regime secular dominado pelos alauitas, membros de uma seita que é uma ramificação do Islã xiita”, alinhados com os cristãos para constituir cerca de um quarto dos 22 milhões de habitantes da Síria.

Mas a maioria é muçulmana e composta, principalmente, por sunitas; e “o restante é composto de uma complicada mistura imponderável de refugiados palestinos, drusos e membros das tribos de beduínos, curdos, armênios circassianos, turcos e algumas dezenas de judeus remanescentes”.

Segundo um professor de assuntos internacionais, por ele citado, são 47 grupos étnicos e religiosos; não conseguem miscigenar, ao contrário dos que emigraram para o Brasil.

A família Cadar, que enraizou com sucesso na sociedade belo-horizontina, é procedente de Homs, a cidade mais bombardeada pelas tropas do governo (as estimativas sobre mortos, feridos e torturados são conflitantes, por dificuldade de informações).

Um povo com potencial para se desenvolver, mas limitado por irresolvíveis questões que só desaparecem para aqueles que deixam as terras de origem, que se afastam do caldeirão que realimenta suas chamas num ciclo secular (aqui, secular tem um sentido temporal).

E as consequências podem provocar uma nova onda migratória de um povo que, com milênios de formação, não consegue se civilizar harmoniosamente e superar egoísmos e mesquinharias de origem tribal e religiosa.

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Antártida ou Antártica? Na verdade, ambos

O incêndio que destruiu boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém no continente gelado do sul da Terra, me levou a pesquisar uma questão que ainda não tinha caído no meu interesse: é Antártida ou Antártica?

O professor Josué Machado, consultor de linguística da mídia, deu a sua resposta no livro Língua Sem Vergonha: a primeira já foi a única correta, mas os dicionários incorporaram a segunda, que também tornou-se correta.

O formato mais difundido no Brasil é usar Antártida como nome próprio, nome do continente; e antártica como adjetivo (região antártica, estação de pesquisa antártica, massa polar antártica, continente antártico, etc.).

Pela contramão segue um gramático importante, professor Luiz Antônio Sacconi, que diz em seu blog: “Sempre afirmei que o nome correto para a região gelada no polo Sul do planeta é Antártica, por várias razões. Quem usa ‘Antártida’ carece de argumentos sólidos (se é que os tem), e sua defesa não resiste a segundos. Aos poucos, porém, todos vão se convencendo de que é mesmo Antártica a forma correta, passando, então, a usá-la.”.

Um pouco de análise etimológica indica que Antártica é a forma mais correta, pois o adjetivo antártico vem do grego antarktikós = oposto ao ártico. E ártico é vinculado ao polo norte há séculos.

Alguns blogueiros afirmam que Antártida é uma corruptela, uma deformação de pronúncia dos falantes portugueses e brasileiros que teria transformado o errado no correto.

Mas não é a única língua – com alguma proximidade com a portuguesa – que trocou o “c” pelo “d”: a língua espanhola escreve Antártida e a italiana escreve Antartide.

Em compensação, outras línguas foram mais coerentes com a raiz etimológica grega: Antarctica (inglês), Antarctique (francês) e Antarktika (alemão).

(A Wikipedia foi a minha fonte.)

Em resumo: as duas formas estão corretas, mas que deveria ser Antártica, deveria.

Explosão da base da Antártida ressalta as questões da falha de segurança e do custo elevado para resultados duvidosos

No recentíssimo dia 25/02/2012, uma explosão seguida de incêndio destruiu boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém no continente gelado do sul da Terra.

A jogada de marketing do dia 28 de fevereiro foi centralizar a atenção nos dois mortos, o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos, cujos corpos foram recebidos no Rio de Janeiro com honras militares, com a presença do vice-presidente da República, Michel Temer, e do ministro da Defesa, Celso Amorim; ademais, foram agraciados com o grau de comendador da Ordem do Mérito da Defesa e postumamente promovidos a segundos-tenentes.

As tragédias humanas sempre garantem o desvio da atenção, a troca de foco…

Infelizmente, o acidente representa apenas mais um ponto na elevada estatística de falhas na construção e manutenção de obras e prédios do Brasil; um mês antes caíram três no Rio de Janeiro.

Neste tipo de acidente o erro é humano, quase sempre; mas dificilmente o público receberá informações sobre o que realmente ocorreu neste caso, pois o controle da base é militar e ela está localizada longe demais para permitir investigações independentes.

E existem velhas dúvidas sobre a importância real de um gasto de milhões na manutenção da estação, inaugurada em 1984 (a questão começara em 1975, durante o Regime Militar, quando o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica).

Em resumo: gasta milhões para ter presença na região e obter vantagens caso apareça uma situação propícia a tal, num futuro inescrutável, desconhecido, imprevisível.

Por enquanto, o continente hipergelado continua sendo, aparentemente, de pouco valor econômico ou geopolítico.

