“Os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral” – defesa de João Ubaldo Ribeiro

Confesso que ainda não arrumei tempo disponível para ler Sargento Getúlio, ou O Sorriso do Lagarto, ou Viva o Povo Brasileiro, ou qualquer outro livro do escritor João Ubaldo Ribeiro.

Mas já virei um leitor regular de suas crônicas publicadas no Estadão, todo domingo, admirador de sua pena irônica e de quem escreve como se estivesse conversando agradável e inteligentemente com uma plateia.

“Vivendo de brisa” foi o título da crônica de 20/03/2011, enfocada na possibilidade de o direito autoral ser sufocado pelas novas tecnologias.

Começa falando sobre a vida de subserviência e até penúria de grandes criadores do passado, como Balzac, Dickens, Dostoievski, Mozart, Bach e Shakespeare.

Cita a evolução obtida pela criação do direito autoral, e depois lamenta a atual conjuntura, a pirataria gerada pela internet; sobre esta questão bem presente, destaco estes trechos não sequenciais:

Mas os novos tempos aparentemente querem trazer a eliminação do direito autoral, ou impor-lhe severas restrições. Há muito que meus livros, incluindo versões em áudio abomináveis, estão disponíveis em dezenas de sites da internet, sem que eu seja nem comunicado, quanto mais pago. Agora também sei que títulos meus estão sendo baixados em leitores eletrônicos, outra vez sem que nem eu nem meus editores tenhamos sido consultados.

Li uma entrevista com um desses gênios da informática em que hoje o mundo abunda, na qual ele previu não somente o inexorável fim do livro impresso como a abolição dos direitos de autor.

Não chegou ao ponto de outro, sobre cujas ideias também li não lembro onde, que recomendou que, com suas obras à disposição de graça, os escritores façam voto de pobreza como os franciscanos, ou arranjem, vendendo a alma ao demo como possam, um mecenato que os sustente.

Se me for permitido dividir sua crônica em partes, a seguinte é da ironia:

Estou pensando em reagir aproveitando minha condição de baiano e montar uns shows casadinhos. Não conheço Daniela Mercury, Ivete Sangalo ou Margareth Menezes pessoalmente, mas tenho a esperança de que, com jeito, elas aceitem encaixar um número meu em seus shows, na base do ‘ajuda teu irmão’.

Pode ser que se esteja pensando também numa forma de remunerar o escritor que não dependa de vendas. O governo faz uma seleção dos nomes qualificados para receber algum pagamento e dá a eles, por exemplo, uma bolsa romance. Mas receio que para conseguir essa bolsa, ou qualquer outro estipêndio do Estado, será necessário arrumar um pistolão. Ou entrar para um partido político que disponha de cotas da bolsa, como parte do tudo a que tem direito por aderir ao governo. Ou talvez seja melhor a realização de concursos públicos. Quem quiser ganhar alguma coisa como escritor será obrigado a fazer uma espécie de vestibular e os aprovados terão direito a uma carteirinha e a receber dois salários mínimos por mês para seu sustento, além de uma eventual bolsa romance, bolsa poema ou bolsa ensaio.

E fecha com a defesa do justo pagamento pelo trabalho cultural:

Seja o que Deus quiser, não se pode deter o progresso. Progresso este que faz um interessante revertério para o tempo em que o artista morria indigente. Ao que tudo indica, a moda está de volta e acho que vou procurar logo uma boa sarjeta e começar a treinar. Tenho, entretanto, um comentário final: tudo bem, são os novos tempos, mas os bens culturais ‘gratuitos’ não são produzidos sem custos, pois não existe produto (ou almoço) de graça. Muita gente ganha dinheiro com essa produção, em todos os seus estágios, muita gente é paga. Por que só quem não deve ser pago é o autor?

Para acesso ao inteiro teor do texto, CliqueAqui.

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