Historiador confirma e explica o que todos dizem: a Copa foi supervalorizada para ser superfaturada

Raro cientista social a se debruçar sobre o futebol, o professor do departamento de História da USP Hilário Franco Júnior analisou com dureza e um certo pessimismo a renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF.

O texto saiu no caderno Mais de O Estado de São Paulo, edição de 18/03/2012, sob o título A cabeça da Medusa.

Cita a formação de oligarquias – com amigos e familiares – em entidades do ramo:

Entre esses hábitos está certa privatização das instituições – não é fortuito que o criador do atual sistema político-financeiro da Fifa tenha sido João Havelange, mentor de Blatter (seu ex-colaborador e sucessor) e Teixeira (seu ex-genro).

É muito duro quanto aos interesses da Fifa e à corrupção política:

Todavia, o quadro parece ter tonalidades ainda mais mafiosas. O aperfeiçoamento do ‘sistema Fifa’ levou à descoberta de outro filão: promover as Copas do Mundo em países cujo controle das contas públicas não é, digamos, rígido. África do Sul (2010), Brasil (2014), Rússia (2018), Catar (2022) são oportunidades de ouro para grandes negócios. Desde que, evidentemente, os sócios locais aceitem ‘jogar o jogo’. E o Brasil, em função de uma história política e uma tradição cultural que ninguém desconhece, revelou-se ao olhar apurado da Fifa um campo magnífico. Como os estádios seriam de forma geral construídos ou reformados com dinheiro público, que no Brasil não é de ninguém, ou é dos mais rápidos, bilhões estariam navegando entre ministérios, secretarias de Estado, empreiteiras.

E relembra o show de nacionalismo infantil gerado pela declaração de um dirigente da Fifa, que disse que o Brasil deveria receber um chute no traseiro (ou na bunda, de acordo com o tradutor de plantão) pelo atraso nas obras para a Copa do Mundo:

Quando Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, usou há poucos dias expressão pouco elegante, embora não ofensiva, para reclamar um aceleramento nas obras para a Copa, houve uma revolta nacionalista indignada na mídia e no meio político. Mas, se na forma ele esteve errado, estará no conteúdo? O azar de Valcke nesse episódio, e de Teixeira em todas as acusações que lhe fazem, é que no Brasil o futebol é a instância mais sensível da consciência nacional.

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Teleatendimento da Oi pede o número do CPF sem motivo

As pessoas que, uma ou duas décadas atrás, se diziam insatisfeitas com o atendimento pessoal (físico, direto, cara a cara, olho no olho) das companhias telefônicas não imaginavam o quanto poderia piorar quando este contato se tornasse virtual.

É o que acontece hoje.

São casos de stress, discussões, demoras, ausência de soluções, interrupções suspeitas.

E procedimentos inúteis, mal explicados, como a solicitação de digitar o número do CPF no teclado, feita por uma voz feminina, pré-gravada (ocorre na Oi).

Seria até razoável se, quando iniciado o atendimento real (com uma voz humana), o número do CPF não fosse pedido novamente.

Mas eles sempre pedem.

Já perguntei o porquê da repetição; perdi meu tempo, só ouvi evasivas.

Permanece a minha curiosidade.

As companhias telefônicas estão abandonando os orelhões, estragados pelo tempo e pelos vândalos

Foram-se os tempos em que orelhões e cartões telefônicos tinham uma importância real para a população.

Os orelhões eram essenciais à comunicação pessoal; tão procurados que encontrar filas não era raridade.

E os cartões não eram simples retângulos de papel grosso e magnetizado: havia até um mercado paralelo para colecionadores, pois alguns eram lançados com estampas, fotos, pinturas artísticas.

A expansão rápida da telefonia celular mudou tudo.

Uma das consequências é o descuido das concessionárias de telefonia fixa com a manutenção dos equipamentos, agora pouco lucrativos.

Esta manutenção é mínima e os aparelhos que estragam assim permanecem por dias ou meses, ou indefinidamente.

Substituição, então, nem pensar. Quem já viu um orelhão novinho, recentemente?

E boa parte da culpa do descaso cabe, infelizmente, ao vandalismo público, que encarece os custos, gerando desinteresse da companhia em suprir um serviço em queda franca de rendimento.

O vandalismo é um desvio de comportamento que sempre existiu mas, quando havia demanda, também havia o interesse na reparação.

Quem sofre mais é a camada da população que não tem acesso ao celular, ou que, sem a opção dos orelhões, acaba obrigada a usá-lo em sacrifício de outras necessidades financeiras do cotidiano.

Saquei a foto abaixo em outubro de 2006, no Zoológico do Exército, em Manaus. O tucano é, na verdade, uma escultura, um orelhão de telefone.

Lembranças de uma fofoqueira que não sabia disfarçar

Uso — e estou muito longe de ser o único — a internet para pesquisar e procurar antigos colegas, amigos, conhecidos, com os quais perdi contato.

Lancei um dia desses o nome de uma antiga colega de trabalho e apareceram dados de seu inventário; é falecida, portanto.

Já era veterana três décadas atrás, quando iniciei minha carreira; tinha até tempo para se aposentar, mas alegava que queria adiar a inevitável perda salarial.

É melhor não citar o nome, pois deixou parentes e não vai ficar com biografia favorável nos próximos parágrafos que tenciono escrever; a única referência que posso fazer é que provavelmente era filha de admiradores da história do Império Romano, pois nomes e sobrenomes foram extraídos de seus ícones.

Direto ao ponto: era a típica fofoqueira, sempre preocupada com a vida alheia, em espalhar “falhas” de comportamento de colegas, vizinhos e conhecidos, principalmente as que atentassem contra os ideais então vigentes sobre moral e “bons costumes”.

Mas não era uma pessoa ruim, sádica; seu comportamento era algo infantil, imaturo, não fora moldada para se dedicar a atividades úteis.

Parecia uma caricatura, pois todos percebiam quando ela estava criticando algum colega: encostava a boca no ouvido do ouvinte, às vezes até o tapava com a mão e ainda projetava furtivos olhares para a vítima da fofoca, denunciando intenções.

Tive a oportunidade de ser sua vítima por causa de meu gosto de apostar em corridas de cavalos (o que hoje não faço mais de três ou quatro vezes por ano): meu bookmaker favorito nos anos 1980 ficava uns 30 metros abaixo da casa da irmã dela, bairro Santa Tereza, Belo Horizonte, onde ela geralmente passava os fins de semana.

Lá chegando numa tarde de domingo percebi, à distância, que ela já estava na janela da irmã, vigiando a vizinhança; quando me aproximei um pouco mais, gritou o meu nome.

Tentei bancar o esperto: olhei para outras direções para deixar claro que estava procurando por quem me chamava, mas deixei de olhar exatamente para a janela dela (de propósito, claro!).

O golpe falhou: no fim da tarde, ao voltar para casa, não consegui evitar o encontro, pois ela continuava na mesma janela, na mesma vigília, na mesma falta do que fazer…

Na segunda-feira, ao chegar ao trabalho, logo de manhã, outra colega me chamou para uma conversa particular e soltou o veneno:

— Márcio, hoje eu soube de uma coisa muito feia a seu respeito. Descobri que você é jogador profissional de carteado.

Percebi que só me restava dar uma resposta firme e clara para acabar de vez com a provocação e as fofocas:

— Não é verdade! Eu sou jogador é de corridas de cavalos. Aliás, acho que é uma diversão muito agradável e pretendo continuar jogando por muitos anos.

— Mas eu soube que você foi a uma casa de jogo de cartas… — insistiu.

— Sua informante está enganada. Aquela casa é uma banca de corridas de cavalos. — dei até o nome da autora para deixar claro que controlava a situação, que nada tinha a esconder, ou me envergonhar.

Meia hora depois a própria fonte me chamou e insistiu sobre a história do carteado; eu reafirmei que eu era apostador de turfe.

No final daquele ano, o banqueiro deu uma festinha para os fregueses e incluiu amigos e vizinhos. Pois não é que o mundo realmente dá voltas? Ela, a irmã e as sobrinhas estavam presentes, bebendo às custas de quem certamente difamava pelas redondezas.

Certamente não se deu conta da incoerência; seguiu um padrão de comportamento largamente frequente na sociedade humana.

Mas quem fala muito da vida alheia também costuma se preocupar com a língua dos outros.

Mais à frente, já às portas da velhice, aquela senhora optou por investir nas aparências, mais exatamente no corpo, e fez uma cirurgia plástica facial; o trabalho do médico foi imperfeito e ela não voltou a trabalhar, se escondendo dos colegas.

Ao cabo de alguns meses pediu aposentadoria e foi buscar pertences fora do horário de trabalho para não ser vista, mas deu o azar de ainda me encontrar na sala.

Embora tivesse deslocado uma mecha de cabelos para disfarçar, não me pareceu que o estrago fosse grande, era menor do que o peso da vaidade.

Só voltei a vê-la quase duas décadas depois, já velhinha, alquebrada, amparando-se em muletas e no braço de alguém.

Histórias dos tipos humanos.

O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches diz que a relação entre Dilma e militares é de tensão constante

No início de março/2012 a presidente Dilma Rousseff aplicou a insossa pena de advertência aos militares que assinaram manifestos elaborados por clubes (também militares), nos quais ela é criticada por não ter censurado ministras que pediram a revogação da lei de anistia.

A classe que governou o país de forma ditatorial entre 1964 e 85 guarda uma relação de tensão permanente com os governos civis, e democraticamente eleitos, que se sucederam.

O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches publicou no jornal virtual gaúcho Sul21 um longo e aplaudível artigo intitulado “A crise militar do governo Dilma”, que prioriza os confrontos com o poder executivo federal desde a transformação dos ministérios militares em Ministério da Defesa.

Opina que “Fernando Henrique acertou na criação do ministério da Defesa como parte importante do processo de estabelecimento da hegemonia civil no governo do estado democrático de direito. Mas errou na escolha dos ministros e ao admitir o esvaziamento da autoridade do ministro civil pelos militares. Ministros fracos e más escolhas originais contribuíram para dar fôlego longo à insubordinação dos militares.”.

Para o sociólogo, o cerne da questão é que “o problema dos desaparecidos e torturados permaneceria como o fio da navalha, ou do sabre, no caso, sempre ameaçando a autoridade civil com o veto militar”.

Historiando confrontos, relembra que, durante o governo Lula, o diplomata e ministro da defesa José Viegas não se calou quando o comandante do Exército, teoricamente seu subordinado, emitiu uma nota sobre tema semelhante; sem o suficiente apoio do presidente, demitiu-se e disse “com todas as letras que havia sido desautorizado e que permanecia o veto inaceitável dos militares à plena elucidação dos atentados aos direitos humanos durante a ditadura”.

Afirmou que a nota “representa a persistência de um pensamento autoritário, ligado aos remanescentes da velha e anacrônica doutrina da segurança nacional, incompatível com a vigência plena da democracia e com o desenvolvimento do Brasil no Século XXI”.

Abranches acrescenta que Viegas “insistiu na crítica ao pensamento autoritário persistente entre os militares“ e transcreve as palavras do então ex-ministro: “é incrível que a nota original se refira, no Século XXI, a ‘movimento subversivo’ e a ‘movimento comunista internacional’. É inaceitável que a nota use incorretamente o nome do Ministério da Defesa em uma tentativa de negar ou justificar mortes como a de Vladimir Herzog. É também inaceitável, a meu ver, que se apresente o Exército como uma instituição que não precise efetuar ‘qualquer mudança de posicionamento e de convicções em relação ao que aconteceu naquele período histórico”.

O autor do artigo só não se aprofundou no fato concreto de que Madame Rousseff jamais será plenamente aceita pela categoria, por ser a(o) única(o) chefe da nação que pegou em armas contra o regime militar.

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Um machismo linguístico: usar a palavra “homem” para representar todos os seres humanos

O machismo linguístico é um fato, embora nem todos concordem, alegando razões técnicas.

A maior frequência de desinências masculinas em nomes de objetos é um ótimo exemplo.

É consequência do machismo sociológico, que por sua vez é consequência da supervalorização da força física do macho, antes que a tecnologia a relegasse a segundo plano.

Reformar toda a língua, como o desejariam as feministas radicais, é uma utopia que não merece maiores comentários.

Mas há casos de machismo supérfluo, de fácil ultrapassagem, como o uso de “homem” para representar “ser humano”.

Tao banal que até as mulheres usam sem pensar no significado, e nem na facilidade de substituição.

E passo ao largo de uma potencial discussão sobre a possibilidade de a expressão ser humano também contar com um aspecto machista: a desinência masculina “o” em humano.

Em março de 2012 foi a vez dos cubanos anunciarem mais uma improvável vacina contra a AIDS

Desde os anos 1980 assisto, ouço ou leio anúncios sobre a descoberta de uma vacina contra a Aids.

E na mesma época aprendi que tal medida não é possível, pois o vírus é mutagênico, isto é, sofre pequenas modificações que tornam a vacina inútil.

O último anúncio foi feito por pesquisadores cubanos; assim informa a Folha de São Paulo de 06/03/2012:

A vacina contra a Aids já foi testada com sucesso [em camundongos] e agora estamos preparados para uma pequena e controlada fase de exames clínicos [com pacientes soropositivos que não se encontram em estágios avançados da doença], disse o pesquisador Enrique Iglesias, CIGB (Centro de Engenharia e Biotecnia Genética). Iglesias explicou que a vacina Teravac-HIV-1 é feita com proteínas recombinadas que provocam uma resposta celular de defesa contra o vírus HIV.”.

