A tolerância não é compatível com a formação de um país moderno, humanista e seguro (como nos casos Palocci e Battisti)

Por volta do ano 2000 eu era diretor de corridas do Hipódromo Serra Verde, em Belo Horizonte, e tive que julgar (presidia uma comissão de três membros) o caso de um jovem jóquei que agredira outro com uma chicotada durante uma discussão.

A formação cultural brasileira falou mais alto: optei por admoestar duramente o agressor e não aplicar uma punição mais dura, certo de que ele entenderia o aspecto educativo.

Algum tempo depois ele discutiu com um treinador de cavalos e também usou o chicote contra ele.

Caí na real: a falta de uma punição efetiva no primeiro acontecimento foi interpretada pelo jovem como tolerância e frouxidão, foi seu alvará para a repetição.

Propus, e obtive do pequeno grupo de julgadores, uma suspensão — que desta vez foi pesada —, e o jovem chicoteador nunca mais se envolveu em outra irregularidade semelhante lá dentro.

Sei, obviamente, que foi um exemplo radical de recuperação absoluta, mas ainda que o infrator tivesse continuado a errar, sua punição seria educativa para os colegas de profissão.

O povo brasileiro não pensa assim, e defende o valor do perdão e da tolerância embora, muitas vezes, caia em contradição ao afirmar que é contra a Instituição da Impunidade.

Não avalia, com frieza, causas e consequências.

Sociólogos e historiadores dizem que este comportamento é uma herança católica, ou portuguesa, ou fruto de uma cultura terceiro-mundista, ou “espírito de colonizado”, ou tudo isso junto.

Dois acontecimentos públicos bem recentes me remeteram ao caso do jóquei que repetiu o erro quando o limite afrouxou.

Um foi o do ex-terrorista italiano Cesare Battisti, múltiplo assassino que o ex-presidente Lula perdoou, certamente por causa da semelhança do histórico de ativista político (do beneficiado) com vários companheiros do PT. Um exemplo extremado de impunidade.

O outro foi o do agora ex-ministro Palocci; eterno fênix que ressurge das crises, ele só obtém as novas oportunidades porque não é punido e espera o tempo necessário para cada caso ser alcançado pelo arquivo da memória pública.

Politicamente, Palocci foi derrubado por uma reportagem da revista Veja (junho de 2011) que descobriu que ele mora num apartamento alugado, avaliado em quatro milhões de reais, oficialmente de propriedade da empresa Lion Franquia e Participações Ltda.

Dayvini Costa Nunes, dono de 99,5% da Lion, é “um laranja de 23 anos, que mora em um casebre de fundos na periferia de Mauá, no ABC paulista, ganha R$ 700 por mês”, segundo o colunista da Veja, Reinaldo Azevedo.

Perante as leis brasileiras, a anomalia é ilegal, tanto por parte de quem possuía um alto cargo público (Palocci) quanto de quem assinou documentos com falsidades flagrantes (o jovem laranja).

Dificilmente Dayvini será investigado e processado: na nossa cultura prevalece a piedade com os pobres, humildes e explorados.

Já os povos mais adiantados não perdoam os laranjas: a punição tem valor educativo, ensinando ao povo que toda transgressão às leis traz consequências penais para o autor.

Tolerância zero certamente é marketing, mas o inverso, a tolerância elevada, não é compatível com a organização social necessária para a formação de um país moderno, humanista e seguro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: