Pedestres, ciclistas, motoqueiros e motoristas disputam território nas ruas

Um fenômeno estranho que não perde força no Brasil é a manifestação pública externa, usada com a finalidade de expor para a sociedade um problema específico de um grupo.

O estranho do fenômeno é que, no caso brasileiro, existe uma regra não escrita, mas sempre seguida: a manifestação somente será respeitada pelas autoridades se criar impacto, seja social ou midiático.

E a forma de impacto mais usada é a interrupção do tráfego de automóveis nalguma importante via pública de uma grande cidade, causando prejuízos a muitas pessoas sem vínculo com a questão.

É a mesma lógica — guardadas as proporções — dos terroristas muçulmanos que não se importam em matar outros muçulmanos nos atentados, sob o argumento de que estas vítimas estão ajudando a Causa, ainda que em troca da vida.

Os manifestantes brasileiros aparecem na tevê e nos jornais, e imaginam estar pressionando fortemente as autoridades.

Conseguem, no máximo, medidas paliativas.

Não entendem que as reclamações e pressões feitas diretamente sobre os políticos e administradores públicos, principalmente quando realizadas por grandes grupos ou associações formais, são mais eficientes, mais democráticas e mais racionais.

E menos arriscadas, menos confrontativas.

Os confrontos aparecem quando a polícia chega e se sente ameaçada; e muitas vezes reprime com violência.

Confrontos também acontecem com a parcela da população que se sente prejudicada pelo ato, como aconteceu em Porto Alegre no dia 25/02/2011: um funcionário do Banco Central, Ricardo Neis, de 47 anos, atropelou um grupo de ciclistas, o que resultou em 10 feridos, sendo oito com lesões (segundo matéria do provedor Terra).

Ele alegou ter sido agredido e ameaçado por alguns deles (e a agressividade dos ciclistas foi confirmada pela mídia).

Em artigo publicado n’O Estado de S.Paulo, edição de 06/03/2011, o filósofo José de Souza Martins usou este caso como gancho para analisar a irracional disputa do espaço urbano por pedestres, ciclistas, motoqueiros e motoristas.

O artigo teve o criativo título de Um páreo de cavalos chucros (para acesso ao artigo, CliqueAqui).

Ainda se referindo ao caso de Porto Alegre, ele informou:

Os ciclistas são militantes do movimento internacional Massa Crítica, que em muitos países procura despertar as consciências para a alternativa da bicicleta no transporte urbano. Querem humanizar o trânsito, arrancando os seres humanos de sua insalubre passividade física no deslocamento espacial. É um movimento de jovens.

E criticou: “Os ciclistas têm contra si o fato de que não notificaram a autoridade competente quanto à demonstração que fariam para que recebessem a devida proteção e para que os demais usuários da via pública, com urgências diversas das suas e motivações próprias, não fossem eventualmente prejudicados.

E também contextualizou: “É verdade que não raro os movimentos de rua se apresentam como arrogante forma de peitar os circunstantes e os democraticamente indiferentes.”.

Mudando o foco do caso isolado para o lado sociológico, analisou a disputa do espaço público:

Inúmeras ocorrências semelhantes, em diferentes lugares do Brasil, e mesmo em outros países, já mostraram que o automóvel se tornou um instrumento de afirmação violenta de direitos de seus motoristas, o panzer da blitzkrieg urbana, a arma de afirmação da identidade dos que, nessa modalidade de uso do carro, se revelam instrumentos de seu instrumento, forma extrema e exacerbada da alienação moderna, o homem convertido em coisa de suas coisas. Alienação, também, porque muitos motoristas se imaginam pessoalmente possuídos da força de suas máquinas, supondo-se protegidos por elas quando transgridem e fogem, movidos pelo medo ou pela covardia.

[…]

Criou-se com isso, sobretudo entre nós, uma cultura de absurdos, que se estende muito além do carro, nessa espécie de prerrogativa generalizada dos mais fortes contra os mais fracos. Os motoqueiros, tomados de ira contra os carros, fazem com os pedestres o que os automobilistas fazem contra eles. E mesmo os ciclistas se lixam para os pedestres, pondo-os em risco com seu trânsito desregrado. Nem por isso os pedestres são flores que se cheire: atravessam fora da faixa (até porque sabem que a faixa, no desrespeito geral, é mais perigosa do que a travessia arbitrária e imprudente). E não são raros os que preferem caminhar pelo leito da rua em vez de fazê-lo pela calçada, numa proclamação perigosa de que os pedestres têm direitos absolutos sobre o espaço público.”.

E fecha: “Em tudo, na verdade, uma mentalidade rústica, motoristas, motoqueiros, ciclistas e pedestres movendo-se como se estivessem cavalgando cavalos chucros, todos possuídos por uma concepção ditatorial do espaço e seu uso. Como se cada um tivesse o direito de inventar suas próprias regras de trânsito. São reiteradas as demonstrações de incompetência e insensibilidade para reconhecer o urbano como tecido da diversidade e da pluralidade, que deveria ser o lugar do encontro e não do desencontro.”.

Apesar do tamanho do texto, pouco adequado à leitura por tela de computador, sinto necessidade de acrescentar o meu fecho a esta situação tão irracional.

O homem é um bicho social” e “o limite de um termina onde começa o limite do outro” são conceitos mal aplicados no Brasil.

O respeito ao próximo é bem mais cultuado em sociedades avançadas, o que permite a fácil conclusão de que é uma causa do sucesso delas, das nações em que a vida humana e a organização social são mais valorizadas.

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