Daniel Piza analisa a contradição entre o antiamericanismo e a influência norte-americana no Brasil

Não sei quando começou o antiamericanismo, esse sentimento de antipatia aos Estados Unidos da América que é forte no Brasil e parece existir em todo o planeta.

Mas o percebo desde que ingressei no mundo dos adultos.

E nunca o digeri bem quando surgiu nalguma comparação com o Brasil: nossos problemas certamente são diferentes, e ainda maiores que os deles.

Em bate-papo já tive até a oportunidade de usar uma lógica bem simplista, rasteira mesmo: argumentei que os EUA estão certamente abaixo de algumas nações – como os países escandinavos – em qualidade global de vida, mas o Brasil não pode almejar chegar ao estágio ideal sem passar pelo intermediário.

Precisa ser um Estados Unidos antes de ser uma Suécia.

Na última semana de 2011 eu preparei – para posterior publicação no meu blog – um texto do jornalista Daniel Piza sobre o assunto; no penúltimo dia do ano o autor morreu repentina e precocemente, aos 41 anos.

Não apenas pela pertinência, como também por homenagem, transcrevo abaixo o artigo intitulado “Declínio americano?”, publicado n’O Estado de São Paulo de 28/08/2011 (excluí tão somente o segundo parágrafo para reduzir o post e por entender que fugiu um pouco do tema básico).

A crise econômica dos EUA, afundados em dívidas que há muito se sabe que um dia eles teriam dificuldades para rolar, faz muita gente apontar um declínio breve do ‘império’ e, em consequência, a tentar adivinhar de quem será este século 21, já que o anterior foi americano. Muitos apontam a China – ou a Ásia em geral – e alguns como o presidente Lula, cuja bravata patriótica soava e soa tão parecida com a do regime militar, chegaram a dizer que seria ‘o século brasileiro’. No entanto, observando culturas como a brasileira, me pergunto se a influência americana sequer começou a ceder. Assim como vai demorar para os EUA serem ultrapassados no PIB e no IDH por um mesmo país (a China pode ultrapassar no PIB até 2050, dizem, mas vai precisar de muito mais para fazê-lo no IDH), a força sedutora do ‘american way’ também vai se estender bastante.

[…]

No campo do consumo do chamado ‘entretenimento’, então, nem é preciso listar muitos fatos. A TV por assinatura multiplicou os seriados e programas americanos, seguidos fielmente no mundo todo; Hollywood continua a dar as cartas nas bilheterias globais, com sua usina de celebridades que povoam sites e revistas; cantoras como Beyoncé e rappers como Jay Z dominam os videoclips em TV e You Tube; filmes de HQ em cartaz como Capitão América e Lanterna Verde insinuam a velha ideologia do heroísmo que livra Nova York e outras cidades de vilões com tonalidades nazistas ou comunistas ou terroristas; e até para rirmos das manias americanas, de sua mentalidade consumista, precisamos de um americano como Woody Allen. E o que dizer do admirável mundo novo da tecnologia? Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg estão muito acima da manada forasteira – e que eu saiba a internet fala inglês, não chinês.

Talvez alguém argumente que a cultura americana não perdeu influência em termos de quantidade, de comportamentos massificados, mas em termos de qualidade, de modelos refinados. Por um bom tempo, bebendo na fonte europeia, a cultura americana buscou padrões cada vez mais elevados e produziu escritores como Henry James, Scott Fitzgerald, Saul Bellow (irrelevante que tenha nascido no Canadá); importou cientistas como Einstein e cineastas como Hitchcock; produziu movimentos na pintura, como o expressionismo abstrato, e na música, como o jazz, o bebop e o rock, que mudaram o mundo a fundo; também gerou pensadores, metafísicos ou pragmáticos (de Peirce a Rorty), e espalhou fundações e museus indispensáveis. Nomes e instituições já não surgem como antigamente nos EUA. Mas alguém me diga: e onde surgem?

