Os legisladores se ausentam do plenários porque muitos projetos são irrelevantes

Em 1989, recém-promulgada a Constituição Brasileira que ainda está em vigor (embora largamente emendada), algum órgão da mídia decidiu conferir a frequência dos deputados federais às sessões plenárias, e depois soltou a lista dos gazeteiros.

Dois deles saíram crucificados: o mineiro Mário Bouchardet e o paulista Felipe Cheidde, ambos cassados por excesso de faltas.

Até hoje o assunto retorna às pautas midiáticas, mas os legisladores brasileiros (incluindo os estaduais e municipais) aprenderam a lição e comparecem com alguma frequência, ainda que só para registrar presença.

Sempre achei simplista o critério de presença em sessão como medidor do trabalho político: acompanhar eventos em suas bases, receber representantes de associações e elaborar projetos são algumas das muitas atividades importantes da carreira.

E as pautas de sessões são geralmente irrelevantes, com raros itens de real importância.

A repórter Larissa Carvalho, da TV Globo de Belo Horizonte, fez uma reportagem sobre os projetos irrelevantes na câmara municipal da capital, transmitida pelos telejornalísticos locais em 08/02/2012 com o título “Câmara de BH prevê gastos de mais de R$ 150 mi para 2012”.

Dois vereadores se saíram mal, viraram exemplos de autores de projetos irrelevantes.

Paulinho Motorista já havia desistido da criação do “dia da comida de preto” e tentou sair do ridículo culpando subordinados: “na verdade, esse projeto foi colocado em pauta por uma assessoria minha, que não trabalha comigo mais”.

Retrucou a repórter: “Não é sempre vocês que elaboram um projeto, a assessoria às vezes elabora e apresenta?”. Ele respondeu fingindo que aquilo não passava de um estudo técnico, o que certamente é diferente de um projeto de lei municipal.

O exemplo número dois foi o vereador Pablo César de Souza, o Pablito, que propôs a construção de estações para consertar bicicletas nas ciclovias e também a instalação de neutralizadores de mau-cheiro nos caminhões de lixo.

Mais realista – e ao encontro de minha posição – foi a fala da vereadora Neusinha Santos que, perguntada sobre a presença em sessões, disse na lata: “se o assunto for interessante eu fico, mas se for um assunto banal, que não interessa à cidade, eu realmente não perco meu tempo”.

Quanto ao valor de R$ 150 milhões, alguém cochilou pois a repórter fala em 170 no final da matéria.

Para acesso ao vídeo (inacessível pelos sistemas de busca do site), cliqueaqui.

Uma técnica jornalística de credibilidade duvidosa: relatar os fatos como se os houvesse presenciado

O jornal O Estado de São Paulo há décadas é classificado como conservador.

No plano jornalístico, ser conservador quer dizer: segue as técnicas e regras consagradas, prescritas pelos principais teóricos e pelos manuais.

Conservador que se preze só adota inovações quando elas são de uso corrente, deixam de ser novidade.

E, de fato, esta é a base editorial do Estadão.

Tenho observado uma curiosa exceção na editoria de política, e sempre em matérias assinadas pela repórter Vera Rosa (a quem não conheço, de quem nada sei).

Ela tem o hábito de contar, em detalhes, acontecimentos que certamente não presenciou, pois narra fatos e diálogos ocorridos reservadamente.

Mas não cita a fonte da informação, narra como se fosse uma escritora do tipo que os professores de linguística chamariam de onisciente.

Um claro exemplo é a matéria “Broncas em público, rotina do Planalto”, publicada na edição de 29/01/2012, narrando duras atitudes da presidente Dilma Rousseff com os ministros.

Destaco os trechos abaixo (não sequenciais), bem representativos do estilo:

“”Seu” Fernando levou bronca até no último dia de trabalho. Na segunda-feira, véspera de desocupar o gabinete em que deu expediente por quase sete anos, ele ficou sabendo que a chefe tinha um ressentimento guardado na geladeira. “Não pense que eu esqueci que o senhor ia direto falar com Lula, viu seu Fernando?”, disse a presidente Dilma Rousseff ao pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. 