E no caso do único país comunista das Américas, parece haver uma vinculação com a necessidade de marketing, com o objetivo de continuar atraindo pacientes para os seus programas de atendimento médico a doenças graves.

Tais programas, e também a indústria do turismo, são as únicas grandes fontes de obtenção de dólares para a ilha dos irmãos Castro.

Sem os odiados mas indispensáveis dólares o país não conseguiria sequer suprir as necessidades mínimas de sobrevivência de sua grande população (12 milhões), pois a produção agrícola e industrial é muito baixa.

Os sírios-brasileiros nem parecem conterrâneos de Bashar Assad

Belo Horizonte foi um grande centro receptor de imigração sírio-libanesa nas primeiras décadas do século 20.

Convivi com vários deles na minha atividade de turfe (corridas de cavalos), geralmente filhos e netos de imigrantes; boa parte dos que conheci – com os quais ainda convivo agradavelmente – são pessoas educadas, inteligentes, que se destacaram em nossa sociedade.

Nem parecem proceder de dois países que frequentam um noticiário de guerras constantes, intermináveis: o Líbano viveu uma guerra civil nos anos 70 e a atual situação da Síria não está longe disso.

O jornalista e escritor Jon Lee Anderson esteve na Síria e publicou um longo texto na revista americana New Yorker, traduzido em duas páginas pelo caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 28/02/2012, sob o título “A Síria contra si mesma”.

Gostaria de extrair alguns trechos interessantes, mas desta vez o jornalão paulista não publicou a matéria na internet.

Anderson informa que o atual presidente Bashar Assad “lidera um regime secular dominado pelos alauitas, membros de uma seita que é uma ramificação do Islã xiita”, alinhados com os cristãos para constituir cerca de um quarto dos 22 milhões de habitantes da Síria.

Mas a maioria é muçulmana e composta, principalmente, por sunitas; e “o restante é composto de uma complicada mistura imponderável de refugiados palestinos, drusos e membros das tribos de beduínos, curdos, armênios circassianos, turcos e algumas dezenas de judeus remanescentes”.

Segundo um professor de assuntos internacionais, por ele citado, são 47 grupos étnicos e religiosos; não conseguem miscigenar, ao contrário dos que emigraram para o Brasil.

A família Cadar, que enraizou com sucesso na sociedade belo-horizontina, é procedente de Homs, a cidade mais bombardeada pelas tropas do governo (as estimativas sobre mortos, feridos e torturados são conflitantes, por dificuldade de informações).

Um povo com potencial para se desenvolver, mas limitado por irresolvíveis questões que só desaparecem para aqueles que deixam as terras de origem, que se afastam do caldeirão que realimenta suas chamas num ciclo secular (aqui, secular tem um sentido temporal).

E as consequências podem provocar uma nova onda migratória de um povo que, com milênios de formação, não consegue se civilizar harmoniosamente e superar egoísmos e mesquinharias de origem tribal e religiosa.

Antártida ou Antártica? Na verdade, ambos

O incêndio que destruiu boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém no continente gelado do sul da Terra, me levou a pesquisar uma questão que ainda não tinha caído no meu interesse: é Antártida ou Antártica?

O professor Josué Machado, consultor de linguística da mídia, deu a sua resposta no livro Língua Sem Vergonha: a primeira já foi a única correta, mas os dicionários incorporaram a segunda, que também tornou-se correta.

O formato mais difundido no Brasil é usar Antártida como nome próprio, nome do continente; e antártica como adjetivo (região antártica, estação de pesquisa antártica, massa polar antártica, continente antártico, etc.).

Pela contramão segue um gramático importante, professor Luiz Antônio Sacconi, que diz em seu blog: “Sempre afirmei que o nome correto para a região gelada no polo Sul do planeta é Antártica, por várias razões. Quem usa ‘Antártida’ carece de argumentos sólidos (se é que os tem), e sua defesa não resiste a segundos. Aos poucos, porém, todos vão se convencendo de que é mesmo Antártica a forma correta, passando, então, a usá-la.”.

Um pouco de análise etimológica indica que Antártica é a forma mais correta, pois o adjetivo antártico vem do grego antarktikós = oposto ao ártico. E ártico é vinculado ao polo norte há séculos.

Alguns blogueiros afirmam que Antártida é uma corruptela, uma deformação de pronúncia dos falantes portugueses e brasileiros que teria transformado o errado no correto.

Mas não é a única língua – com alguma proximidade com a portuguesa – que trocou o “c” pelo “d”: a língua espanhola escreve Antártida e a italiana escreve Antartide.

Em compensação, outras línguas foram mais coerentes com a raiz etimológica grega: Antarctica (inglês), Antarctique (francês) e Antarktika (alemão).

(A Wikipedia foi a minha fonte.)

Em resumo: as duas formas estão corretas, mas que deveria ser Antártica, deveria.

Explosão da base da Antártida ressalta as questões da falha de segurança e do custo elevado para resultados duvidosos

No recentíssimo dia 25/02/2012, uma explosão seguida de incêndio destruiu boa parte das instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz, uma base científico-militar que o governo brasileiro mantém no continente gelado do sul da Terra.

A jogada de marketing do dia 28 de fevereiro foi centralizar a atenção nos dois mortos, o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o primeiro-sargento Roberto Lopes dos Santos, cujos corpos foram recebidos no Rio de Janeiro com honras militares, com a presença do vice-presidente da República, Michel Temer, e do ministro da Defesa, Celso Amorim; ademais, foram agraciados com o grau de comendador da Ordem do Mérito da Defesa e postumamente promovidos a segundos-tenentes.

As tragédias humanas sempre garantem o desvio da atenção, a troca de foco…

Infelizmente, o acidente representa apenas mais um ponto na elevada estatística de falhas na construção e manutenção de obras e prédios do Brasil; um mês antes caíram três no Rio de Janeiro.

Neste tipo de acidente o erro é humano, quase sempre; mas dificilmente o público receberá informações sobre o que realmente ocorreu neste caso, pois o controle da base é militar e ela está localizada longe demais para permitir investigações independentes.

E existem velhas dúvidas sobre a importância real de um gasto de milhões na manutenção da estação, inaugurada em 1984 (a questão começara em 1975, durante o Regime Militar, quando o Brasil aderiu ao Tratado da Antártica).

Em resumo: gasta milhões para ter presença na região e obter vantagens caso apareça uma situação propícia a tal, num futuro inescrutável, desconhecido, imprevisível.

Por enquanto, o continente hipergelado continua sendo, aparentemente, de pouco valor econômico ou geopolítico.

Grandes hospitais reduzem custos usando a lei da filantropia

Não há dúvidas de que o Brasil atravessa seu melhor momento econômico, período iniciado em 1993 pelo Plano Real.

Mas, quando observamos suas intermináveis comunidades, entendemos que é uma nação que não sabe se organizar de forma igualitária, justa e objetiva.