Grandes hospitais reduzem custos usando a lei da filantropia

Não há dúvidas de que o Brasil atravessa seu melhor momento econômico, período iniciado em 1993 pelo Plano Real.

Mas, quando observamos suas intermináveis comunidades, entendemos que é uma nação que não sabe se organizar de forma igualitária, justa e objetiva.

Se podemos complicar, para que simplificar?”. A pergunta maluca parece natural em nossa cultura.

Os hospitais são um exemplo adequado: no Primeiro Mundo estão sujeitos à mesma faixa de tributação; aqueles que não organizam sua administração e suas contas, quebram.

No Brasil, muitos sobrevivem por décadas em pré-insolvência, dependentes da influência dos políticos, que conseguem doações – sob vários disfarces – de dinheiro público.

Agora é possível reduzir custos através da obtenção do certificado de filantropia, oficializado pela lei 12.101 de 2009, que concede isenção fiscal a partir de uma avaliação a ser realizada por técnicos.

O jornal O Estado de São Paulo de 19/02/2012 dedicou uma página a este tema através da reportagem “Hospitais com selo de filantropia realizam 135 projetos para o SUS”.

Extraio o lide (parágrafo de abertura) da matéria:

Graças ao certificado de filantropia e ao reconhecimento como hospitais de excelência conquistado em 2008, Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Hospital do Coração (HCor), Samaritano e Moinhos de Vento deixaram de recolher quase R$ 1 bilhão de encargos trabalhistas nos últimos três anos. Em troca, realizaram cerca de 135 projetos de apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS). Alguns deles, afirmam especialistas, suprem carências importantes da rede pública. Falta, no entanto, um foco mais definido para o conjunto.”.

A expressão “R$ 1 bilhão de encargos trabalhistas nos últimos três anos” parece ter sido um equívoco que confunde o leitor; trata-se, simplesmente, de uma isenção fiscal.

A reportagem não foi denunciatória nem esgotou o tema, limitou-se a entrevistas que defenderam o trabalho dos hospitais beneficiados, ou argumentando que o dinheiro seria mais bem usado em assistencialismo puro.

O jornal falhou em não citar a fonte da informação financeira, não explicou como foi feito o cálculo do valor que cada um dos seis hospitais deixou de recolher.

Um tema importante, mas que precisa de reportagens complementares.

Para acesso ao inteiro teor da matéria, cliqueaqui.

João Ubaldo Ribeiro goza o prazer dos novos ricos em encher a pança

Fui uma criança e adolescente ávido por leitura; um ícone da época foi a História do Mundo para as Crianças, de Monteiro Lobato, presenteado pela tia rica Nair, devidamente cantada pela minha mãe.

Entre outras centenas de informações que ajudaram na minha formação cultural, aprendi que o Império Romano ruiu, entre outros motivos, pela indolência da classe dominante.

Os vários historiadores da época contavam que eles viviam em festas intermináveis, e que muitos deles, de barriga cheia, provocavam o vômito para retornar ao banquete.

E empaturrar-se (ou empanturrar, ou empanzinar) continua sendo a primeira opção dos novos ricos que, à falta de outros objetivos de vida, avançam ferozmente sobre mesas fartas.

Se se interessassem pela ciência da fisiologia descobririam que o corpo humano não tem capacidade para metabolizar o excesso de gordura, de açúcares, de álcool, de nicotina.

E que as doenças provocadas por tais excessos são sempre dolorosas e limitantes; em consequência, deprimentes.

Incapazes de resistir ao prazer da comida, os novos ricos se iludem com uma solução de aparência, pela via da cirurgia plástica.

Meu cronista favorito, João Ubaldo Ribeiro, resolveu gozar a categoria na sua coluna de 19/02/2012, n’O Estado de São Paulo, da qual extraio este parágrafo de exemplar criatividade.

Gugu Galo Ruço e Marquinhos de Edna, cada um também mais rico milionário que o outro, vão fretar um Boeing para ir fazer lipoaspiração de cachaço, bochecha e barriga na América do Norte, decisão tomada depois que ambos cravaram 114 de colarinho, no dia em que botaram gravata para serem homenageados pelos bancos em que têm contas. Quanto às barrigas, faz muito que eles não veem os pés e fazem as unhas orientando as pedicuras por meio de monitores de televisão. Eles ficaram assim de tanto se atufarem daquelas comidas de rico milionário, sarapatéis de tripa de faisão, acarajés de trufas brancas, doces de leite de panda e moquequinhas de ostras frescas da Normandia.”.

A banalização do crime político (inclusive para aumentar a audiência na televisão)

Nos anos 1980 comprei e li o livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de Stanislaw Ponte Preta, que era o pseudônimo do jornalista e redator humorístico Sérgio Porto, falecido em 1968.

Rolei de rir com a primeira parte do livro, uma coletânea de casos reais que haviam acontecido no Brasil. Só selecionou casos absurdos, ridículos, exóticos.

