O famélico das Vidas Secas e o pobre que padece da obesidade

Série: A obesidade está afetando mais os pobres do que a fome (IV)

Revirando um velho álbum de fotografias, dia desses, encontrei uma foto do casamento de Rosângela, que foi empregada doméstica da minha família durante alguns anos.

Hoje ela trabalha com uma família amiga.

Impressiona na imagem a magreza dela; agora — deve estar na faixa dos cinquenta anos — está uma matrona, bem acima do peso, obesa.

Seus atuais empregadores nos contaram que ela está penando com as consequências da obesidade: pressão alta, diabetes, colesterol alto, problemas de coluna.

Vive atrás de médicos, está hipocondríaca, com mania de doenças.

A memória também me empurra até dona Vilma, simpática faxineira do Jockey Club que há duas décadas atrás faleceu repentinamente.

Junto com a triste notícia da morte, fiquei surpreso com a informação de que não havia chegado aos 60 anos de idade: obesa e lenta, parecia uns 10 a mais.

Também desconhecia que ela já estava diabética e que não se cuidava adequadamente por ser pobre e inculta.

E a memória recente leva às faxineiras de meu atual local de trabalho: entre elas também predomina a obesidade.

É a sina do brasileiro pobre, que substitui um problema por outro: no passado, morria por fome; hoje sofre por obesidade (e também pelo recrudescimento da violência).

O histórico flagelo da fome agora se subdivide em dois ramos: ela permanece renitente nos rincões e no sertão, mas nas periferias metropolitanas foi substituída pela obesidade mórbida.

A seca do nordeste foi um dos temas didáticos mais constantes da escola primária e secundária de minha geração; a fome na caatinga era um refrão nas aulas de história e português.

Vidas Secas, representativo até no título, era lido, relido, estudado e analisado; e ao lado de Graciliano Ramos perfilaram Zé Lins do Rego e Jorge Amado, machucando nossos sentimentos com a falta do pão-de-cada-dia de um povo que não conseguia atingir as fronteiras da civilização real.

Os fatalistas que previam a mundialização da fome foram derrotados pela ciência agrária, que multiplicou os alimentos disponíveis.

Mas os otimistas da ciência foram derrotados pelos pessimistas da sociologia, pois o excesso de alimentos criou a Doença do Pobre Obeso, igualmente de trágicas consequências.

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