Pedro Nava analisa, belamente, a incoerência no uso de palavras obscenas

“Palavras obscenas”, “nomes feios”, são conceitos temporais; ofendem as pessoas de uma época, mas podem ser ouvidos com naturalidade em outra.

Algumas palavras que já foram classificadas como obscenas mudaram de sentido ou geraram, por derivação, novos vocábulos que perderam o vínculo com a origem e saem de todas as bocas sem preconceitos.

E também geram incoerências, como magistralmente observou o escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984), considerado o pai da memorialística, que abordou a questão no segundo dos seis livros que se tornaram símbolo do próprio gênero literário.

O livro é Balão Cativo, o segundo da série, e se concentra na sua infância e adolescência; a questão em análise foi comentada na página 330 da edição datada de 2000, da Ateliê Editorial (ele terminou de escrever o original em 1973).

Retiro o seguinte trecho da obra:

Insuportáveis e grotescas são as incoerências atuais. Por exemplo: por quê? censurar os filmes e proibir ou permitir entrada nos cinemas até 12 anos, até 18 ou não sei que mais se os meninos e meninas de menos de 12 veem, nos seus cursos primários, slides de educação sexual onde se apreciam os genitais adultos, sua correlação no coito e as posições adequadas para o exercício deste. E quando saem do normal e verberam o anormal é para apresentar variações que funcionam como a antevisão de possibilidades. E que possibilidades! Por quê? se falamos a mesma língua, podemos dizer cu diante de senhoras portuguesas mas somos obrigados a traduzi-lo mal mal por bunda (e assim mesmo olhe lá!) diante de damas brasileiras. A propósito do cu: por quê? é proibido pronunciar o nome dessa parte e arquiautorizado falar ou até gritar: recuar, acuar, cuada, culatra e culatrona. Por quê? dizer francamente cabelo, que é pelo da cabeça, com reservas axelho que é o dito do sovaco e de modo algum pentelho, que é sempre a mesmíssima função capilar, só que nascida no pente. Por que é? já que tocamos em pentelho, que um escritor querendo ser protocolar não pode, mas não pode mesmo, escrever as oito letras da palavra e qualquer escultor pode esculpi-los sem ofender a moralidade, estilizando-os em chama de fogueira ou abrindo-os ao meio como Miguel Ângelo, no David e no Cristo Ressurrecto (Cristo, sim senhores! o de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma). Ou pintor, pintá-los com todos os seus fios e de fio a pavio. E por que razão eu posso, sem ofuscar ninguém, falar e escrever pente de tartaruga, boceta de rapé, grelo de chuchu e passo a ser um canalha, um inacadêmico, um pornógrafo só com o suprimir a tartaruga, o rapé, o chuchu.

Além de discutir a contraditória obscenidade de palavras, o genial Pedro Nava, duas páginas antes, analisa o sentido obsceno oculto (psicanálise pura!) que é sugerido pelos elementos menores, as letras.

Transcrevo o pequeno e interessante trecho:

E as letras? as indecentes letras! o descomposto A de pernas abertas; o erecto I; o fingido Y se encolhendo como quem não quer; o V vulvar; o O ultra-anal. E a indignidade dos ditongos?, das semivogais? se apanhando ora pela frente, ora por trás – more bestiarum… E no fundo todos se regalam.

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