O caso de um comerciante que começou enviando spams criativos, mas depois se tornou um chato, como os outros

A publicidade é a alma do negócio, e a criatividade é a alma da publicidade.

Desviando do caminho das metáforas religiosas, a criatividade é a única chance de sucesso para os spams, as propagandas que os internautas deletam sem abrir, assustados com as histórias sobre os roubos de senhas cometidos por hackers e seus cavalos de Troia.

Mas recebi uma mensagem inteligente, capaz de provocar a atenção do internauta e superar o risco de clicar (mesmo temendo um vírus virtual).

Praticamente uma campanha publicitária: primeiro, veio um e-mail tendo como remetente um singelo e comum prenome feminino (no caso, Larissa). E o assunto: “Essa você tem que saber”.

Apareceu uma mensagem de texto de aparente utilidade pública, sob o titulinho “Cinco informações úteis não divulgadas! Principalmente a QUARTA”.

As três primeiras se referem a cartório eletrônico, auxílio à lista telefônica e documentos roubados; a quarta é de amplo interesse, o direito de o motorista transformar a multa de trânsito em advertência.

A quinta e última foge bastante do tema: dá o link para uma suposta coluna do jornal O Globo sobre uma receita de emagrecimento.

Larissa encerra conclamando o leitor a divulgar a mensagem para os amigos, para “acabar com a indústria da multa”.

Desconfiei da presença discreta, quase disfarçada, do link de uma receita alimentar lançado logo abaixo do tópico mais atraente, e verifiquei qual era o e-mail real da Larissa: depois do arroba aparecia “receita dos famosos”, que seria também o nome da tal coluna.

Confirmado: o serviço de utilidade pública não passava de um despiste para levar o leitor, relaxado, à receita de emagrecimento.

Em ritmo de pesquisa cliquei no link, não sem antes conferir se tinha alguma extensão suspeita (geralmente é o .ru, da Rússia, ou outro país do Leste Europeu).

O site é de um vendedor de produto fitoterápico (à base de ervas); tem alguns logotipos de emissoras de tevê que conduzem, não para a Globo ou a Record, mas para a página de venda.

E não há referência à tal coluna de O Globo.

Contabilizando: usou vários artifícios publicitários mentirosos, típica propaganda enganosa.

Nos dias seguintes recebi outras mensagens idênticas, mas usando outros nomes femininos e sempre com a receitadosfamosos após o arroba. Carlinha foi o mais recente.

Com a repetição, a criatividade desaparece, torna-se inútil; o comerciante usa a troca de nomes para dificultar a localização pelos programas anti-spam, mas irrita o leitor e afugenta o freguês.

Concluo que, ainda assim, a primeira fase da campanha foi planejada com inteligência, mas depois prevaleceu a ambição. E a ética nunca compareceu.

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