[…] 

“Quando a Gleisi ligar para vocês, sou eu que estou ligando. Não adianta vocês tentarem mandar algum projeto direto para mim, sem crivo técnico, porque vou devolver”, avisou. 

[…] 

O recado era para Miriam Belchior, ministra do Planejamento, que vira e mexe é chamada às falas por causa da lentidão do PAC. 

[…] 

Para se precaver, [o ministro Guido Mantega, da Fazenda] envia todo dia para Dilma, por e-mail criptografado, dois boletins com informações sobre o cenário econômico no Brasil e no mundo. 

[…] 

“Você é muito conservador” ou “Se não sabe responder isso, deveria deixar de ser ministro” são expressões usadas com frequência pela presidente. Ela faz críticas duras e fala tudo “na lata”, sem rodeios. 

Para conferir dados e cobrar explicações, Dilma tem mania de pedir ligações urgentes para ministérios, durante as reuniões. “A presidente acha que quem entende do assunto tratado naquela hora nunca está na frente dela”, diz um auxiliar, em tom de ironia.”.

Se a repórter não implantou um chip (ou um microfone) debaixo da pele de Dona Dilma, fica difícil acreditar que tudo isso realmente aconteceu…

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O caso de um comerciante que começou enviando spams criativos, mas depois se tornou um chato, como os outros

A publicidade é a alma do negócio, e a criatividade é a alma da publicidade.

Desviando do caminho das metáforas religiosas, a criatividade é a única chance de sucesso para os spams, as propagandas que os internautas deletam sem abrir, assustados com as histórias sobre os roubos de senhas cometidos por hackers e seus cavalos de Troia.

Mas recebi uma mensagem inteligente, capaz de provocar a atenção do internauta e superar o risco de clicar (mesmo temendo um vírus virtual).

Praticamente uma campanha publicitária: primeiro, veio um e-mail tendo como remetente um singelo e comum prenome feminino (no caso, Larissa). E o assunto: “Essa você tem que saber”.

Apareceu uma mensagem de texto de aparente utilidade pública, sob o titulinho “Cinco informações úteis não divulgadas! Principalmente a QUARTA”.

As três primeiras se referem a cartório eletrônico, auxílio à lista telefônica e documentos roubados; a quarta é de amplo interesse, o direito de o motorista transformar a multa de trânsito em advertência.

A quinta e última foge bastante do tema: dá o link para uma suposta coluna do jornal O Globo sobre uma receita de emagrecimento.

Larissa encerra conclamando o leitor a divulgar a mensagem para os amigos, para “acabar com a indústria da multa”.

Desconfiei da presença discreta, quase disfarçada, do link de uma receita alimentar lançado logo abaixo do tópico mais atraente, e verifiquei qual era o e-mail real da Larissa: depois do arroba aparecia “receita dos famosos”, que seria também o nome da tal coluna.

Confirmado: o serviço de utilidade pública não passava de um despiste para levar o leitor, relaxado, à receita de emagrecimento.

Em ritmo de pesquisa cliquei no link, não sem antes conferir se tinha alguma extensão suspeita (geralmente é o .ru, da Rússia, ou outro país do Leste Europeu).

O site é de um vendedor de produto fitoterápico (à base de ervas); tem alguns logotipos de emissoras de tevê que conduzem, não para a Globo ou a Record, mas para a página de venda.

E não há referência à tal coluna de O Globo.

Contabilizando: usou vários artifícios publicitários mentirosos, típica propaganda enganosa.

Nos dias seguintes recebi outras mensagens idênticas, mas usando outros nomes femininos e sempre com a receitadosfamosos após o arroba. Carlinha foi o mais recente.

Com a repetição, a criatividade desaparece, torna-se inútil; o comerciante usa a troca de nomes para dificultar a localização pelos programas anti-spam, mas irrita o leitor e afugenta o freguês.

Concluo que, ainda assim, a primeira fase da campanha foi planejada com inteligência, mas depois prevaleceu a ambição. E a ética nunca compareceu.

Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável (II)

O ex-jogador Falcão anunciou, em abril de 2011, que estava deixando o ambicionado cargo de comentarista de futebol da Rede Globo para voltar ao seu ramo de origem: assinou um contrato para ser treinador do Internacional de Porto Alegre.

Paulo Roberto Falcão era sinônimo de sucesso e de integração com o clube e com a torcida: foi seu melhor jogador das últimas décadas, famoso até na Europa, e chegou a ser técnico da seleção brasileira.

A mídia saudou o anúncio como uma possibilidade de realização de um trabalho idealista (e incomum) numa atividade conhecida pela falta de planejamento e pelas demissões sumárias; chegou a acreditar que Falcão estava sendo contratado para trabalhar a médio ou longo prazo, sob proteção e confiança dos dirigentes.

Mas o sistema não admite exceções: foi demitido três meses depois, após uma derrota de 3 a zero para o São Paulo. A curta memória esportiva esqueceu que, naquele curto espaço de tempo ele havia conquistado o título de campeão gaúcho.

Ao contrário da ampla maioria dos companheiros de profissão não saiu calado e reclamou dos diretores do clube; talvez por isso tenha terminado o ano desempregado.

Não devia desgostar de trabalhar na televisão, como sugere o longo tempo que lá esteve; ainda assim anunciou que pretende seguir na carreira de treinador.

A demissão dos técnicos a cada pressão maior da torcida é tão rotineira que eles, normalmente pessoas de personalidade forte, reagem tranquilos, sabedores de que o sistema é ainda mais forte que seu temperamento.

O técnico Givanildo, por exemplo, virou um freguês constante de três clubes: Sport Club Recife (inacreditáveis seis vezes), Santa Cruz de Recife (quatro vezes) e América mineiro (três vezes). Basta conferir na Wikipedia, não é chute.

A efemeridade dos técnicos é tão natural e predominante que motivou a ira do comentarista Antero Greco contra aqueles que anunciam projetos reformuladores quando iniciam carreira em um novo clube. Assim ele abriu a sua coluna de 04/09/2011 n’O Estado de São Paulo:

Tem muito lero-lero no futebol. Parece que, sem uma conversa mole, ele perde a essência. A maior é quando chega técnico novo e se fala em projeto, tentativa de tornar solene ato corriqueiro de troca de comando. Dá urticária ouvir esse papo furado, que não passa de teatro mambembe, pois nenhum dos personagens acredita no que se diz. Com exceções, e bota exceção nisso!, a maioria dos ‘professores’ estaciona um tempo no clube e leva um pé nos fundilhos tão logo acumule fileira de maus resultados. É convidado a cantar em outra freguesia, onde invariavelmente será apresentado como ‘o cara’, até cair ali adiante. E a roda-viva segue a girar indefinidamente.

Citou, com uma criatividade que merece a transcrição, a tripla demissão daquela semana na Série A, a principal do futebol brasileiro:

O Atlético-PR perdeu Renato Gaúcho, o Cruzeiro mandou Joel Santana levantar o Fundo de Garantia e o Bahia disse ‘obrigado por tudo, passar bem’ para René Simões.

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Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável

Haverá, no Brasil, algum emprego tão radicalmente contraditório quanto o de técnico de futebol?

Tão bem remunerado e também tão instável?

Ainda em novembro de 2011 Caio Júnior foi o 20º técnico a ser demitido no campeonato brasileiro. E a mídia ainda destacou que em 2010 foi pior: 22.

Poucas atividades representam tão bem a velha dificuldade brasileira de fazer projetos a médio ou longo prazo, pois chegar à terceira temporada (anual) em times das duas primeiras divisões é uma exceção — tão excepcional! — que vira o centro da notícia.

Distorção inimaginável em culturas mais bem sedimentadas; para japoneses, símbolos da estabilidade profissional e, portanto, exemplo ideal para comparações, parece o exotismo do exotismo.

O real motor do sistema é a paixão popular: não pode acelerar demais nem reduzir a ponto de deixar de gerar lucros.

E o técnico é o amortecedor, é o indicado para assumir a culpa do fracasso, é o bode expiatório.

