Dívidas antigas inviabilizaram as corridas de cavalos em Belo Horizonte

A foto acima foi feita em maio de 1970, quando o público lotou todas as dependências para assistir a inauguração do hipódromo que ainda duraria três décadas.
As mais recentes — que certamente não serão as últimas — altercações entre o Jockey Club de São Paulo e a prefeitura municipal local, por causa de velhas dívidas, são recorrentes na história do turfe nacional e já levaram vários clubes a falência.

Foi uma das causas do desaparecimento do Hipódromo Serra Verde, cujo terreno agora é ocupado pela Cidade Administrativa de Minas Gerais, sede do poder executivo estadual.

Vivi a história deste hipódromo do primeiro ao último dia, e conheci a faca de dois gumes que é o uso da política para administrar grandes e perigosas dívidas.

E a lâmina da faca penetrou fundo no Jockey Club de Minas Gerais no início do século 21, com dívidas insaldáveis e não mais roláveis.

Dois casos merecem ser lembrados e analisados: a energia elétrica do hipódromo e o aluguel da sede administrativa.

Quando os cofres do clube se esvaziaram, somente os pedidos junto à classe política conseguiram evitar o corte da luz e o despejo da sede.

Como a área do hipódromo era extensa, o gasto de energia era alto: em dado momento os pagamentos foram suspensos, mas a empresa estatal energética atendia a pedidos políticos e não cancelava o fornecimento.

O pagamento não era feito, mas a dívida crescia; quando o corte de luz foi determinado, a crise se precipitou, provocando êxodo de cavalos e de profissionais de turfe, indispensáveis para a realização de corridas, atividade que era a razão da sua existência.

Posteriormente o clube conseguiu, através de um contrato financeiro com um proprietário de cavalos do Rio de Janeiro, uma verba que permitiu pagar as velhas dívidas com a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) e recuperar a energia elétrica durante um período de pouco mais de um ano; quando este proprietário transferiu os cavalos para outro local, ela foi cortada novamente.

Situação semelhante aconteceu com a sede administrativa do clube, um andar inteiro de um prédio na principal avenida de Belo Horizonte, alugado a uma fundação, proprietária do imóvel.

Sempre que o dinheiro faltou para a energia elétrica do hipódromo, faltou também para o aluguel; pedidos de caráter político levaram a fundação a adiar a ação de despejo, mas seguiu contabilizando a dívida.

Quando o bolo estava muito grande, o locador pediu e conseguiu o despejo judicial: a consequência foi a renúncia de parte da diretoria do Jockey Club de Minas Gerais, consciente que naquele momento desapareciam as alternativas conhecidas de sobrevivência das atividades.

Com a posterior desapropriação do terreno do hipódromo encerrou-se mais uma tentativa de implantação das corridas de cavalos na capital mineira, uma luta centenária.

Mais um exemplo das consequências danosas do famoso “jeitinho brasileiro”, que é a arte de desviar, de adiar, de prorrogar; enfim, de ignorar os padrões adequados de ética e de organização para fugir de uma consequência momentânea e deixar o problema permanecer, ainda pendente.

O comportamento mais rígido dos órgãos públicos credores, à semelhança do que acontece no Primeiro Mundo, talvez tivesse obrigado a associação a se mover de forma mais direta e objetiva ao longo de sua existência, reorganizando a tesouraria do clube através dos necessários cortes e adequações de despesas.

Usando as metáforas cabíveis, balões estouram quando muito inflados e as bolas de neve soterram o que encontram em seu caminho quando descem montanha abaixo.

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