A sociedade moderna confunde o excesso de comida com a sensação de prazer

Série: A obesidade está afetando mais os pobres do que a fome (V)

Ofereço um doce — de preferência uma bomba bem calórica — para quem provar que eu estou errado: em qualquer restaurante de comida a quilo a maioria dos idosos está com o prato bem cheio, comendo mais do que a necessidade orgânica.

Não estão isolados, a maior parte da sociedade está comendo demais.

No caso dos idosos, se existisse uma máquina de tradução de pensamento, ela captaria esta frase: “Já estou velho/a, por que vou me privar do prazer da comida?”.

A comida a quilo é um hábito que explodiu no Brasil e poderia ser importante para ajudar no controle da auto-alimentação, mas a consequência é outra: a grande quantidade de oferta enche os olhos e estimula o freguês a acrescentar uma colherzinha de opções não programadas.

Outro hábito que pegou no Brasil é o self service com preço fixo, e nele também existe a variedade de opções que estimula a comilança.

E também estimula o desperdício: as pessoas enchem o prato e deixam sobras.

Neste caso, nem precisa acionar a tal maquininha de tradução de pensamento: é frequente ouvir um freguês comentar alto que “Vou aproveitar o máximo, afinal estou pagando!”.

Como o excesso não sai do bolso, o self service sem balança torna-se um grande causador da obesidade, pois o remorso econômico desaparece.

Comportamentos alimentares equivocados nas mesas de restaurantes e lanchonetes são apenas reflexos de erros educacionais originários da infância.

A verdade é que poucos pais e mães do Terceiro Mundo, e até de boa parte do Primeiro, sabem agir com segurança na educação alimentar das crianças, sabem impor regras e limites.

É fácil observar o comum estado de confusão e de contradição: pais e mães (principalmente estas, obviamente mais ligadas à função) dão ordens e recomendações que se contradizem ao longo do dia, deixando a criança sem um norte.

Mães temerosas da magreza do filho o obrigam a se alimentar, e depois se queixam que está comendo demais e corre o risco de engordar.

A confusa criança se pergunta: “Afinal, tenho que comer muito ou comer pouco?”

Na dúvida, se acostuma a comer muito, engordando as estatísticas sobre a obesidade populacional.

Obesidade já foi um traço estatístico em passado não muito distante; hoje atinge crianças, velhos e adultos, ricos e classe média.

E, com o barateamento e aumento de opções dos alimentos, já chegou aos pobres.

O fato é que o número de pessoas que não possuem o acesso real aos alimentos também caiu para os traços, sub-índices estatísticos com localização geográfica quase exclusiva em terras secas de regiões afastadas.

Como os pobres das grandes cidades não têm mais dificuldade de acesso ao alimento, o excesso engorda e traz os perigosos males da obesidade.

Em consequência, o velho ato de dar comida para os pobres, tradicional boa ação que facilita o caminho para os céus na tradição cristã, corre o risco de virar pecado, de desviar o caminho para o inferno.

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