Sim, também sonho com um mundo mais multipolar, o que significaria uma América menos hegemônica, e, sim, também me canso dessa cultura americana de arte enlatada e mente dicotômica, que com seus apelos emotivos e ‘power points’ afasta muitas pessoas de outros conteúdos e formas de pensamento e estética. Não nego que algumas coisas estejam mudando e que isso seja bom, que os tempos de colonialismo bélico possam estar passando. Mas acho desonesto ignorar a presença ainda tão forte dos produtos e atitudes dos EUA, tantas vezes imitados até por quem diz odiá-los, e confundir uma fase crítica com um fracasso estrutural. Talvez o fato de o século 21 não vir a ter um ‘dono’ seja a melhor notícia, mas, por ora, um deles ainda serão os EUA por um bom tempo. Como diria Mark Twain, os boatos sobre o declínio americano são exagerados.

Para acesso ao inteiro teor do texto, publicado no seu blog (mantido pelo jornal), cliqueaqui. Provavelmente o blog ficará permanentemente no portal do jornal já que Daniel Piza era o seu editor de cultura.

Delis Ortiz narra o caso do motorista cara de pau que criticava os políticos enquanto lesava passageiros

A jornalista Delis Ortiz, depois de duas décadas como principal repórter da TV Globo em Brasília, agora é correspondente em Buenos Aires.

Apareceu um pouco diferente, engordou um tiquinho atraindo minha curiosidade (que sempre se expande através do Google).

Está com 48 anos, duas filhas e dois netos, o que explica a mudança. O tempo é tirano.

E encontrei um texto dela que se encaixa perfeitamente num tema que me é caro: a incrível capacidade que muitos brasileiros possuem em pregar o oposto do que praticam.  Continue lendo »

Luís Fernando Veríssimo, desumano, não quer saber do furúnculo da tia Elvira

O humorista Luís Fernando Veríssimo é famoso por sua timidez e discrição; talvez por isso se irrite com a moderna contaminação dos vícios sociais.

Pela sua coluna dominical d’O Estado de São Paulo se queixou do cigarro do vizinho e das conversas pelo celular, em público e voz alta.

Tão revoltado que não quer saber nada sobre o furúnculo da tia Elvira: se dói, se solta pus, nem onde está localizado (será que é ali?).

Tia Elvira que se dane…

E assim ele fechou a crônica de 28/08/2011:

Fumar em lugar fechado está sendo proibido em todo o mundo para evitar a contaminação do vizinho, que pega fumaça e seus males de segunda mão. Acho que deve-se pensar em obrigar quem tem telefone celular a também ir usá-lo na rua. O objetivo seria nos proteger da contaminação pela vida alheia. Não precisamos saber do furúnculo da tia Elvira. E agora, com os pods e pads que fazem de tudo e informam tudo, há uma nova praga. Gente que no cinema, no meio do filme, liga o troço.

Se ainda fosse para saber como está o índice Bovespa. Mas não, geralmente é para saber da tia Elvira.”.

Pedestres, ciclistas, motoqueiros e motoristas disputam território nas ruas

Um fenômeno estranho que não perde força no Brasil é a manifestação pública externa, usada com a finalidade de expor para a sociedade um problema específico de um grupo.

O estranho do fenômeno é que, no caso brasileiro, existe uma regra não escrita, mas sempre seguida: a manifestação somente será respeitada pelas autoridades se criar impacto, seja social ou midiático.

E a forma de impacto mais usada é a interrupção do tráfego de automóveis nalguma importante via pública de uma grande cidade, causando prejuízos a muitas pessoas sem vínculo com a questão.

É a mesma lógica — guardadas as proporções — dos terroristas muçulmanos que não se importam em matar outros muçulmanos nos atentados, sob o argumento de que estas vítimas estão ajudando a Causa, ainda que em troca da vida. Continue lendo »

Filósofo pessimista afirma que o povo brasileiro usa o direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais

Um dos comportamentos sociais brasileiros que mais me deprimem é o saque, realizado por grupos não organizados da população, que se apropriam de produtos que parecem não possuir um proprietário claro.

O tipo mais comum é a espoliação da carga de caminhões acidentados, antes que a polícia ou o dono da mercadoria chegue.

Se o produto é perecível, a alegação, a explicação-desculpa, é que ele se perderá mesmo; quando não é o caso, os autores diluem a culpa alegando que foi um ato coletivo, e que apenas fizeram “o que todo mundo está fazendo”.

“Não tem dono mesmo” ou “vamos pegar antes que outros peguem” são outras desculpas, os disfarces para o roubo perpetrado por ladrões não profissionais, não assumidos.

