Sobre o mais recente fracasso da seleção brasileira

No ano seguinte ao meu nascimento morria em Madri o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, autor de uma frase tão célebre que virou provérbio: eu sou eu e minhas circunstâncias.

No caso da seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 2010 — vencida pelos compatriotas de Gasset —, foram circunstâncias que facilitaram a contratação de Dunga para técnico e também garantiram a sua inesperada permanência, o que determinou o fracasso de um grupo inteiro, para decepção de milhões de esperançosos torcedores.

A história do fracasso de 2010 começa com o fracasso de 2006, quando a mídia interpretou — corretamente — que o estrelismo afetou os jogadores, que deixaram de priorizar o resultado e o esforço coletivo.

Os analistas e críticos reclamaram, à época, do excesso de liberdade dos jogadores e do excesso de tempo dedicado à mídia e aos patrocinadores, gerados não só pelo interesse dos atletas quanto por exigência do presidente da CBF.

E resumiram o fracasso em vaidade, falta de concentração psicológica e excesso de confiança.

Os jogadores mais bajulados eram Cafu, Roberto Carlos, Emerson, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo Fenômeno; todos decepcionaram.

Acuado, e acusado de ter implementado — com a omissão ou anuência do técnico Carlos Alberto Parreira — um clima de liberdade e tolerância excessivas, Ricardo Teixeira percebeu a necessidade de dar uma resposta rápida e forte: contratou rapidamente o ex-jogador Dunga, famoso pelo temperamento autoritário e agressivo, para ocupar o cargo de técnico.

Era um símbolo da união entre disciplina e bons resultados, mas na função de técnico ele não passava de um iniciante, sem qualquer experiência anterior.

Qual deve ter sido o pensamento de Teixeira naquele momento?

Uma resposta provável, amparada pela lógica: — Calo a boca dos críticos que falam em falta de disciplina e posteriormente, quando chegar a pressão contra ele, demito e contrato alguém mais adequado para preparar a seleção que vai disputar a Copa de 2010.

Mas nos torneios regionais a seleção brasileira sempre foi soberana e a equipe de Dunga ganhou todos, tirando as oportunidades de demissão.

E Teixeira se tornou refém das circunstâncias: ficou sem pretextos para demitir; se o fizesse pareceria mesquinho e irresponsável aos olhos do público.

Mas certamente temia pelas consequências do temperamento de seu contratado, que acovardava os jogadores, afastava a mídia e atrapalhava os contratos comerciais.

Teixeira não conseguiu ser o comandante de fato e virou um torcedor, e dos mais preocupados.

Mas a indicação do substituto do demitido Dunga pode vir a ser a mais importante da carreira do dirigente futebolístico, pois a Copa 2014 é no Brasil e um fracasso semelhante ao de 1950 vai arrancar todas as cabeças expostas à sanha popular.

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