Prender os receptadores é uma das formas de combater os roubos

A expressão receptador de furto sempre remete a nossa imaginação a algum chefe de quadrilha organizada, ou a um escritoriozinho disfarçado que recebe os ladrões, compra as mercadorias e depois as repassa, sutilmente, aos compradores e comerciantes.

Mas isto não é o mais comum no Brasil.

Aqui os receptadores são, geralmente, oportunistas de ocasião, pessoas que compram barato para vender menos barato, e tirar um lucrinho; não vivem desta “profissão”, pois possuem alguma atividade profissional regular.

Alguns anos atrás eu frequentava muito uma loja de fotografias em Belo Horizonte, o Foto Severino, e comecei a observar o aparecimento de pessoas oferecendo câmeras fotográficas usadas.

Um parágrafo de lembranças: infelizmente o proprietário, seu Severino Pereira dos Santos, já faleceu; tive a oportunidade de lhe prestar uma homenagem por este blog-veículo em 23/01/2008 (para acessar o texto, clique aqui para abrir meu Blog UOL, depois clique em “mensagens anteriores” no final da página e localize o link de janeiro de 2008).

Impressionado com a frequência deste tipo de oferta, perguntei-lhe o que de fato se tratava, qual o motivo de tantas propostas semelhantes.

Respondeu que eram todos — ou quase todos — ladrões ou mensageiros de ladrões, e que estavam oferecendo produtos roubados.

Aí eu entendi uma velha história, referente a alguém do passado que, paralelamente a duas ou três atividades e empregos, também costumava comprar e vender aparelhos, equipamentos e outras coisas.

Provavelmente era mais um receptador-oportunista.

Curiosamente, logo após esta conversa com seu Severino voltei a me encontrar com o Alguém do Passado e toquei vagamente no assunto e nos riscos das “compras e recompras”.

Ele aproveitou a oportunidade e me contou que estava sendo “perseguido pela polícia”, pois um ladrão o havia acusado de ser receptador.

Me vendeu a história como se fosse a vítima, mas eu tinha acabado de ganhar motivos para dar vazão ao ceticismo.

Lembrei desta história quando um rapaz me interpelou na rua, meses atrás, em Belo Horizonte, oferecendo uma máquina Makita, que é um tipo de serra elétrica.

Por que estaria alguém vendendo uma Makita na rua, oferecendo a qualquer desconhecido?

Até poderia ser o caso de alguém que ganhou recentemente e precisava revendê-la, mas…

Coincidentemente, em viagem recente à cidade de Serro, interior de Minas Gerais, aconteceu uma cena igual: outro rapaz me ofereceu outra Makita.

Como a cidade é pequena, esbarrei como o mesmo vendedor mais duas ou três vezes na mesma manhã.

Uma situação improvável de acontecer num país do Primeiro Mundo, pois a organização social não permite que uma pessoa saia pelas ruas vendendo um produto novo, na caixa.

Estaria, no mínimo, sonegando impostos; e seria investigado.

Esta forma de agir do Primeiro Mundo tem um efeito inibidor e educativo; as pessoas com propensão para este tipo de oportunismo tendem a ficar com medo da lei e da polícia.

O ato do roubo fica menos atrativo, pois dificulta-se a revenda do seu produto.

Obviamente não desaparece este tipo de crime mas a incidência se reduz, o que já é um ganho para a sociedade.

Esta é a função da prevenção.

A foto acima foi tirada na Praça João Pinheiro, a principal do Serro, onde encontrei e reencontrei o vendedor da Makita, meio disfarçada em sua mochila.

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