Stanislaw/Sérgio era humorista, só explorou o lado cômico, mas eu me lembrei de sua seleção de absurdos com a notícia da condenação, a penas entre 75 e 105 anos de prisão, dos cinco acusados do assassinato da deputada federal Ceci Cunha, seu marido e outras duas pessoas em 1998, em Maceió.

A condenação só aconteceu em janeiro deste 2012, 13 anos depois dos crimes, mas é outro o ponto central da análise: o mandante foi o ex-parlamentar Pedro Talvane Luiz Gama de Albuquerque Neto que, de acordo com a sentença, encomendou e planejou pessoalmente os assassinatos com o objetivo de obter a cadeira de Ceci, de quem era suplente na Câmara dos Deputados. Recebeu a pena de 103 anos.

Minha Minas Gerais também teve um episódio assemelhado ao de Ceci Cunha: no dia 15/05/2008 o ex-prefeito de Mariana João Ramos Filho, de 78 anos, foi assassinado; o acusado foi o empresário Francisco de Assis Carneiro, o “Chico da Farmácia”.

O mandante Chico da Farmácia era pré-candidato declarado ao cargo de prefeito, mas a candidatura de João Ramos era um obstáculo quase intransponível para qualquer concorrente, pois era popular e já tinha ocupado o cargo três vezes.

Se realmente matou (ainda não foi julgado), foi apenas para ter a esperança de ser eleito; apesar do impacto, a mídia abandonou o caso (não encontrei novidade nenhuma via Google).

Na mesma trilha — absurdos trágicos, que nada possuem de humorísticos — foi o caso do deputado estadual do Amazonas Wallace Souza, acusado pela Polícia Civil de mandar matar traficantes de drogas para aumentar a audiência de seu programa de TV.

Ele teve o mandato cassado em outubro de 2009 e morreu em julho de 2010, aos 51 anos, vítima de uma ascite (a popular barriga d’água), causada por uma doença crônica no fígado.

Quando mais jovem já havia sido expulso da Polícia Civil amazonense por roubo de combustível; virou político e o povo desmemoriado o elegeu, sucessivamente, vereador e deputado estadual.

Ainda falta um treinamento para tornar a polícia mais próxima da população, mais comunitária e menos militarizada

Foi anunciado, em 11/02/2012, o fim da greve da polícia militar da Bahia. Durou 12 dias.

O assunto foi destaque na mídia nacional desde o seu primeiro dia, com grandes prejuízos econômicos para o turismo e o comércio, além do receio de que se estendesse até o carnaval.

O governador petista Jaques Wagner, corroborado por reportagens, anunciou que policiais estavam cometendo atos criminosos (assassinato de supostos bandidos, incêndio de ônibus, bloqueios de avenidas e estradas) para pressionar as autoridades.

A questão da segurança pública entrou na ordem do dia, e o caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 12/02/2012, publicou uma entrevista com o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, que defende que os policiais assumam um papel mais social (comunitário), e menos militarizado.

Na apresentação da entrevista, o repórter Christian Carvalho Cruz informa que o sociólogo “diz que o Brasil perdeu a chance de discutir suas polícias na Constituinte de 1988 e agora paga o preço de uma crise organizacional que chega ao cúmulo de as academias ensinarem cadetes a dobrarem o lençol em vez de mediar conflitos”.

Depois joga as aspas para José Vicente Tavares dos Santos: “O golpe de 1964 abortou um processo que encaminhava as polícias brasileiras para serem órgãos de defesa da ordem pública e do cidadão. Nos anos 50, por exemplo, havia um batalhão no Rio de Janeiro chamado Cosme e Damião – no Rio Grande do Sul o nome era batalhão Pedro e Paulo -, cujos policiais andavam em dupla e tinham todas as funções que os ingleses depois batizaram de polícia comunitária. Mas em 1967 uma lei da ditadura transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial.”.

O especialista detalha a função social do policial: “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil. E mediação de conflito. No mundo todo, 70% das ocorrências atendidas pela polícia são conflitos ainda não criminais”.

E também pede algumas correções e adequações de aspecto prático-profissional: “Nas polícias civis os turnos são de 24 horas por 72 de descanso. Ora, ninguém se mantém atento por 24 horas sem dormir. Isso é um absurdo. Há relatos de turnos de 24 horas em pé. E isso é inumano. Algo mais básico: são raras as policiais que têm coletes à prova de bala adequados à anatomia feminina; nem todas as polícias oferecem seguro de vida aos seus agentes.”.

Só não concordo com a sua defesa de um piso nacional de salário para a categoria, pois são os estados que pagam a conta e é gritante a diferença econômica entre São Paulo e Piauí, por exemplo.

Nesse aspecto, ele se contradiz: “Eu sou a favor de um piso nacional, mas precisamos discutir o valor. A PEC 300 (Proposta de Emenda à Constituição) toma como padrão o salário no Distrito Federal. Mas ali os salários são pagos pelo governo federal. O debate deve levar em conta a sustentabilidade dos Estados.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.