Lula transfere votos para Dilma Rousseff, mas não transfere carisma

Nós, que vivemos num mundo civilizado e cientifizado, que fazemos parte de um extrato sociocultural que acredita que o sucesso de uma sociedade é proporcional ao uso dos conhecimentos existentes, temos dificuldade em entender as motivações das massas populares.

A história do Brasil comprova o sucesso de líderes com um carisma de forte apelo emocional e eleitoral, mas que não se enquadravam em outros padrões esperados para os detentores dos cargos mais importantes.

Citando os exemplos mais óbvios, Vargas, “o pai dos pobres”, foi um ditador violento; Jânio Quadros, aquele que prometia “varrer a corrupção”, foi uma nulidade administrativa; e Collor, “o caçador dos marajás e dos corruptos”, foi o único presidente cassado por corrupção.

Lula talvez tenha sido o primeiro grande líder a galgar os postos mais altos por conta de sua origem operária, humilde: sociólogos de renome garantem que esta é a grande razão de sua identificação com as massas populares.

Mas em oito anos foi um administrador inexpressivo, que — até pela sua falta de conhecimentos técnicos — dedicou quase todo o tempo ao marketing político.

Enquanto isso, ministros e outras autoridades por ele nomeados administravam o dia a dia sem alterar a estrutura pré-existente.

Uma tática de indiscutível sucesso: 40 dias antes das eleições, as pesquisas já previam uma vitória em primeiro turno de sua candidata, Dilma Rousseff, uma belo-horizontina criada em Porto Alegre.

A confirmar tal previsão, Lula terá conseguido transferir seus votos, mas não o carisma: o apoio do ainda presidente é o único trunfo de Dilma.

Para construir uma futura imagem própria e independente ela terá que mudar estruturas sociopolíticas e criar sua própria marca, e seu próprio marketing.

A transferência dos votos de Lula impressiona, principalmente quando se analisa a inexpressiva carreira política de sua candidata.

Jamais participou de eleições políticas e viveu sempre à sombra de dois padrinhos políticos: Alceu Collares (PDT) e o próprio Lula (PT).

Só aderiu ao PT no ano 2000, após se incompatibilizar com uma parcela do partido de Leonel Brizola.

Esta transferência de votos, que parece incompreensível num raciocínio tecnicista, torna-se comprensível quando observamos os intermináveis aglomerados populares de São Benedito (região metropolitana de Belo Horizonte), Samambaia (Distrito Federal), a zona norte carioca e qualquer equivalente de qualquer megalópole brasileira.

Esta multidão não lê jornais e não conhece a lógica da organização social; só a lógica do símbolo ilógico.

E como aconteceu na própria eleição de Lula (a primeira), se Dilma confirmar a esperada vitória, as classes média e alta vão ficar na expectativa e na torcida: se o resultado for mais ou menos, se apenas mantiver o status quo, já está bom…

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