Bom senso e experiência – além de sorte – são necessários na escolha de médicos, de advogados e prestadores de serviços

Lá pelos longínquos anos 70, em minha juventude, meu nariz sofria com óculos pesados, necessários para compensar a miopia.

Pouco experiente da vida, acreditei que o preço seria um bom critério para conseguir melhores produtos, e fui induzido por uma ótica (loja) a comprar um óculos de aro metálico.

Foi o pior de todos, cheguei a usar curativos tipo bandaid todos os dias para amortecer a pressão sobre a pele.

Mais à frente, ainda na juventude, precisei muito dos médicos por causa de alguns — felizmente superados — problemas de intestino e coluna vertebral, e imaginei ter descoberto um bom parâmetro para qualificar a capacidade profissional deles: a receita extensa.

Mas depois ingressei, como aluno, na Escola de Veterinária da UFMG, e a união de conhecimento e treinamento me ensinou que qualquer terapêutica deve ser feita com o mínimo necessário de remédios capazes de conduzir à cura.

E a mesma a soma de conhecimento e treinamento me ajudou a desmascarar uma técnica (ou artificio) usada para cativar clientes: a segurança aparente e a resposta rápida, precisa, sem titubear.

Que também é usada com frequência — e sem o propósito malicioso — pelo profissional de competência real, coincidência que confunde o cliente, que não consegue separar aparência e eficiência.

Depois de anos sem contato, reencontrei recentemente um ex-colega que era usuário contumaz do artificio: inquirido sobre algum problema de saúde animal, tinha sempre alguma resposta na ponta da língua.

Mesmo quando ele não dominava a questão, a postura era de segurança, mas a resposta podia ser a primeira suposição que lhe acudia ao cérebro. Um chute no escuro.

Partia do pressuposto de que dificilmente o cliente perceberia, por falta de domínio do assunto; sabia e sabe que a segurança encanta e engana.

É um comportamento comum na sociedade, frequente entre prestadores de pequenos serviços: eletricistas, eletrotécnicos, bombeiros, pedreiros.

E também entre profissionais de qualificação mais elevada, como advogados e consultores em geral.

Conhecer números e detalhes do vasto emaranhado de leis brasileiras não é uma obrigação dos advogados; os livros e, agora, a internet é que possuem esta função.

O que eles precisam é saber interpretar e utilizar.

Mas os mais espertos sabem que a segurança e a resposta rápida representam um diferencial, e os menos escrupulosos usam a técnica como artificio.

Quando respondem corretamente, estão usando a técnica; quando erram o chute, estão usando o artificio.

Rendem munição para as velhas teorias sociológicas sobre a desanimante persistência da malandragem brasileira, do jeitinho nacional.

(Um par de parênteses: o corretor do Word me avisa que a palavra desanimante não existe. Mas as regras do neologismo me permitem o seu uso. Sigo para o fecho.) 

Na sequência de experiências fui percebendo que não existem critérios eficientes para escolher profissionais; a experiência e o bom senso são os instrumentos possíveis para diminuir o índice de erros.

Quem acerta todas as escolhas é mentiroso.

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