Se podemos complicar, para que simplificar?”. A pergunta maluca parece natural em nossa cultura.

Os hospitais são um exemplo adequado: no Primeiro Mundo estão sujeitos à mesma faixa de tributação; aqueles que não organizam sua administração e suas contas, quebram.

No Brasil, muitos sobrevivem por décadas em pré-insolvência, dependentes da influência dos políticos, que conseguem doações – sob vários disfarces – de dinheiro público.

Agora é possível reduzir custos através da obtenção do certificado de filantropia, oficializado pela lei 12.101 de 2009, que concede isenção fiscal a partir de uma avaliação a ser realizada por técnicos.

O jornal O Estado de São Paulo de 19/02/2012 dedicou uma página a este tema através da reportagem “Hospitais com selo de filantropia realizam 135 projetos para o SUS”.

Extraio o lide (parágrafo de abertura) da matéria:

Graças ao certificado de filantropia e ao reconhecimento como hospitais de excelência conquistado em 2008, Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Hospital do Coração (HCor), Samaritano e Moinhos de Vento deixaram de recolher quase R$ 1 bilhão de encargos trabalhistas nos últimos três anos. Em troca, realizaram cerca de 135 projetos de apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS). Alguns deles, afirmam especialistas, suprem carências importantes da rede pública. Falta, no entanto, um foco mais definido para o conjunto.”.

A expressão “R$ 1 bilhão de encargos trabalhistas nos últimos três anos” parece ter sido um equívoco que confunde o leitor; trata-se, simplesmente, de uma isenção fiscal.

A reportagem não foi denunciatória nem esgotou o tema, limitou-se a entrevistas que defenderam o trabalho dos hospitais beneficiados, ou argumentando que o dinheiro seria mais bem usado em assistencialismo puro.

O jornal falhou em não citar a fonte da informação financeira, não explicou como foi feito o cálculo do valor que cada um dos seis hospitais deixou de recolher.

Um tema importante, mas que precisa de reportagens complementares.

Para acesso ao inteiro teor da matéria, cliqueaqui.

João Ubaldo Ribeiro goza o prazer dos novos ricos em encher a pança

Fui uma criança e adolescente ávido por leitura; um ícone da época foi a História do Mundo para as Crianças, de Monteiro Lobato, presenteado pela tia rica Nair, devidamente cantada pela minha mãe.

Entre outras centenas de informações que ajudaram na minha formação cultural, aprendi que o Império Romano ruiu, entre outros motivos, pela indolência da classe dominante.

Os vários historiadores da época contavam que eles viviam em festas intermináveis, e que muitos deles, de barriga cheia, provocavam o vômito para retornar ao banquete.

E empaturrar-se (ou empanturrar, ou empanzinar) continua sendo a primeira opção dos novos ricos que, à falta de outros objetivos de vida, avançam ferozmente sobre mesas fartas.

Se se interessassem pela ciência da fisiologia descobririam que o corpo humano não tem capacidade para metabolizar o excesso de gordura, de açúcares, de álcool, de nicotina.

E que as doenças provocadas por tais excessos são sempre dolorosas e limitantes; em consequência, deprimentes.

Incapazes de resistir ao prazer da comida, os novos ricos se iludem com uma solução de aparência, pela via da cirurgia plástica.

Meu cronista favorito, João Ubaldo Ribeiro, resolveu gozar a categoria na sua coluna de 19/02/2012, n’O Estado de São Paulo, da qual extraio este parágrafo de exemplar criatividade.

Gugu Galo Ruço e Marquinhos de Edna, cada um também mais rico milionário que o outro, vão fretar um Boeing para ir fazer lipoaspiração de cachaço, bochecha e barriga na América do Norte, decisão tomada depois que ambos cravaram 114 de colarinho, no dia em que botaram gravata para serem homenageados pelos bancos em que têm contas. Quanto às barrigas, faz muito que eles não veem os pés e fazem as unhas orientando as pedicuras por meio de monitores de televisão. Eles ficaram assim de tanto se atufarem daquelas comidas de rico milionário, sarapatéis de tripa de faisão, acarajés de trufas brancas, doces de leite de panda e moquequinhas de ostras frescas da Normandia.”.

A banalização do crime político (inclusive para aumentar a audiência na televisão)

Nos anos 1980 comprei e li o livro Febeapá: Festival de Besteiras Que Assola o País, de Stanislaw Ponte Preta, que era o pseudônimo do jornalista e redator humorístico Sérgio Porto, falecido em 1968.

Rolei de rir com a primeira parte do livro, uma coletânea de casos reais que haviam acontecido no Brasil. Só selecionou casos absurdos, ridículos, exóticos.

Stanislaw/Sérgio era humorista, só explorou o lado cômico, mas eu me lembrei de sua seleção de absurdos com a notícia da condenação, a penas entre 75 e 105 anos de prisão, dos cinco acusados do assassinato da deputada federal Ceci Cunha, seu marido e outras duas pessoas em 1998, em Maceió.

A condenação só aconteceu em janeiro deste 2012, 13 anos depois dos crimes, mas é outro o ponto central da análise: o mandante foi o ex-parlamentar Pedro Talvane Luiz Gama de Albuquerque Neto que, de acordo com a sentença, encomendou e planejou pessoalmente os assassinatos com o objetivo de obter a cadeira de Ceci, de quem era suplente na Câmara dos Deputados. Recebeu a pena de 103 anos.

Minha Minas Gerais também teve um episódio assemelhado ao de Ceci Cunha: no dia 15/05/2008 o ex-prefeito de Mariana João Ramos Filho, de 78 anos, foi assassinado; o acusado foi o empresário Francisco de Assis Carneiro, o “Chico da Farmácia”.

O mandante Chico da Farmácia era pré-candidato declarado ao cargo de prefeito, mas a candidatura de João Ramos era um obstáculo quase intransponível para qualquer concorrente, pois era popular e já tinha ocupado o cargo três vezes.

Se realmente matou (ainda não foi julgado), foi apenas para ter a esperança de ser eleito; apesar do impacto, a mídia abandonou o caso (não encontrei novidade nenhuma via Google).

Na mesma trilha — absurdos trágicos, que nada possuem de humorísticos — foi o caso do deputado estadual do Amazonas Wallace Souza, acusado pela Polícia Civil de mandar matar traficantes de drogas para aumentar a audiência de seu programa de TV.

Ele teve o mandato cassado em outubro de 2009 e morreu em julho de 2010, aos 51 anos, vítima de uma ascite (a popular barriga d’água), causada por uma doença crônica no fígado.

Quando mais jovem já havia sido expulso da Polícia Civil amazonense por roubo de combustível; virou político e o povo desmemoriado o elegeu, sucessivamente, vereador e deputado estadual.

Ainda falta um treinamento para tornar a polícia mais próxima da população, mais comunitária e menos militarizada

Foi anunciado, em 11/02/2012, o fim da greve da polícia militar da Bahia. Durou 12 dias.

