Raro cientista social a se debruçar sobre o futebol, o professor do departamento de História da USP Hilário Franco Júnior analisou com dureza e um certo pessimismo a renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF.
O texto saiu no caderno Mais de O Estado de São Paulo, edição de 18/03/2012, sob o título A cabeça da Medusa.
Cita a formação de oligarquias – com amigos e familiares – em entidades do ramo:
“Entre esses hábitos está certa privatização das instituições – não é fortuito que o criador do atual sistema político-financeiro da Fifa tenha sido João Havelange, mentor de Blatter (seu ex-colaborador e sucessor) e Teixeira (seu ex-genro).”
É muito duro quanto aos interesses da Fifa e à corrupção política:
“Todavia, o quadro parece ter tonalidades ainda mais mafiosas. O aperfeiçoamento do ‘sistema Fifa’ levou à descoberta de outro filão: promover as Copas do Mundo em países cujo controle das contas públicas não é, digamos, rígido. África do Sul (2010), Brasil (2014), Rússia (2018), Catar (2022) são oportunidades de ouro para grandes negócios. Desde que, evidentemente, os sócios locais aceitem ‘jogar o jogo’. E o Brasil, em função de uma história política e uma tradição cultural que ninguém desconhece, revelou-se ao olhar apurado da Fifa um campo magnífico. Como os estádios seriam de forma geral construídos ou reformados com dinheiro público, que no Brasil não é de ninguém, ou é dos mais rápidos, bilhões estariam navegando entre ministérios, secretarias de Estado, empreiteiras.”
E relembra o show de nacionalismo infantil gerado pela declaração de um dirigente da Fifa, que disse que o Brasil deveria receber um chute no traseiro (ou na bunda, de acordo com o tradutor de plantão) pelo atraso nas obras para a Copa do Mundo:
“Quando Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, usou há poucos dias expressão pouco elegante, embora não ofensiva, para reclamar um aceleramento nas obras para a Copa, houve uma revolta nacionalista indignada na mídia e no meio político. Mas, se na forma ele esteve errado, estará no conteúdo? O azar de Valcke nesse episódio, e de Teixeira em todas as acusações que lhe fazem, é que no Brasil o futebol é a instância mais sensível da consciência nacional.”
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