Decepções com a espécie humana: para cada pessoa solidária existem incontáveis brutos e agressivos

Num mesmo único dia, lá pelos anos 80, conheci duas pessoas diametralmente diferentes: um homem solidário e outro agressivo.

O primeiro foi na barragem da Pampulha, em Belo Horizonte: meu carro Fiat 147 estragou na única passagem então existente daquela região da capital mineira, e um solidário com conhecimentos de mecânica parou para me ajudar.

Merece até uma citação um pouco mais aprofundada: chamava-se Zé Rosa e era mecânico de aviões. Seu prazer, seu barato, era parar para ajudar motoristas em dificuldade.

Sob o banco traseiro de seu carro, também um Fiat 147, carregava ferramentas e peças de emergência, além de uma corda que usou para me rebocar até a avenida Antônio Carlos (desengarrafando o trânsito de toda a região, problema que eu era o involuntário causador).

Com um pedaço de arame fez uma ponte para garantir o funcionamento provisório do platinado — peça em extinção, parte do também antiquado distribuidor — e ainda me escoltou até o centro da cidade.

Quando me liberou, ainda recusou a gorjeta oferecida e deixou a incomum história na minha memória.

Na época eu trabalhava — era um colaborador remunerado — para a sucursal (filial) do jornal O Globo em Belo Horizonte, e estava levando os resultados da reunião turfística daquele sábado no Hipódromo Serra Verde para publicação.

Com o incidente, cheguei atrasado e tive a única discussão — em muitos anos — com o meu falecido colega e amigo Pedro Pimentel, que estava de plantão pois era o telexista: carreira, hoje extinta, de operador do também extinto telex, precursor da correspondência eletrônica.

Na mesma noite viajei para o Rio de Janeiro, e na procura de um táxi que me levasse à rodoviária tropecei no outro lado da moeda: um motorista que ficou esbravejando, descontrolado, apenas porque fiz um leve sinal de desagrado — o chamado muxoxo — por ele ter atrapalhado minha passagem.

O tal muxoxo foi consequência da tensão e correria para chegar na rodoviária antes da partida do ônibus, e realmente não passou de um movimento labial com um som inexpressivo, não justificando qualquer reação hostil.

Antípoda do Zé Rosa, o tal motorista certamente dirigia pelas ruas procurando motivo e adversário para uma boa briga, para extravasar sentimentos opostos aos daquele benfeitor único ou, no mínimo, raro.

Pela vida afora conheci muitas outras pessoas agressivas, violentas, fartas de instinto brutal.

Um dos mais recentes foi o funcionário de um estacionamento de Belo Horizonte, que reclamou aos gritos do singelo fato de eu ter manobrado o carro de frente, e não de ré, para ocupar uma vaga.

Tais exemplos pessoais são insignificantes se comparados com a profusão de notícias que a mídia publica diariamente a respeito de brigas e discussões, por motivos fúteis, que resultaram em agressões e homicídios.

A psicologia da sobrevivência frente a tais alucinados é o autocontrole, seguido por uma reação diversa da ação, como tentativa de desconcertá-lo, de quebrar a sequência do evento psicopatológico.

Além de uma razoável habilidade, e da sorte de não estar diante de um caso irreparável.

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