“Desejo-lhe um Feliz Ano Novo” ou “Te desejo um Feliz Ano Novo”? (discussão sobre o uso de pronomes átonos no início das frases)

Com a mesma data de nascimento das primeiras gramáticas escritas, apareceu a disputa entre a língua formal e a coloquial.

Os gramáticos sistematizaram e registraram a forma de falar dos letrados, que sempre foi diferente da voz do povo.

O próprio latim — a mais importante língua da história da civilização — se divide em clássico e vulgar.

Em tempos recentes, a redução dos índices de analfabetismo aproximou os falares, mas o divórcio entre gramática e coloquialismo se manteve.

Argumentam — corretamente — que a maior parte das novidades linguísticas, das gírias, dos modismos e dos regionalismos desaparecem com o passar do tempo.

Mas por trás do ser humano muitas vezes existe um conservadorismo, uma resistência que ultrapassa os limites do razoável, que até resvala para um sentimento banal: a teimosia.

Apenas os exageros do conservadorismo explicam a persistência da seguinte regra do uso de pronomes: “não se inicia oração com pronome oblíquo átono.“

É tão comum, frequente, seu uso cotidiano/coloquial no início da frase que nem mesmo os professores de português se arriscam a falar como preconizam seus admirados mestres.

Eu — como certamente qualquer pessoa que opta por escrever respeitando as regras — tenho que me policiar para não abrir a frase com um pronome equivocadamente anteposto.

Temo ser traído por uma próclise marginal, ilegal, comprometedora.

Desafio qualquer um a encontrar esta falha em meu textos, mas não arrisco dinheiro nesta aposta pois a minha derrota é certa: sei que já cometi este erro.

Erro indesculpável para os herméticos, mas tolerado pelos progressistas, evolucionistas.

Esta questão já está ficando antiga, e foi bem sintetizada pelo poeta modernista Oswald de Andrade, que em 1925 (quase um século…) publicou o pequenino poema Pronominais:

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro

P.S. (post scriptum): A força do conservadorismo ficou muito clara no debate sobre o Acordo Ortográfico que entrou em vigor em 2009, cuja finalidade não era a reforma da língua portuguesa, mas meramente sua uniformização e unificação (o processo de independência das ex-colônias portuguesas gerou variações oficializadas pelas novas nações). A tenaz reação às mudanças demonstra a dificuldade que seria uma reforma de grande porte, destinada a eliminar o desuso, a aceitar as novidades sedimentadas e a facilitar o aprendizado de crianças e de pessoas de origem humilde.

A língua portuguesa bem que poderia receber novos ares.

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Publicado em Linguística. 1 Comment »

Uma resposta to ““Desejo-lhe um Feliz Ano Novo” ou “Te desejo um Feliz Ano Novo”? (discussão sobre o uso de pronomes átonos no início das frases)”

  1. Machado de Assis já errou no uso de pronome átono « Márcio de Ávila Rodrigues Says:

    […] respeito do texto Desejo-lhe um Feliz Ano Novo” ou “Te desejo um Feliz Ano Novo”? (discussão sobre o uso de pro…, que publiquei em 02/06/2011, ele redigiu um comentário lembrando um erro de Machado de Assis — […]


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