No artigo O direito do abutre, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o sociólogo José de Souza Martins não amacia as palavras:

A rapina de cargas de veículos acidentados é outra modalidade de sebaça, multidões repentinas carregando o que podem. Não se trata de ladrões profissionais. Trata-se de algo pior: da prontidão de pessoas comuns, que nunca sairiam de casa para assaltar alguém, mas o fazem simplesmente porque a oportunidade se apresenta.”.

Outra ilegalidade comum no Brasil é o desvio de doações destinadas às vítimas das grandes tragédias, como as inundações sazonais de todo início de ano.

A desculpa inventada pelos ladrões — usada para se autoenganarem — é assemelhada: enquanto não estiver oficialmente entregue ao flagelado o produto está sem dono.

Martins ainda inclui no grupo “o saque do que restava das casas das vítimas, com gente até se oferecendo como voluntária para ajudar apenas para ter a oportunidade de saquear” e “os oportunistas que oferecem água à venda por preços multiplicados e casas para alugar pelo dobro do preço de mercado”.

E vê raízes tanto históricas quanto primitivas:

Essa prática tem entre nós raízes culturais profundas. Herdamos da Europa medieval o direito à sebaça, ao saque dos bens dos vencidos. Na história social e política brasileira temos vários episódios e ocorrências desse tipo nas chamadas lutas de famílias. O caso mais emblemático, ocorrido em Dianópolis, no norte do antigo Estado de Goiás, virou enredo de obra clássica da literatura, O Tronco, de Bernardo Élis. Também no cangaço, a sebaça se propunha como um direito do vencedor sobre o vencido.”.

E assim fecha o pessimista ensaio, motivado pelos eventos posteriores à grande tragédia de janeiro de 2011, que foi a inundação da região serrana do Rio de Janeiro:

Em outras sociedades, essas formas primitivas de direito foram banidas e superadas pelas revoluções sociais e políticas. Aqui, historicamente as coisas foram diversas. A superficialidade das mudanças sociais sempre facilitou a agregação do direito velho ao direito novo, traço profundo da nossa cultura política da conciliação. Os saques e a especulação econômica contra as vítimas sobreviventes do desastre ambiental na região serrana do Rio de Janeiro nos mostra a vitalidade entre nós do direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais.”.

Para acessar o inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Cavalo e cavaleiro (jóquei) em disputa pelo poder

Quem domina, o grande ou o pequeno? Parece que, neste caso, o controle está nas mãos do jóquei Vágner Borges, jovem revelação das corridas do Hipódromo da Gávea. A potranca Super Tóta, de três anos, reage contra as rédeas controladas por quem tem pouco mais do que 10% do seu peso. Mas vai ceder.

Foto de Márcio de Ávila Rodrigues (jóquei Vágner Borges, Hipódromo da Gávea)

Uma análise humanista de Daniel Piza: “Quem não tem sucesso profissional ou financeiro é tachado de perdedor, como se felicidade se medisse em salário”

Na sequência de minha pessoal homenagem ao jornalista Daniel Piza, precocemente falecido em 30/12/11, aos 41 anos, transcrevo abaixo um seu comentário sobre as pessoas que superestimam o sucesso profissional, que fazem deste o objetivo único da vida.

Um exemplo bastante claro está no uso cada vez maior, em ruas e telenovelas, de adjetivos como ‘popular’ e ‘loser’. Ou seja, uma pessoa que chama atenção dos outros por sua aparência física ou habilidade esportiva e se dá bem com a maioria das outras ganha agora esse qualificativo, como se tais atributos fossem mais importantes num ser humano do que caráter e inteligência. E quem não tem sucesso profissional ou financeiro é tachado de perdedor, como se felicidade se medisse em salário, como se status substituísse vocação; cada vez soa mais estranho que alguém opte por uma carreira mais por gosto do que por retorno. Isso sem entrar em outro adjetivo corrente, ‘workaholic’, para designar os que acham que vidas familiar e cultural são secundárias, até que se veem tomando pílulas com Coca-Cola para aguentar o estresse.

O texto foi pinçado de sua coluna, publicada n’O Estado de São Paulo de 28/08/2011, que analisa a falácia sobre o “declínio americano”.

E reflete uma lição vinda de quem sabia observar, analisar e orientar.

Seus leitores mereciam que ele tivesse mais tempo de vida para produzir e criar mais, mas tal decisão é da competência de outras esferas.