Dívidas antigas prejudicam as corridas de cavalos em São Paulo

Hipódromo Cidade Jardim, SP, maio de 2009

Quem acompanha por muito tempo o noticiário sobre o turfe observa que a questão do endividamento dos clubes que administram as corridas é um assunto que sempre retorna.

Observa também que o grande credor é sempre o governo.

Em matéria publicada pela Folha de São Paulo de 01/02/2009, o conhecido jornalista Elio Gaspari foi muito duro com o Jockey Club de São Paulo, que seria devedor de R$ 163 milhões.

Destaco estes trechos: Desde a tarde de 29 de outubro de 1876, quando o cavalo “Macaco” derrotou “Republicano” no páreo de inauguração do prado, a Viúva sofre nas mãos de suas ilustres diretorias. O Jockey nunca pagou um só ceitil de imposto territorial. […] Hoje a conta está em R$ 163 milhões, acumulados em mais de uma dezena de processos de execução fiscal. […] Houve uma época em que o clube caloteava também contas de luz, água e dívidas junto a bancos. Recentemente sua contabilidade foi saneada, mas o espeto tributário continua lá, com mais uns R$ 10 milhões devidos de ISS.

(Viúva é a expressão que Gaspari sempre usa para representar o erário, o dinheiro público. De sua fonte de originalidade também aproveitou o ceitil e o espeto.)

Mas estes comentários duros e generalizantes, atribuindo a culpa à classe dos dirigentes turfísticos ou à classe dos políticos, têm efeito jornalístico mas não condizem com a porção historiadora de Elio Gaspari, autor da respeitável tetralogia sobre a recente ditadura militar (A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada).

Uma crítica inexata (como qualquer generalização), injusta com muitos dos atingidos.

Mas, se há inocentes e culpados, há que se separar o joio do trigo, como ensinava o milenar provérbio bíblico.

No caso do Jockey Club de São Paulo é notável a atuação do atual presidente, o empresário Márcio Toledo, que recebeu um clube bem endividado quando assumiu o cargo, em 2005.

Deixando o caso específico do turfe paulista e enveredando por caminhos mais amplos, observo que, por todo o desenrolar da história brasileira, o poder público se envolveu profundamente com a economia privada, amparado ou não pela legislação, e com ela se associando, ou investindo, ou concedendo, ou apenas fiscalizando.

As corridas de cavalos sempre foram uma atividade privada (embora administrada por sociedades sem fins lucrativos) de notória ligação com a política, pois sempre contou em seus quadros com aficionados ligados à elite da administração pública, ao poder.

Conseguiram muitos favores políticos; quando a benesse chega por doação, é excelente para quem recebe, mas quando o caminho é um empréstimo ou o adiamento de pagamento de dívida, a consequência quase sempre aparece à frente, e redobrada.

Minha experiência me garante que vários ex-dirigentes do Jockey Club de São Paulo, ao longo de décadas, usaram de prestígio político para adiar o pagamento de dívidas de água, luz, ISS, INSS e impostos territoriais.

Mas a dívida não desapareceu e até cresceu, uma bola de neve cuja descida montanha abaixo o atual presidente conseguiu amortecer.

E nem recebeu os agradecimentos devidos: na segunda candidatura quase foi derrotado por grupos ligados a gestores anteriores, que haviam dado mais impulso à bola.

Toda esta situação é grandemente semelhante à enfrentada pela maioria dos clubes brasileiros de futebol, quase todos imersos em dívidas que certamente os levariam à falência se fossem empresas privadas.

Tirei a foto acima em maio de 2009, durante o mais importante evento do ano, o Grande Prêmio São Paulo.

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