O best-seller de Saulo Ramos parece uma tribuna de acerto de contas pessoais

Adoro ler um bom livro, mas só descubro se ele é bom quando a leitura está bem adiantada ou terminada.

Para escolher um livro a ser lido nós, leitores, usamos vários critérios, inclusive a lista dos mais vendidos, os best-sellers (para usar uma consagrada expressão da inevitável língua inglesa).

Há dois ou três anos frequenta esta lista o “Código da Vida”, escrito pelo advogado e ex-ministro da Justiça Saulo Ramos.

Transcrevo da internet a biografia do autor: “José Saulo Pereira Ramos (Brodowski, 1929) é um jurista e escritor brasileiro. Membro da equipe de Jânio Quadros, consultor-geral da República e Ministro da Justiça durante o Governo Sarney, lançou em 2007 o livro de memórias “O Código da Vida”, onde a partir de um polêmico caso judicial conta sua trajetória de vida e fatos que marcaram a história do país.”

Comprei e li o grosso volume (482 páginas), e confesso que o critério da “lista dos mais vendidos” perdeu alguns pontos como forma de escolha, pois o resultado foi decepcionante.

Ramos mesclou dois assuntos: um caso de disputa de guarda de crianças que o seu escritório assumiu e a sua própria biografia, que praticamente se transformou em um depoimento político.

A técnica de distribuição dos assuntos foi original, ou pelo menos pouco usual: capítulos sem título em que os temas se revezavam.

Não tenho ressalvas quanto ao caso criminal (segundo ele, era real e por isso mudou os nomes dos envolvidos): o excesso de elogios aos seus companheiros de trabalho e personagens do Judiciário é uma falha estilística, mas secundária no contexto.

Mas a descrição parcialística, opinativa e bastante emocional de personagens e de eventos afetou a credibilidade do restante da obra que, não fosse por isso, poderia ter valor histórico pois o autor foi ativo participante de governos e de atos políticos.

Em alguns momentos fica clara a intenção de um ajuste de contas com desafetos, usando referências que resvalam para a grosseria e a ridicularização.

Os desafetos mais criticados foram, pela ordem, o seu sucessor no ministério Bernardo Cabral, o ministro do STF Celso de Mello, e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Cabral é a maior vítima dos comentários ácidos e emocionais, como na frase “O problema é que ele não tem alfabetização suficiente para distinguir uma redação má de uma redação boa.”. Uma agressão que derruba a credibilidade do autor.

A mesma credibilidade também se fragiliza nos trechos em que Saulo Ramos apresenta informações bombásticas, mas não documentadas, e sem citação de fontes ou testemunhas.

Transcrevo este trecho da matéria “Saulo Ramos reescreve a história do Brasil em causa própria”, assinada por Márcio Chaer e publicada no site “Consultor Jurídico” (CliqueAqui para acesso ao inteiro teor):

Ele faz revelações espantosas: teria sido Fidel Castro quem preparou a morte de Che Guevara na Bolívia — ao mandar ao encontro do guerrilheiro uma mulher que, Fidel sabia, estava sendo perseguida pela CIA. Outra: Luís Carlos Prestes, para não ser preso, teria barganhado com a política a entrega de suas famosas cadernetas que acabaram por fundamentar o inquérito que indiciou 74 pessoas e que levou à condenação de 54 na primeira instância da Justiça Militar, em junho de 1966. Outro furo internacional: na briga com a Petrobras, Evo Morales, da Bolívia, “não afinou por temor ao governo brasileiro, mas porque os traficantes do Rio de Janeiro ameaçaram importar somente cocaína da Colômbia”.”

Afirmações impressionantes mas de credibilidade duvidosa, inclusive pela ausência de citação de fontes e de documentos.

No somatório, Saulo Ramos deixa uma imagem de conciliador inábil, que não se encaixou na seara política como gostaria.

Não lustra a sua biografia o fato de somente ter se destacado em dois governos, coincidentemente considerados fracassados pelos analistas: Jânio e Sarney.

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