O sonho de uma empregada doméstica eficiente, barata e discreta chega ao robô da família Jetson

A minha geração se encantou, nos anos 1960/70, com os desenhos animados criados pela eficiente dupla de desenhistas-empresários William Hanna (1910-2001) e Joseph Barbera (1911-2006).

Entre as incontáveis criações estavam duas famílias distanciadas por milênios dos tempos atuais, no passado (Flintstone) e no futuro (Jetson).

Os Flintstones viviam na Idade da Pedra: o pai Fred, a mãe Vilma e a filha Pedrita. Como coadjuvantes, havia a família de vizinhos-amigos: o pai Barney, a mãe Beth e o filho Bambam, o menino-malhação.

Segundo o padrão comportamental-familiar que a geração hippie tentou mudar nos anos 60 mas apenas atenuou, cabia a Vilma e Beth as tarefas domésticas.

Já a família Jetson vivia no ano 3000, morava em um prédio que parecia uma nave espacial presa por um tronco, tinha um carro voador e era composta por um casal, uma filha adolescente, um filho-menino, um cachorro e uma empregada-robô, a Rose.

Rose é o sonho de consumo das famílias modernas: eficiente (seus sensores garantiam a descoberta de qualquer poeirinha oculta e seu software controlava todas as atividades domésticas e ainda produzia bons pratos na cozinha) …

… e barata: só comia velhos parafusos, dispensava salário e obrigações trabalhistas, morava na casa da família sem incomodar jamais. E nem roncava.

Além de tudo isso, discreta: a ausência de um cérebro humano garantia a também ausência de uma influência passada de familiares, de vizinhos, de quaisquer vestígios de pobreza e violência.

Até meados do século 20, o padrão da família brasileira era um casal que se unia na juventude (e, por isso mesmo, costumava comemorar outras bodas além da de ouro), muitos filhos e uma empregada que fazia as funções de babá, ama-seca e governanta.

Esta geralmente era uma menina pobre, recrutada na cidade de origem da família, e que passava a fazer parte dela; as que se casavam eram substituídas por outras de origem semelhante.

Tudo mudou agora, pois nenhum outro momento da história da civilização humana experimentou tantas e tão rápidas mudanças, não só as tecnológicas quanto as comportamentais, áreas, no fundo, indissociáveis.

A população cresceu rápido demais, impulsionada pela pílula anticoncepcional, pelo exame pré-natal e pelos antibióticos que reduziram a mortalidade em todas as faixas etárias; em consequência, os núcleos familiares se apequenaram e as moradias também, sobrando pouco espaço para as empregadas, ainda necessárias.

E a antiga agregada-recrutada, que dividia com os patrões-padrinhos as mesmas lembranças do rincão de origem, foi substituída por mulheres sem vínculos pessoais, e com elas os patrões mantêm uma relação dúbia de fingida tolerância, de vigia constante (até com câmeras), fechando os olhos aos inevitáveis roubos (“É o preço que se paga!”); e também de um medo constante de supostos amantes ou parentes marginais delas, além da preocupação com a Justiça do Trabalho.

E as novas famílias seguem sonhando encontrar uma empregada à antiga, alguém que só tenha sorrisos, carinhosa com as crianças, coma só o alimento previamente destinado, e que não traga conturbações do passado ou da família.

De preferência, alguém bem semelhante à autômata Rose Jetson.

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