O assunto foi destaque na mídia nacional desde o seu primeiro dia, com grandes prejuízos econômicos para o turismo e o comércio, além do receio de que se estendesse até o carnaval.

O governador petista Jaques Wagner, corroborado por reportagens, anunciou que policiais estavam cometendo atos criminosos (assassinato de supostos bandidos, incêndio de ônibus, bloqueios de avenidas e estradas) para pressionar as autoridades.

A questão da segurança pública entrou na ordem do dia, e o caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 12/02/2012, publicou uma entrevista com o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos, que defende que os policiais assumam um papel mais social (comunitário), e menos militarizado.

Na apresentação da entrevista, o repórter Christian Carvalho Cruz informa que o sociólogo “diz que o Brasil perdeu a chance de discutir suas polícias na Constituinte de 1988 e agora paga o preço de uma crise organizacional que chega ao cúmulo de as academias ensinarem cadetes a dobrarem o lençol em vez de mediar conflitos”.

Depois joga as aspas para José Vicente Tavares dos Santos: “O golpe de 1964 abortou um processo que encaminhava as polícias brasileiras para serem órgãos de defesa da ordem pública e do cidadão. Nos anos 50, por exemplo, havia um batalhão no Rio de Janeiro chamado Cosme e Damião – no Rio Grande do Sul o nome era batalhão Pedro e Paulo -, cujos policiais andavam em dupla e tinham todas as funções que os ingleses depois batizaram de polícia comunitária. Mas em 1967 uma lei da ditadura transformou as polícias militares em órgãos auxiliares das Forças Armadas e militarizou o ensino policial.”.

O especialista detalha a função social do policial: “faltam noções de direitos humanos, de investigação criminal, algo básico mas incrivelmente precário no Brasil. E mediação de conflito. No mundo todo, 70% das ocorrências atendidas pela polícia são conflitos ainda não criminais”.

E também pede algumas correções e adequações de aspecto prático-profissional: “Nas polícias civis os turnos são de 24 horas por 72 de descanso. Ora, ninguém se mantém atento por 24 horas sem dormir. Isso é um absurdo. Há relatos de turnos de 24 horas em pé. E isso é inumano. Algo mais básico: são raras as policiais que têm coletes à prova de bala adequados à anatomia feminina; nem todas as polícias oferecem seguro de vida aos seus agentes.”.

Só não concordo com a sua defesa de um piso nacional de salário para a categoria, pois são os estados que pagam a conta e é gritante a diferença econômica entre São Paulo e Piauí, por exemplo.

Nesse aspecto, ele se contradiz: “Eu sou a favor de um piso nacional, mas precisamos discutir o valor. A PEC 300 (Proposta de Emenda à Constituição) toma como padrão o salário no Distrito Federal. Mas ali os salários são pagos pelo governo federal. O debate deve levar em conta a sustentabilidade dos Estados.”.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

Robson Lauriano e a Turma do Bolota, um sucesso de humorismo no radialismo de Belo Horizonte

O radialista Robson Lauriano Rosa, petropolitano de 52 anos, está no auge de seu sucesso como apresentador da Rádio Itatiaia de Belo Horizonte.

Ele pilota dois programas diários: Boa Tarde (14 às 16 horas) e Noite Livre (21 às 23).

O da tarde é razoavelmente sério (variedades), tem entrevistas com o público e especialistas convidados, mas o noturno é puro humorismo.

Robson faz o trabalho de mediador com os ouvintes que telefonam para contar piadas. Também intermedeia (que verbo feio, parece gozação de humorista!) a participação dos personagens criados pelos seus misteriosos assistentes de programa.

O copiloto é Leonardo Ângelo, que atua como repórter entrevistador e ainda interpreta o personagem Rabugento. Segundo um fã (via internet), ele também seria o intérprete da Dona Santinha, esta uma velha tarada que faz muito sucesso.

Não encontrei na internet uma boa descrição do programa e a lista dos intérpretes dos personagens que formam a Turma do Bolota (referência ao fato do capitão Lauriano ser do time dos gordinhos).

Mas, viajando pelas asas do Google, descubro que o personagem Titi, um fanhoso, é interpretado pelo radialista humorista Tarcísio de Castro.

O músico da trupe é Quilin do Leste, pseudônimo de William Gonçalves (pelo menos é o que diz um par de parênteses no YouTube).

E quem faz o Chocolate? (voz de machão!), o Zé Taioba? (bicharoca…), ou o Bluetooth? (imitando um locutor esportivo da emissora, o Marco Antônio Bruck). Ou o Popó, a outra bicharoca, que só aparece no Boa Tarde?

E o Marreco, com aquela voz esganiçada, imitação tupiniquim do Pato Donald, que tanto deve sacrificar a voz, produzir calos nas cordas vocais?

Os alunos das várias faculdades de comunicação de Belo Horizonte estão perdendo a chance de produzir um bom trabalho escolar com este tema bem midiático; e se alguém fez, não foi eficiente na divulgação via internet.

Deixo a dica.

Eles possuem o site www.turmadobolota.com.br, do qual extraí a charge abaixo:

Charges.com.br faz uma criativa sátira à busca desesperada de jovens por concursos públicos

Trabalhar no serviço público é um sonho centenário no Brasil; era através desta categoria que os monarcas colonizadores portugueses mantinham a eficiência do sistema extrativista que garantia a riqueza e os abusos da Corte.

Em troca, claro, concediam privilégios. E garantiam a preferência de contratação para seus parentes e para os indicados pelos nobres.

Norte-americanos e europeus aprenderam a valorizar a iniciativa privada e diminuíram o peso da burocracia — em seu sentido original, de conjunto dos funcionários públicos — dentro de seus países.

Mas o serviço público segue como um sonho dourado para os brasileiros, incentivados pela redução da influência meramente política (em prol dos concursos públicos) como forma de contratação.

Jovens adultos dedicam horas diárias ao estudo com a intenção de ganhar uma vaga — em um emprego valorizado, classificado como seguro.

Sobre o tema, vale uma espiada numa charge animada eletrônica (13/12/2011) do artista quase-uberlandense Maurício Ricardo, proprietário do site www.charges.com.br.

O concurso público é tratado com humor leve, não é ridicularizado.

Retrata argumentos dos pais e os objetivos da juventude, com a criatividade que é peculiar ao campeão do humorismo eletrônico do Brasil.

Para conhecer a biografia do autor na Wikipedia, cliqueaqui.

Para acessar a charge, cliqueaqui.
http://charges.uol.com.br/charge-share/2011/12/13/cotidiano-pensando-grande/

Os legisladores se ausentam do plenários porque muitos projetos são irrelevantes

Em 1989, recém-promulgada a Constituição Brasileira que ainda está em vigor (embora largamente emendada), algum órgão da mídia decidiu conferir a frequência dos deputados federais às sessões plenárias, e depois soltou a lista dos gazeteiros.