Em civilizações menos emotivas e mais racionais o papel é de quem o contrata, o escolhe: os dirigentes esportivos…

…que, no Brasil, não aceitam a perda do poder, e usam todas as estratégias para transferir a culpa para o time (técnico e jogadores).

Alguns jogadores também são culpabilizados e sacrificados em momentos de fracasso e pressão dos torcedores, mas é o treinador quem geralmente faz este papel.

A passionalização é tão grande que são comuns as pressões até sobre os técnicos dos times que estão liderando torneios, que deveriam estar sendo aplaudidos.

Tite, o técnico do Corinthians em 2011 (campeonato brasileiro) teve a “cabeça” pedida após alguns resultados indesejáveis — mesmo quando estava na disputa da liderança. Foi mantido e acabou campeão.

Qualquer profissão tem as suas características próprias, seu ambiente específico; é um sistema.

E o sistema da profissão de técnico de futebol brasileiro é conhecido: poucas possibilidades de se fazer um trabalho a médio ou longo prazo, demissão quase sempre com menos de um ano de atividade. Sempre sob críticas ferozes da mídia, dos torcedores e dos grupos de oposição na política interna dos clubes.

Mas com salário altíssimo, única opção para atrair profissionais qualificados, previamente conhecedores de que só o receberão por pouco tempo.

Numa atividade com tamanho índice de passionalização as crises são inevitáveis, tornam-se rotina.

O sistema criou um protocolo perfeito para administrar crises e interesses: o técnico é contratado por altíssimo salário, depois é demitido ao primeiro sinal de crise e quase sempre sai sem reclamar dos dirigentes… mas com o bolso recheado.

Especialista propõe uma atualização da Lei de Responsabilidade Fiscal

Um dos atos mais festejados e elogiados do governo Fernando Henrique Cardoso é a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal, oficialmente Lei Complementar nº 101), que entrou em vigor no ano 2000.

Analistas atribuem o seu sucesso à fartura de punições: seus artigos preveem penas efetivas e diferenciadas para uma série de irregularidades realizadas com dinheiro público.

Colunista de economia d’O Estado de São Paulo, Suely Caldas conta a história, a gênese da LRF:

Em 1998, quando pensou em criar uma lei para controlar gastos e punir abusos na gestão pública, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou dois tarimbados funcionários de carreira, velhos conhecedores das malandragens com o uso político do dinheiro público. Dois anos depois os economistas Martus Tavares e José Roberto Afonso deram vida à Lei de Responsabilidade Fiscal – uma bem-sucedida legislação de ação preventiva e focada em coibir endividamentos excessivos e desequilíbrios fiscais decorrentes de gastanças irresponsáveis de presidentes, governadores e prefeitos, quase sempre em favor de seus partidos políticos, campanhas eleitorais e amigos leais. Martus e Afonso mapearam todos os vícios e velhacarias políticas, as brechas que levavam o dinheiro para o ralo – e os puseram na lei.”.

Mas a criatividade brasileira não dá tréguas…

Na sequência, a especialista cita três novas formas de malandragens que se destacaram após a elaboração da LRF: convênios com ONGs, tráfico de influência e distribuição heterogênea de verbas públicas.

Sobre a primeira, escreveu: “Convênios com ONGs de fachada, criadas para receber dinheiro público, têm sido a malandragem mais comum, depois que a Lei Fiscal entrou em vigor. O ex-governador Anthony Garotinho deu a partida e canalizou dinheiro da população fluminense para ONGs amigas. Atrás dele vieram outros. Os ministros do ex-presidente Lula descobriram o filão e foram em frente.”.

E sobre a má distribuição de verbas públicas: “O último [ministro acusado de irregularidades] concentrou em seu Estado, Pernambuco, 90% das verbas de prevenção de desastres naturais e deixou sem tostão furado Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, cruelmente castigados pelas enchentes em 2011 e neste início de 2012.”.

Encerra pregando a edição de uma nova versão da LRF para tirar o governo Dilma Rousseff das notícias que parecem mais policiais do que políticas:

Se verdadeira é a intenção da presidente de dar um basta à corrupção e seguir seu mandato construindo, o caminho que realmente funciona é criar uma segunda e atualizada versão da Lei Fiscal, de efeito preventivo e capaz de barrar o malfeito na origem. A corrupção espalha na população descrença nos governantes e desesperança em relação ao futuro. O País precisa de leis que o protejam e ajudem a recuperar a esperança.”.

