O autoritarismo é um problema do policial brasileiro

Em meados da década de 1980 eu era aluno da Universidade Federal de Minas Gerais e pedi uma carona, a outro estudante, para retornar da Pampulha para o centro de Belo Horizonte.

No meio do caminho, o fusquinha branco foi abalroado por um caminhãozinho com reboque que estava trabalhando para a Copasa – Companhia de Saneamento Básico.

Aconteceu no cruzamento de duas grandes avenidas; enquanto os motoristas discutiam, chegou um soldadinho insolente que exigiu, em tom bastante autoritário, que os carros fossem retirados imediatamente.

O dono do fusquinha argumentou que preferia esperar a perícia do Detran; aumentando o tom da voz, o militar determinou:

— Tirem os carros imediatamente. Não admito perícia de menos de 80 mil cruzeiros.

(Se a memória me traiu e o valor não era exatamente esse, autorizo o leitor a escolher outro.)

Retirados os carros, as discussões continuaram e, em dado momento, o educado estudante de medicina (19 anos) chamou o policial de “Senhor”; foi a chance que este teve de criar a sua segunda frase de efeito:

— Ainda bem que o Senhor me chamou de Senhor. Se o Senhor não tivesse me chamado de Senhor, eu te prendia imediatamente por desacato à autoridade.

Alguns minutos depois inverteu-se a situação: apareceu uma patrulhinha com um policial bem mais educado e qualificado (creio que era um tenente), que analisou o caso e convenceu tranquilamente o caminhoneiro de que ele tinha culpa total.

Aí entrou em cena a questão social: este, já tranquilizado (estava agressivo e invertendo a culpa no início), alegou que não tinha condição financeira para pagar o estrago.

O autoritarismo patológico do soldado ficou na minha memória.

As cenas mudam, os anos passam e o autoritarismo policial segue cotidiano.

E parece ter sido a causa de um fato insólito: no dia 15 de junho de 2009, agentes da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo exigem que uma escrivã acusada de receber propina se dispa para que verifiquem a denúncia de que ela tem dinheiro escondido.

Texto d’O Estado de São Paulo assim narrou a sequência: “Ela responde exigindo que a revista seja feita por policiais femininas, direito garantido por lei. “Pode me revistar, só não quero ficar pelada na frente de homem. Isso é constrangimento ilegal”, ela afirma. “Chega. Perdi a paciência, pode meter o grampo nela”, diz o delegado Eduardo Henrique de Carvalho Pinto, e, enquanto um policial algema a suspeita, que cai no chão, outros homens tiram a calça jeans e a calcinha da suspeita. Mostram à câmera R$ 200 que seriam produto de corrupção.”.

A filmagem, provavelmente de um celular, foi claramente autorizada pelo delegado que chefiava o grupo; ele certamente planejava usá-la como prova do crime.

Não entendeu que poderia ser usada como prova do abuso de autoridade, de desrespeito aos direitos humanos.

Falar em desconhecimento da lei não tem sentido para um delegado de polícia, pois o título de bacharel em Direito é exigência profissional básica.

Resta o diagnóstico de desprezo pela lei, da sensação de estar acima dela; o autoritarismo exacerbado.

A mídia relatou que, além do delegado e seus subordinados, havia duas mulheres policiais presentes, que não reagiram aos acontecimentos provavelmente por temerem a autoridade maior; mesmo não pertencendo à polícia civil (eram agentes da Guarda Civil Metropolitana, órgão municipal) eram as pessoas mais indicadas para a revista íntima.

Com bastante atraso, o vídeo caiu na internet; para acessá-lo, CliqueAqui. (Recado aos tarados de plantão: não precisa de pressa, pois a parte do corpo dela que estão interessados em ver está tampada com trucagens virtuais.)

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