Infelizmente, a mídia enfoca o turfe pela ótica do extraordinário, do bizarro, e do impacto

O turfe — as corridas de cavalos — é sempre referido como esporte de elite, mas já foi popular, já atraiu multidões aos hipódromos.

E atrás das multidões sempre vem a mídia, tentando vender jornais, revistas e anúncios publicitários.

Até a década de 1980, os quatro jornais de alcance nacional (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo e o recentemente paralisado Jornal do Brasil) dedicavam uma página por dia ao turfe; tinham editor, repórteres e até fotógrafo exclusivo.

As reportagens eram — via de regra — positivas, pois enfocavam o que havia de mais importante: os principais eventos, os melhores cavalos, os melhores jóqueis.

Os fatos negativos, como os acidentes com cavalos, obviamente eram noticiados, mas não atrapalhavam a abordagem dos aspectos técnicos.

Na década de 1990 a abordagem da mídia mudou completamente: perdeu espaço e mudou o estilo, perdeu até o respeito.

Não foi uma mudança brusca, mas foi radical: o turfe passou a dividir com os demais esportes a antiga página fixa e, à frente, caiu para uma ou duas notícias diárias; hoje O Globo publica uma ou duas notícias por semana e os paulistas se restringem a dois ou três eventos anuais.

E o enfoque pulou do espetáculo técnico para o exótico, para o inusitado, para o aberrante.

No primeiro dia de agosto deste 2010 foi corrido no Hipódromo da Gávea o Grande Prêmio Brasil, que nas décadas de 1960 a 80 era transmitido ao vivo pela televisão, que interrompia até a programação dominical.

Neste ano, o destaque recaiu quase que exclusivamente sobre o cavalo Vasuveda, que caiu na reta final, sofreu uma fratura e foi sacrificado pelos veterinários.

Era um dos cavalos mais fracos da prova, candidato ao último lugar.

O acidente foi discreto, assim como a eutanásia; não chocou o público, mas foi o detalhe que abriu as reportagens, foi a manchete.

Outro tema largamente abordado foi o desfile de moda, principalmente os exageros: os personagens mais excêntricos, os chapéus mais chamativos.

O cavalo ganhador, que outrora seria o protagonista, virou coadjuvante.

A opção da mídia por abordar o turfe através da vertente do extraordinário, priorizando o exótico, talvez tenha começado em 1997, duas semanas após a vitória do cavalo Quinze Quilates no Grande Prêmio São Paulo.

O laboratório químico do Jockey Club de São Paulo detectou a presença de um anabolizante (boldenona) no exame de urina de Quinze Quilates e também no de Haydn, o segundo colocado, que foram desclassificados.

Foi assunto de destaque no Jornal Nacional, da TV Globo — a maior fonte de informações do brasileiro —, mas o tom foi policialesco, praticamente criminoso.

A partir daí, os dirigentes turfísticos perceberam a mudança de enfoque da mídia e se esforçam para evitar a publicidade negativa, até onde é possível.

E o foco, a bomba-relógio, está nos exames antidoping; qualquer resultado positivo é tratado como ato criminoso.

Na década de 1980, o meio do turfe adotou a terminologia “medicação proibida” para incluir no grupo medicamentos não estimulantes (sem capacidade de alterar o resultado das competições), como diuréticos e analgésicos.

Na verdade, não dopantes, considerando a etimologia da palavra doping, a partir do seu sentido original.

Mas a verve sensacionalista da mídia ignora a realidade e qualquer resultado positivo dos exames laboratoriais das competições na lista de doping, despejando um tom crítico que induz o público à criminalização generalizante.

Para os dirigentes de turfe, fica a sensação de que se ficar o bicho come, e se correr o bicho pega…

Ou: se foge da mídia, perde mercado consumidor; se facilita demais a divulgação, sofre as consequências do enfoque negativo.

Na foto acima, o cavalo Vasuveda faz o galope de apresentação para o Grande Prêmio Brasil 2010. Meia hora depois sofreu uma grave fratura e foi sacrificado pela equipe de veterinária.

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