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Berlusconi, um Primeiro-Ministro tarado e venerado pelos italianos inconsequentes

Líderes políticos exóticos são comuns nos países do chamado Terceiro Mundo, mas exceção em países evoluídos.

A moderna Itália fez sua concessão ao exotismo através de Silvio Berlusconi, que encerrou (por renúncia) seu terceiro mandato não consecutivo de Primeiro Ministro em 12 de novembro de 2011.

Protagonizou escândalos sexuais, gafes de etiqueta e comentários preconceituosos, mas ficou firme no poder até que a Itália começou a sofrer reflexos da crise econômica europeia.

Teve críticos duríssimos, como o filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais (ex-professor da Universidade de Roma La Sapienza e hoje diretor da revista MicroMega), entrevistado pelo repórter Christian Carvalho Cruz no caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 20/02/2011.

O ataque mais contundente apareceu na resposta à seguinte pergunta: “Pesquisas mostram Berlusconi com 30% de aprovação. Quem são esses 30%?“.

E Paolo d’Arcais atirou forte, pesado: “Os mafiosos, os corruptos, os sonegadores de impostos, os racistas, os amigos dos mafiosos, os amigos dos corruptos e os amigos dos sonegadores de impostos. E ainda muitos outros que se condicionam pelo controle quase totalitário que Berlusconi exerce na TV. Noventa por cento dos italianos não leem jornal. Portanto, nem sequer sabem das coisas que estamos discutindo aqui. Sabem apenas que “Berlusconi é perseguido porque gosta de mulheres”. É essa Itália que elegeu Berlusconi mais de uma vez. E com ajuda de uma centro-esquerda que tem os dirigentes mais estúpidos que já vimos: culturalmente submissos, politicamente tímidos e até corruptos, embora em proporção infinitamente menor do que os políticos berlusconianos.

O entrevistado fez uma terrível lista dos problemas que afetavam a Itália naquele início de 2011: “a crise econômica, os desembarques dos clandestinos tunisianos na costa, o gigantesco desemprego dos jovens, o aumento da desigualdade, o colapso da escola pública e da pesquisa científica, a força crescente da máfia, a ruína do patrimônio artístico e ambiental. Nosso setor industrial mostra sinais graves de crise. Aquela que há um século é a mais importante empresa italiana, a Fiat, está se tornando filial da Chrysler”.

Extraio, ainda, uma análise sobre a influência da Igreja Católica:

OESP – Qual o peso do catolicismo na vida dos italianos? Os ventos conservadores que ajudaram a eleger Berlusconi eram ecos vindos do Vaticano de Bento XVI?

Paolo d’Arcais — A Igreja tem pouco peso para os italianos hoje. Nem os católicos praticantes seguem os ditames do papa, nem na política nem na moral sexual. Mas a Igreja tem um enorme poder no establishment político, financeiro, cultural, econômico, escolar e, por sua vez, ajuda a parte mais atrasada desse establishment. O papa fez alusões genéricas e quase imperceptíveis em relação a Berlusconi. Não o criticou. A Igreja continua a apoiá-lo, porque em troca obtém as leis que lhe vêm a calhar. Afinal, de cada 1.000 que os italianos pagam em impostos, 8 vão para as religiões – na prática, quase tudo para a Igreja. Bispos nomeiam os professores de religião nas escolas públicas. Mesmo as atividades econômicas indiretamente ligadas à Igreja gozam de grandes isenções fiscais, grande parte do sistema hospitalar é controlada pelo poder clerical, também fortíssimo no sistema bancário.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

E abaixo estampo uma foto que correu mundo: Berlusconi aparentemente maravilhado com o corpo da nadadora Federica Pellegrini, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008).

Um especialista em fotografias certamente dirá que uma imagem bidimensional não permite a certeza de que Berlusconi estivesse realmente olhando para a moça e não para algum foco próximo mas, com o passado dele, quem acredita?