Dois deles saíram crucificados: o mineiro Mário Bouchardet e o paulista Felipe Cheidde, ambos cassados por excesso de faltas.

Até hoje o assunto retorna às pautas midiáticas, mas os legisladores brasileiros (incluindo os estaduais e municipais) aprenderam a lição e comparecem com alguma frequência, ainda que só para registrar presença.

Sempre achei simplista o critério de presença em sessão como medidor do trabalho político: acompanhar eventos em suas bases, receber representantes de associações e elaborar projetos são algumas das muitas atividades importantes da carreira.

E as pautas de sessões são geralmente irrelevantes, com raros itens de real importância.

A repórter Larissa Carvalho, da TV Globo de Belo Horizonte, fez uma reportagem sobre os projetos irrelevantes na câmara municipal da capital, transmitida pelos telejornalísticos locais em 08/02/2012 com o título “Câmara de BH prevê gastos de mais de R$ 150 mi para 2012”.

Dois vereadores se saíram mal, viraram exemplos de autores de projetos irrelevantes.

Paulinho Motorista já havia desistido da criação do “dia da comida de preto” e tentou sair do ridículo culpando subordinados: “na verdade, esse projeto foi colocado em pauta por uma assessoria minha, que não trabalha comigo mais”.

Retrucou a repórter: “Não é sempre vocês que elaboram um projeto, a assessoria às vezes elabora e apresenta?”. Ele respondeu fingindo que aquilo não passava de um estudo técnico, o que certamente é diferente de um projeto de lei municipal.

O exemplo número dois foi o vereador Pablo César de Souza, o Pablito, que propôs a construção de estações para consertar bicicletas nas ciclovias e também a instalação de neutralizadores de mau-cheiro nos caminhões de lixo.

Mais realista – e ao encontro de minha posição – foi a fala da vereadora Neusinha Santos que, perguntada sobre a presença em sessões, disse na lata: “se o assunto for interessante eu fico, mas se for um assunto banal, que não interessa à cidade, eu realmente não perco meu tempo”.

Quanto ao valor de R$ 150 milhões, alguém cochilou pois a repórter fala em 170 no final da matéria.

Para acesso ao vídeo (inacessível pelos sistemas de busca do site), cliqueaqui.

Uma técnica jornalística de credibilidade duvidosa: relatar os fatos como se os houvesse presenciado

O jornal O Estado de São Paulo há décadas é classificado como conservador.

No plano jornalístico, ser conservador quer dizer: segue as técnicas e regras consagradas, prescritas pelos principais teóricos e pelos manuais.

Conservador que se preze só adota inovações quando elas são de uso corrente, deixam de ser novidade.

E, de fato, esta é a base editorial do Estadão.

Tenho observado uma curiosa exceção na editoria de política, e sempre em matérias assinadas pela repórter Vera Rosa (a quem não conheço, de quem nada sei).

Ela tem o hábito de contar, em detalhes, acontecimentos que certamente não presenciou, pois narra fatos e diálogos ocorridos reservadamente.

Mas não cita a fonte da informação, narra como se fosse uma escritora do tipo que os professores de linguística chamariam de onisciente.

Um claro exemplo é a matéria “Broncas em público, rotina do Planalto”, publicada na edição de 29/01/2012, narrando duras atitudes da presidente Dilma Rousseff com os ministros.

Destaco os trechos abaixo (não sequenciais), bem representativos do estilo:

“”Seu” Fernando levou bronca até no último dia de trabalho. Na segunda-feira, véspera de desocupar o gabinete em que deu expediente por quase sete anos, ele ficou sabendo que a chefe tinha um ressentimento guardado na geladeira. “Não pense que eu esqueci que o senhor ia direto falar com Lula, viu seu Fernando?”, disse a presidente Dilma Rousseff ao pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. 

[...] 

“Quando a Gleisi ligar para vocês, sou eu que estou ligando. Não adianta vocês tentarem mandar algum projeto direto para mim, sem crivo técnico, porque vou devolver”, avisou. 

[...] 

O recado era para Miriam Belchior, ministra do Planejamento, que vira e mexe é chamada às falas por causa da lentidão do PAC. 

[...] 

Para se precaver, [o ministro Guido Mantega, da Fazenda] envia todo dia para Dilma, por e-mail criptografado, dois boletins com informações sobre o cenário econômico no Brasil e no mundo. 

[...] 

“Você é muito conservador” ou “Se não sabe responder isso, deveria deixar de ser ministro” são expressões usadas com frequência pela presidente. Ela faz críticas duras e fala tudo “na lata”, sem rodeios. 

Para conferir dados e cobrar explicações, Dilma tem mania de pedir ligações urgentes para ministérios, durante as reuniões. “A presidente acha que quem entende do assunto tratado naquela hora nunca está na frente dela”, diz um auxiliar, em tom de ironia.”.

Se a repórter não implantou um chip (ou um microfone) debaixo da pele de Dona Dilma, fica difícil acreditar que tudo isso realmente aconteceu…

Para acesso ao inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

O caso de um comerciante que começou enviando spams criativos, mas depois se tornou um chato, como os outros

A publicidade é a alma do negócio, e a criatividade é a alma da publicidade.

Desviando do caminho das metáforas religiosas, a criatividade é a única chance de sucesso para os spams, as propagandas que os internautas deletam sem abrir, assustados com as histórias sobre os roubos de senhas cometidos por hackers e seus cavalos de Troia.

Mas recebi uma mensagem inteligente, capaz de provocar a atenção do internauta e superar o risco de clicar (mesmo temendo um vírus virtual).

Praticamente uma campanha publicitária: primeiro, veio um e-mail tendo como remetente um singelo e comum prenome feminino (no caso, Larissa). E o assunto: “Essa você tem que saber”.

Apareceu uma mensagem de texto de aparente utilidade pública, sob o titulinho “Cinco informações úteis não divulgadas! Principalmente a QUARTA”.

As três primeiras se referem a cartório eletrônico, auxílio à lista telefônica e documentos roubados; a quarta é de amplo interesse, o direito de o motorista transformar a multa de trânsito em advertência.

A quinta e última foge bastante do tema: dá o link para uma suposta coluna do jornal O Globo sobre uma receita de emagrecimento.

Larissa encerra conclamando o leitor a divulgar a mensagem para os amigos, para “acabar com a indústria da multa”.

Desconfiei da presença discreta, quase disfarçada, do link de uma receita alimentar lançado logo abaixo do tópico mais atraente, e verifiquei qual era o e-mail real da Larissa: depois do arroba aparecia “receita dos famosos”, que seria também o nome da tal coluna.

Confirmado: o serviço de utilidade pública não passava de um despiste para levar o leitor, relaxado, à receita de emagrecimento.

