O fenômeno dos boatos sobre personalidades que se espalham na sociedade e na internet

A partir da divulgação do diagnóstico de um câncer (linfoma), anunciado em 10/08/11, o ator Reynaldo Gianecchini deve ficar algum tempo livre da boataria popular sobre a sua suposta homossexualidade.

Ou, pelo menos, a suposição será brandida de forma mais amena, misturada a expressões de piedade.

É impressionante como certos boatos sobre personalidades conhecidas se espalham, adquirem ares de verdade indiscutível e permanecem anos a fio grudados na sua vítima.

Contados e recontados com um grau de certeza que inibem a reação das pessoas objetivas e dos céticos; invertendo a lógica, estes é que acabam sendo as personalidades estranhas na história, os que “teimosamente duvidam do que todos sabem”.

Os oito anos de casamento com a jornalista/cantora/atriz Marília Gabriela não foram suficientes para impedir a propagação do boato; em outra inversão da lógica, até incentivou a surrealista explicação — saída da boca de gente que, no máximo, os viu no aeroporto ou no palco — de que seria uma farsa para encobrir um relacionamento homossexual entre ele e um dos filhos dela.

Psicanalistas provavelmente diriam que a origem estaria na inveja masculina da atração que o ator exerce sobre as mulheres.

E completariam dizendo que o sexo ainda é tabu, e por isso gera preconceito e conservadorismo.

O ex-presidente da república Itamar Franco levou para o túmulo um preconceito semelhante, um suposto homossexualismo que a discrição da vida familiar só ajudou a espalhar; aparentemente, a boataria apareceu em 1986, na dura disputa eleitoral com o concorrente Newton Cardoso.

No caminho de meu trabalho eu passei, por anos, em frente a uma pichação de um muro que trazia a inscrição “Itamar Franga”.

Itamar Franco foi casado com Ana Elisa Surerus, com quem teve duas filhas, Georgiana e Fabiana; já separado, a mídia relatou casos de namoro dele, que os adoradores de boatos alegavam serem golpes de marketing para disfarçar o suposto fato concreto.

Na mesma campanha, o então candidato a deputado federal, Hélio Costa, acusou Newton Cardoso de “estuprador”, lendo um vasto dossiê frente às câmaras de televisão; a acusação não parece ter influenciado eleitores, o que levou palpiteiros em psicologia a citar raízes antropológicas para argumentar que estupro é um ato de força e o homossexualismo passivo é um ato de fraqueza.

Em 1998 circulou por todo o Brasil um boato de que o músico Orlando Morais havia tido um caso amoroso com a enteada de 15 anos, que hoje é a famosa atriz Cléo Pires, filha da esposa e atriz Glória Pires.

Nenhum dos três fala sobre o assunto, foi a posição adotada para enterrar tamanho fenômeno de comunicação popular.

Nos casos lembrados acima, o sexo é sempre o tema recorrente, o centro do imaginário popular, reciclando as ideias freudianas sobre sua importância no comportamento humano.

E outros casos, não citados nesta curta relação, garantem que a fenomenologia do boato tem uma temática variada, e se enraíza no elevado percentual de pessoas imaturas, ou incultas, ou imaginosas, ou carentes, ou subjetivas.

Ou, até mesmo, psicóticas.

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