No cemitério moram mais valentes do que covardes

No dia 22 de abril de 2006 mais um caso de violência assustou a população belo-horizontina: a morte a tiros do estudante de educação física Paulo Gustavo Viegas Ferreira, no bar e restaurante Paracone, à noite.

A primeira suspeita da polícia foi latrocínio. Mas o avanço da tecnologia trouxe novidades, pois o crime foi filmado por câmeras de segurança. O assassino foi identificado e apreendido: tinha 17 anos. Nos dias seguintes, a polícia concluiu que o estudante de educação física, bem mais forte que o menor, o agrediu e este, sem condição física para reagir, foi até sua casa (em uma favela) onde pegou uma arma e retornou para matar o agressor.

O assassino alegou que o estudante mexeu com a sua namorada e reagiu, mas foi agredido pelo adversário que se aproveitou da superioridade física. O caso está atualmente esquecido pela mídia, mas provavelmente teve poucas consequências para o assassino pois a proteção ao menor, na legislação brasileira, é um fato indiscutível.

A explicação da polícia é verossímil. Recentemente, um especialista afirmou que as mulheres são os pivôs da grande maioria das brigas de bares e restaurantes. E numa briga, a atitude do mais forte é geralmente a agressão, e entre os mais fracos prevalece a reação com uma arma.

Este caso me fez lembrar uma frase que li anos atrás: “no cemitério tem mais valentes do que covardes”. Quando um homem fisicamente mais forte humilha o mais fraco, muitas vezes a este só parecem restar duas saídas: resignar-se ou matar o mais forte.

Claro que existe uma terceira saída, que é usar os direitos de cidadania através da polícia ou justiça, mas esta análise é sobre os casos mais bestiais, aos duelos.

Saindo do exemplo acima, até pela falta de informações mais detalhadas, impressiona a quantidade de pessoas (muitas de nível universitário) que transformam a agressividade em prazer. Espancamento proporcionado por praticantes de artes marciais e educação física é coisa frequente nas grandes cidades.

Psicólogos terão muitos argumentos à disposição: imaturidade, conflitos mal resolvidos na infância, necessidade de auto-afirmação e outros correlatos. Normal, certamente este comportamento não é. Esta turma já ganhou o apelido de pitboys, uma comparação com a assustadora raça canina, habitual frequentadadora do noticiário policial.

Para provocar uma consequência extrema é necessário que o vingador também tenha algumas características que os psicólogos consideram “anormais”, como imaturidade, um medo infantil de ficar desmoralizado, uma superestimação da humilhação. Problemas de ego comuns no Brasil, com seus milhões de jovens oriundos do ambiente desumano das favelas, ou de lares que desconhecem que a formação moral regular é essencial para a sociabilização.

No noticiário jornalístico internacional já li (lemos) “n” casos de rapazes norte-americanos que, humilhados por colegas, algum dia apareceram na escola para descarregar as armas nos algozes e nos professores. Eram chamados de feios, ou gordos, ou imigrantes, ou apenas apanhavam por não serem membros de um grupo fixo, uma galera.

(Esta é uma associação livre entre o concretíssimo caso do Bar Paracone e os frequentes duelos entre o valente-humilhador e o covarde-vingador, pois não tenho as provas e outras informações básicas. Se o falecido não fez exatamente o que o assassino alega, que a família dele me desculpe por discutir o caso neste texto.)

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