Em ritmo de pesquisa cliquei no link, não sem antes conferir se tinha alguma extensão suspeita (geralmente é o .ru, da Rússia, ou outro país do Leste Europeu).

O site é de um vendedor de produto fitoterápico (à base de ervas); tem alguns logotipos de emissoras de tevê que conduzem, não para a Globo ou a Record, mas para a página de venda.

E não há referência à tal coluna de O Globo.

Contabilizando: usou vários artifícios publicitários mentirosos, típica propaganda enganosa.

Nos dias seguintes recebi outras mensagens idênticas, mas usando outros nomes femininos e sempre com a receitadosfamosos após o arroba. Carlinha foi o mais recente.

Com a repetição, a criatividade desaparece, torna-se inútil; o comerciante usa a troca de nomes para dificultar a localização pelos programas anti-spam, mas irrita o leitor e afugenta o freguês.

Concluo que, ainda assim, a primeira fase da campanha foi planejada com inteligência, mas depois prevaleceu a ambição. E a ética nunca compareceu.

Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável (II)

O ex-jogador Falcão anunciou, em abril de 2011, que estava deixando o ambicionado cargo de comentarista de futebol da Rede Globo para voltar ao seu ramo de origem: assinou um contrato para ser treinador do Internacional de Porto Alegre.

Paulo Roberto Falcão era sinônimo de sucesso e de integração com o clube e com a torcida: foi seu melhor jogador das últimas décadas, famoso até na Europa, e chegou a ser técnico da seleção brasileira.

A mídia saudou o anúncio como uma possibilidade de realização de um trabalho idealista (e incomum) numa atividade conhecida pela falta de planejamento e pelas demissões sumárias; chegou a acreditar que Falcão estava sendo contratado para trabalhar a médio ou longo prazo, sob proteção e confiança dos dirigentes.

Mas o sistema não admite exceções: foi demitido três meses depois, após uma derrota de 3 a zero para o São Paulo. A curta memória esportiva esqueceu que, naquele curto espaço de tempo ele havia conquistado o título de campeão gaúcho.

Ao contrário da ampla maioria dos companheiros de profissão não saiu calado e reclamou dos diretores do clube; talvez por isso tenha terminado o ano desempregado.

Não devia desgostar de trabalhar na televisão, como sugere o longo tempo que lá esteve; ainda assim anunciou que pretende seguir na carreira de treinador.

A demissão dos técnicos a cada pressão maior da torcida é tão rotineira que eles, normalmente pessoas de personalidade forte, reagem tranquilos, sabedores de que o sistema é ainda mais forte que seu temperamento.

O técnico Givanildo, por exemplo, virou um freguês constante de três clubes: Sport Club Recife (inacreditáveis seis vezes), Santa Cruz de Recife (quatro vezes) e América mineiro (três vezes). Basta conferir na Wikipedia, não é chute.

A efemeridade dos técnicos é tão natural e predominante que motivou a ira do comentarista Antero Greco contra aqueles que anunciam projetos reformuladores quando iniciam carreira em um novo clube. Assim ele abriu a sua coluna de 04/09/2011 n’O Estado de São Paulo:

Tem muito lero-lero no futebol. Parece que, sem uma conversa mole, ele perde a essência. A maior é quando chega técnico novo e se fala em projeto, tentativa de tornar solene ato corriqueiro de troca de comando. Dá urticária ouvir esse papo furado, que não passa de teatro mambembe, pois nenhum dos personagens acredita no que se diz. Com exceções, e bota exceção nisso!, a maioria dos ‘professores’ estaciona um tempo no clube e leva um pé nos fundilhos tão logo acumule fileira de maus resultados. É convidado a cantar em outra freguesia, onde invariavelmente será apresentado como ‘o cara’, até cair ali adiante. E a roda-viva segue a girar indefinidamente.

Citou, com uma criatividade que merece a transcrição, a tripla demissão daquela semana na Série A, a principal do futebol brasileiro:

O Atlético-PR perdeu Renato Gaúcho, o Cruzeiro mandou Joel Santana levantar o Fundo de Garantia e o Bahia disse ‘obrigado por tudo, passar bem’ para René Simões.

Para acesso ao artigo, CliqueAqui.

Técnico de futebol, um salário sempre alto, mas com uma instabilidade profissional inacreditável

Haverá, no Brasil, algum emprego tão radicalmente contraditório quanto o de técnico de futebol?

Tão bem remunerado e também tão instável?

Ainda em novembro de 2011 Caio Júnior foi o 20º técnico a ser demitido no campeonato brasileiro. E a mídia ainda destacou que em 2010 foi pior: 22.

Poucas atividades representam tão bem a velha dificuldade brasileira de fazer projetos a médio ou longo prazo, pois chegar à terceira temporada (anual) em times das duas primeiras divisões é uma exceção — tão excepcional! — que vira o centro da notícia.

Distorção inimaginável em culturas mais bem sedimentadas; para japoneses, símbolos da estabilidade profissional e, portanto, exemplo ideal para comparações, parece o exotismo do exotismo.

O real motor do sistema é a paixão popular: não pode acelerar demais nem reduzir a ponto de deixar de gerar lucros.

E o técnico é o amortecedor, é o indicado para assumir a culpa do fracasso, é o bode expiatório.

Em civilizações menos emotivas e mais racionais o papel é de quem o contrata, o escolhe: os dirigentes esportivos…

…que, no Brasil, não aceitam a perda do poder, e usam todas as estratégias para transferir a culpa para o time (técnico e jogadores).

Alguns jogadores também são culpabilizados e sacrificados em momentos de fracasso e pressão dos torcedores, mas é o treinador quem geralmente faz este papel.

A passionalização é tão grande que são comuns as pressões até sobre os técnicos dos times que estão liderando torneios, que deveriam estar sendo aplaudidos.

Tite, o técnico do Corinthians em 2011 (campeonato brasileiro) teve a “cabeça” pedida após alguns resultados indesejáveis — mesmo quando estava na disputa da liderança. Foi mantido e acabou campeão.

Qualquer profissão tem as suas características próprias, seu ambiente específico; é um sistema.

E o sistema da profissão de técnico de futebol brasileiro é conhecido: poucas possibilidades de se fazer um trabalho a médio ou longo prazo, demissão quase sempre com menos de um ano de atividade. Sempre sob críticas ferozes da mídia, dos torcedores e dos grupos de oposição na política interna dos clubes.

Mas com salário altíssimo, única opção para atrair profissionais qualificados, previamente conhecedores de que só o receberão por pouco tempo.

Numa atividade com tamanho índice de passionalização as crises são inevitáveis, tornam-se rotina.

O sistema criou um protocolo perfeito para administrar crises e interesses: o técnico é contratado por altíssimo salário, depois é demitido ao primeiro sinal de crise e quase sempre sai sem reclamar dos dirigentes… mas com o bolso recheado.

