Pantaleón e as visitadoras”, ou quando Llosa imaginou um serviço oficial de prostituição para os soldados

Sou um leitor frequente dos artigos jornalísticos do peruano Mario Vargas Llosa, mas até o dia em que ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura eu só havia lido uma de suas obras literárias.

Era o Batismo de Fogo, a opção de título do editor brasileiro para La ciudad y los perros, o original em espanhol.

Não tive sorte, pois certamente foi uma das obras mais fracas de sua lavra, provavelmente por ter sido escrito aos 28 anos, pouca idade para a maturação de um bom escritor.

Bem depois, 2003 ou 2004, consegui, de uma forma curiosa, um exemplar de sua valorizada obra Pantaleón e as visitadoras (1973): troquei por uma dúzia de livros e revistas que não mereciam um lugar na minha instante.

O vendedor foi a curiosidade: um camelô que estava tentando se especializar neste ramo e espalhou o seu estoque no chão de uma esquina do bairro Cidade Nova, em Belo Horizonte.

Fiz a proposta que ele aceitou calado, provavelmente desconfiado de que estivesse sendo passado pra trás; não sabia que Llosa já era um bom vendedor de livros, portanto suas obras eram baratas por não serem raridades.

Vendedor de livros que não lê, vende pouco; aquele camelô já deve ter mudado de ramo.

Somente no final de 2010, após a entrega do Nobel, é que abri as páginas da história do Capitão de Exército Pantaleón Pantoja; completada a leitura, destaco, nesta análise livre de academicismos, o tema e a estrutura.

O tema é bem original, pelo menos para mim: o autor imaginou uma situação em que o Exército peruano autorizou, em 1956, um oficial a criar um bordel itinerante para satisfazer os desejos sexuais dos soldados.

E a imaginação de Llosa criou as ocorrências possíveis numa situação semelhante: disfarçar a participação do Poder Público; inveja de grupos que não ganharam direito ao prazer; reações individuais das prostitutas, dos soldados, da população e dos religiosos; e até a chantagem de um radialista que exigiu propina para moderar o noticiário.

Na página 153 há um relato da prostituta Maclovia (na transcrição de uma entrevista para o radialista Sinchi, divulgada antes que ele passasse a receber propina para moderar o noticiário) sobre a escolha do “emprego”: “quando de repente correu a notícia de que na Pantilândia davam contratos com salários fixos, domingos livres e até viagens, bem, foi uma loucura entre as ‘lavadeiras’. Era a Loteria, Sinchi, você não vê? Um trabalho seguro, sem ter que procurar clientes, porque a gente tinha para dar de presente, e ainda por cima tratadas com toda a consideração. Parecia um sonho então. Foi uma correria até o rio Itaya. Embora a gente tenha voado, só tinha contratos para umas poucas”.

(Pantilândia seria uma mistura de Panti — redutivo que vale tanto para Pantaleón quanto para Pantoja — com o “lândia” que joga o subconsciente para a Disneylândia, o símbolo das diversões.)

Naquelas circunstâncias, era quase um emprego público, já que oficializado pelos documentos militares secretos, não publicados.

E — lançando uma maldade mais direta que a sátira de Llosa — permite vislumbrar uma semelhança com a atual disputa nos concursos públicos brasileiros.

A burocracia detalhista do serviço público peruano foi outra vítima do cérebro criativo do gênio literário: o personagem central descreve, em relatório aos seus superiores, estatísticas e análises que às vezes resvalavam para o supérfluo, para o detalhe do detalhe.

Entre estas análises ficou particularmente engraçado o cálculo do tempo médio da relação sexual de um soldado; um dos testes de Pantaleón aparece nesta carta da ingênua esposa Pochita para a irmã Chichi (página 55): “Imagine que uma noite percebi que ele marcava o tempo com um cronômetro enquanto fazíamos amorzinho, falei a ele e ficou muito confuso. Depois me confessou que precisava saber quanto durava um amorzinho entre um casal normal: será que ele está ficando tarado?”.

Em relatórios, o capitão apresenta suas estimativas e posteriores correções de análises, obviamente sem informar aos seus superiores como calculou os intervalos de tempo.

Mario Vargas Llosa também aproveitou a oportunidade para inventar um grupo de fanáticos religiosos que usavam a crucificação — autorizada ou não pela própria vítima — como prática para alcançar o Reino do Céu.

A estrutura do texto de Pantaleón e as visitadoras é fenomenal: não existe um narrador, a história é contada por diálogos, cartas, memorandos, um roteiro radiofônico e até um texto jornalístico.

Não existem capítulos formais, Llosa dividiu as 242 páginas — da edição bem cuidada do extinto Círculo do Livro — em 10 blocos.

Para melhor entendimento da curiosa e personalizada técnica, assim resumo os blocos:

PRIMEIRO – São 19 páginas de diálogos bem atípicos, pois todos os parágrafos são declaratórios, precedidos por travessões. Mas a sequência não é obrigatória, uma fala de um personagem na capital Lima pode ser seguido por uma fala de outro na distante Iquitos (localização do bordel) em outra data. Parece complicado, mas com um pouco de atenção é inteligível e não prejudica o ritmo da leitura.

SEGUNDO – É aberto com um relatório do personagem principal, seguido pela descrição de um sonho dele e se fecha com um memorando militar.

TERCEIRO – Tem duas partes: a carta que a esposa do capitão enviou para a irmã e o enredo de um sonho dele.

QUARTO – Muitos textos de terceiros: memorandos, informes e resoluções militares, cartas.

QUINTO – Como o primeiro parágrafo, somente diálogos em parágrafos exclusivamente declaratórios que não ocorrem no mesmo local e no mesmo momento.

SEXTO – Estrutura semelhante ao quarto parágrafo: uma sucessão de documentos militares e uma carta de um personagem.

SÉTIMO – Um roteiro radiofônico com a íntegra de uma entrevista e, ao final, mais um sonho do capitão.

OITAVO – Mais um bloco de diálogos.

NONO – Transcrição de um longo texto jornalístico, apresentado como reportagem de um jornal local.

DÉCIMO – Somente diálogos.

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