Sites de informação sobre blitz de trânsito ajudam bêbados e até criminosos

Eu soube, bem recentemente, que já existe um site no Twitter com a finalidade de avisar os usuários sobre locais de blitze policiais de trânsito em Belo Horizonte.

Disfarçam a má intenção com o lema “Este twitter tem o objetivo de ser um facilitador aos motoristas de BH. Informamos em tempo real sobre: blitz, trânsito, acidente, chuva, alagão, apagão, etc.”…

… mas deixam escapar o objetivo preferencial no próprio título, que é BlitzBH.

Os motoristas bêbados, os irresponsáveis e também os distraídos que esqueceram documentos em casa agradecem.

Mas a sociedade não se beneficia; ao contrário, a comunicação pode levar a um aumento dos já elevados índices de acidentes, atropelamentos, abalroamentos.

Não é novidade esta solidariedade negativa, invertida, entre motoristas, como se o Poder Público fosse o inimigo a ser enfrentado.

Antes da difusão das mensagens eletrônicas tal comportamento já acontecia através da via analógica: na minha juventude, a única opção para alertar sobre a existência de blitz à frente eram toques repetidos de farol.

Era uma comunicação tão rudimentar que podia significar qualquer coisa; e muitas vezes era apenas molecagem, como se o autor dissesse: “só quero te preocupar, te encher o saco, seu trouxa!”.

Voltando às consequências do ato: os mesmos solidários d’antes e d’agora não conseguem entender esta relação causa-efeito, e centram a responsabilidade no governo (polícia, Detrans), criticado pela ineficiência na prevenção de acidentes e atropelamentos.

Só entendem — e nem sempre! — quando a vítima está no seio da própria família.

Em tese, é possível que algum motorista irresponsável, avisado pelo Twitter, escape de uma blitz e minutos depois atropele e mate a mãe de quem postou a informação.

Obviamente, em cidades grandes e superpopulosas como as do mundo moderno, esta coincidência é improvável, mas a vítima poderá ser a mãe de outra pessoa; enfim, haverá sempre vítimas inocentes.

Alguns defensores da solidariedade antiblitz se escudam em erros reais do Poder Público (como os casos de abordagem policial truculenta ou a dureza excessiva da legislação sobre o alcoolismo, cujo índice permitido é, praticamente, zero).

Mas um erro não justifica o outro, e quando se vive em sociedade atos individuais podem gerar consequências coletivas.

O jornalista mineiro Benny Cohen lembra, num texto que redigiu no seu blog em 12/05/11, que os criminosos reais também são favorecidos: “sabendo onde está a blitz, graças à rápida comunicação feita pelos seguidores do Twitter, infratores de trânsito e bandidos podem evitar ruas e avenidas onde seriam surpreendidos pela Polícia e escapar impunes por rotas alternativas”.

E informa que a “a inspiração deve ter vindo do Rio de Janeiro, onde perfil parecido já existia”; cita a absurda justificativa do @leisecaRJ para a criação de sua página: “blitz de lei seca no Rio de Janeiro, que tanto atrapalham o trânsito e ferem nosso direito de ir e vir”.

Nosso direito de ir e vir”: será que o autor consegue entender que esta referência altamente generalizante inclui, pela primeira pessoa do plural, os causadores de acidentes ou batidas, atropeladores e até mesmo foragidos da Justiça?

Ainda assim, inspirou o BlitzBH, comprovando que, para imitar coisa errada, o brasileiro é rápido…

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