O stress é epidêmico e São Paulo, mas o paulista não consegue se desligar das raízes

Há não muitos anos atrás, bem recentemente aliás, eu estava tentando atravessar uma daquelas ruas com nome de alameda que desembocam na avenida Rebouças, em São Paulo…

Era um dia de semana, de manhã, horário de grande movimento.

Uma motorista estava parada na alameda, tentando entrar na Rebouças, esperando um buraco na monstruosa fila que subia; a motorista do carro de trás, impaciente com a suposta demora, disparou a buzina, reclamou, gritou e acelerou até ficar a pouquíssimos centímetros do para-choque traseiro.

A pressionada motorista da frente forçou uma perigosa passagem na fila da Rebouças, e eu memorizei a cena como um perfeito exemplo do stress que domina o povo paulistano.

Em outra oportunidade eu estava passando, numa manhã de domingo, pela feira hippie da Praça da República — agora transferida de local — quando resolvi fotografar uma decoração em exposição numa banca, mas o vendedor (um descendente direto e próximo de japoneses) me proibiu a foto aos berros, quase partindo para os insultos.

O lugar público não inibiu a descontrolada e declarada intenção de impedir possíveis cópias de suas ideias, a cultura de calma e tranquilidade de seus ancestrais foi tragada pelo stress gerado pela complicada rotina paulistana.

Não há como colocar em dúvida o que São Paulo tem de bom: seu rico mercado de trabalho, suas múltiplas opções de lazer.

Mas é notório o stress causado pelo longo tempo perdido no transporte, pela pressão dos custos de todos os serviços, pela insegurança pública.

Tenho observado, ao longo de anos, que mudar-se para uma cidade mais calma é um sonho acalentado por um percentual expressivo dos paulistanos, mas só alcançado por pouquíssimos.

Um exemplo emblemático aconteceu com uma pequena família (casal de pais, casal de filhos) que comprou um apartamento em Belo Horizonte (meus vizinhos), decidida a fixar novas raízes; não demorou a vender o imóvel e retornar, pressionada por novas exigências da empresa para a qual o marido trabalhava e pelo envelhecimento quase solitário dos pais da esposa.

Emblemático porque reúne os dois principais obstáculos à decisão de deixar São Paulo (e que também valem para qualquer pessoa, de qualquer lugar): trabalho e raízes familiares.

O trabalho é o óbvio provedor da sobrevivência; e o afastamento do local de origem cria tensões, remorsos e dificulta os compromissos indissolúveis criados pelos laços e raízes.

As pesquisas formais também comprovam a insatisfação do povo paulista/paulistano e o desejo da fuga.

Segundo matéria publicada no site UOL Notícias em 19/01/2010, “um estudo encomendado pelo Movimento Nossa São Paulo ao Ibope (…) aponta que 57% dos habitantes mudariam de município se pudessem”.

O empresário Oded Grajew, contumaz frequentador da mídia, membro da secretaria executiva daquela entidade-movimento e um dos responsáveis pela pesquisa, opinou que “a sobrecarga na infraestrutura, a preferência pelo transporte individual e o abandono dos pobres agravam a sensação de caos urbano. ‘É um lugar com dois rios enormes e sujos, uma poluição tremenda e uma baita insegurança. Quem quer viver assim?’, questiona”.

Na matéria do UOL Notícias não encontrei dados sobre o percentual de paulistanos que conseguiram mudar-se da cidade, em definitivo, com o objetivo de alcançar uma vida mais tranquila, mas certamente é um número pequeno.

Pelos motivos citados e por outros mais é insignificante o número de pessoas que conseguem trilhar os seus próprios caminhos, fugindo de uma condição negativa, até mesmo desumana.

Estão aí as cidades superpopulosas para comprovar, através do stress urbano. E pior: com seus guetos, suas favelas, sua miséria, violência e doenças.

Para acesso ao inteiro teor do texto, CliqueAqui.

Edifício Mirante do Vale, SP;

 A foto acima estampa o Mirante do Vale, o mais alto prédio de São Paulo e do Brasil. Situado no Vale do Anhangabaú, ele tem (Wikipedia) 170 metros de altura, 51 andares e foi inaugurado em 1960.

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