João Ubaldo Ribeiro explica que privacidade é um crime e também um anglicismo

Indignado com as constantes quebras dos sigilos de todos os tipos, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro escreveu a crônica Nada a esconder, publicada n’O Estado de São Paulo, edição de 28 de novembro de 2010.

Foi até gentil com o autor da mais famosa quebra de sigilo dos últimos anos: “Ou então se usa alguém de prestígio para mandar o banco quebrar o sigilo bancário do vizinho, do sogro, do marido ou do patrão. Dá para fazer numa boa, como já fez um ex-ministro cujo nome me escapa no momento, mas vocês hão de recordar.”.

Não deu nome aos bois; mas vocês hão de recordar que o boizão é Antônio Palocci, provável futuro ministro do governo Dilma Rousseff.

Mas quero destacar o primeiro parágrafo, que trata de um fenômeno da submissão cultural brasileira: a adoção exagerada da língua inglesa:

’Privacidade’ é uma palavra recente na língua portuguesa. Quem a procurar num dicionário velho, aí de seus 30 ou 40 anos para cima, não vai encontrá-la. Antigamente se usava ‘intimidade’, que, na minha opinião, quebrou bem o galho durante muito tempo. Não obstante, do mesmo jeito que muitas outras palavras nossas, ‘intimidade’ teve todos os seus anos de bons serviços ignorados e foi amplamente substituída, via Estados Unidos, por uma inglesa de som e uso considerados chiques, como ocorre entre nós em relação a qualquer coisa em inglês. ‘Privacidade’, aportuguesamento de ‘privacy’, já foi naturalizada e correm bem longe os tempos em que seria xingada de anglicismo e, se usada numa prova escrita, baixaria a nota.”

Para acesso ao texto integral da crônica, CliqueAqui.

Na foto acima, obtida da internet, aparece à esquerda o político Antônio Palocci e à direita o caseiro Francenildo Costa. Este último era a testemunha de encontros de Palocci, então ministro da Fazenda, com suspeitos de corrupção. Palocci ficou muito feliz quando seu amigo Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal, mandou quebrar, secretamente, o sigilo bancário do caseiro e descobriu um depósito vultoso na conta dele. Repassou para a jornalista amiga Helena Chagas a informação (tão amiga que foi indicada por Dilma Rousseff para ministra do Brasil em 2011) e prejudicaram a vida privada do pobre caseiro, pois o dinheiro era um depósito secreto do pai biológico dele. Desnudaram a privacidade por má fé e irresponsabilidade.

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