Especialista propõe uma atualização da Lei de Responsabilidade Fiscal

Um dos atos mais festejados e elogiados do governo Fernando Henrique Cardoso é a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal, oficialmente Lei Complementar nº 101), que entrou em vigor no ano 2000.

Analistas atribuem o seu sucesso à fartura de punições: seus artigos preveem penas efetivas e diferenciadas para uma série de irregularidades realizadas com dinheiro público.

Colunista de economia d’O Estado de São Paulo, Suely Caldas conta a história, a gênese da LRF:

Em 1998, quando pensou em criar uma lei para controlar gastos e punir abusos na gestão pública, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou dois tarimbados funcionários de carreira, velhos conhecedores das malandragens com o uso político do dinheiro público. Dois anos depois os economistas Martus Tavares e José Roberto Afonso deram vida à Lei de Responsabilidade Fiscal – uma bem-sucedida legislação de ação preventiva e focada em coibir endividamentos excessivos e desequilíbrios fiscais decorrentes de gastanças irresponsáveis de presidentes, governadores e prefeitos, quase sempre em favor de seus partidos políticos, campanhas eleitorais e amigos leais. Martus e Afonso mapearam todos os vícios e velhacarias políticas, as brechas que levavam o dinheiro para o ralo – e os puseram na lei.”.

Mas a criatividade brasileira não dá tréguas…

Na sequência, a especialista cita três novas formas de malandragens que se destacaram após a elaboração da LRF: convênios com ONGs, tráfico de influência e distribuição heterogênea de verbas públicas.

Sobre a primeira, escreveu: “Convênios com ONGs de fachada, criadas para receber dinheiro público, têm sido a malandragem mais comum, depois que a Lei Fiscal entrou em vigor. O ex-governador Anthony Garotinho deu a partida e canalizou dinheiro da população fluminense para ONGs amigas. Atrás dele vieram outros. Os ministros do ex-presidente Lula descobriram o filão e foram em frente.”.

E sobre a má distribuição de verbas públicas: “O último [ministro acusado de irregularidades] concentrou em seu Estado, Pernambuco, 90% das verbas de prevenção de desastres naturais e deixou sem tostão furado Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, cruelmente castigados pelas enchentes em 2011 e neste início de 2012.”.

Encerra pregando a edição de uma nova versão da LRF para tirar o governo Dilma Rousseff das notícias que parecem mais policiais do que políticas:

Se verdadeira é a intenção da presidente de dar um basta à corrupção e seguir seu mandato construindo, o caminho que realmente funciona é criar uma segunda e atualizada versão da Lei Fiscal, de efeito preventivo e capaz de barrar o malfeito na origem. A corrupção espalha na população descrença nos governantes e desesperança em relação ao futuro. O País precisa de leis que o protejam e ajudem a recuperar a esperança.”.

Para acessar o inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Berlusconi, um Primeiro-Ministro tarado e venerado pelos italianos inconsequentes

Líderes políticos exóticos são comuns nos países do chamado Terceiro Mundo, mas exceção em países evoluídos.

A moderna Itália fez sua concessão ao exotismo através de Silvio Berlusconi, que encerrou (por renúncia) seu terceiro mandato não consecutivo de Primeiro Ministro em 12 de novembro de 2011.

Protagonizou escândalos sexuais, gafes de etiqueta e comentários preconceituosos, mas ficou firme no poder até que a Itália começou a sofrer reflexos da crise econômica europeia.

Teve críticos duríssimos, como o filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais (ex-professor da Universidade de Roma La Sapienza e hoje diretor da revista MicroMega), entrevistado pelo repórter Christian Carvalho Cruz no caderno Aliás, de O Estado de São Paulo, edição de 20/02/2011.

O ataque mais contundente apareceu na resposta à seguinte pergunta: “Pesquisas mostram Berlusconi com 30% de aprovação. Quem são esses 30%?“.

E Paolo d’Arcais atirou forte, pesado: “Os mafiosos, os corruptos, os sonegadores de impostos, os racistas, os amigos dos mafiosos, os amigos dos corruptos e os amigos dos sonegadores de impostos. E ainda muitos outros que se condicionam pelo controle quase totalitário que Berlusconi exerce na TV. Noventa por cento dos italianos não leem jornal. Portanto, nem sequer sabem das coisas que estamos discutindo aqui. Sabem apenas que “Berlusconi é perseguido porque gosta de mulheres”. É essa Itália que elegeu Berlusconi mais de uma vez. E com ajuda de uma centro-esquerda que tem os dirigentes mais estúpidos que já vimos: culturalmente submissos, politicamente tímidos e até corruptos, embora em proporção infinitamente menor do que os políticos berlusconianos.

O entrevistado fez uma terrível lista dos problemas que afetavam a Itália naquele início de 2011: “a crise econômica, os desembarques dos clandestinos tunisianos na costa, o gigantesco desemprego dos jovens, o aumento da desigualdade, o colapso da escola pública e da pesquisa científica, a força crescente da máfia, a ruína do patrimônio artístico e ambiental. Nosso setor industrial mostra sinais graves de crise. Aquela que há um século é a mais importante empresa italiana, a Fiat, está se tornando filial da Chrysler”.

Extraio, ainda, uma análise sobre a influência da Igreja Católica:

OESP – Qual o peso do catolicismo na vida dos italianos? Os ventos conservadores que ajudaram a eleger Berlusconi eram ecos vindos do Vaticano de Bento XVI?

Paolo d’Arcais — A Igreja tem pouco peso para os italianos hoje. Nem os católicos praticantes seguem os ditames do papa, nem na política nem na moral sexual. Mas a Igreja tem um enorme poder no establishment político, financeiro, cultural, econômico, escolar e, por sua vez, ajuda a parte mais atrasada desse establishment. O papa fez alusões genéricas e quase imperceptíveis em relação a Berlusconi. Não o criticou. A Igreja continua a apoiá-lo, porque em troca obtém as leis que lhe vêm a calhar. Afinal, de cada 1.000 que os italianos pagam em impostos, 8 vão para as religiões – na prática, quase tudo para a Igreja. Bispos nomeiam os professores de religião nas escolas públicas. Mesmo as atividades econômicas indiretamente ligadas à Igreja gozam de grandes isenções fiscais, grande parte do sistema hospitalar é controlada pelo poder clerical, também fortíssimo no sistema bancário.

Para acesso ao inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

E abaixo estampo uma foto que correu mundo: Berlusconi aparentemente maravilhado com o corpo da nadadora Federica Pellegrini, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008).

Um especialista em fotografias certamente dirá que uma imagem bidimensional não permite a certeza de que Berlusconi estivesse realmente olhando para a moça e não para algum foco próximo mas, com o passado dele, quem acredita?

Ecologista Jared Diamond afirma que Brasil dá mau exemplo na preservação de suas florestas tropicais

O biogeógrafo americano Jared Diamond talvez seja o mais conhecido ecologista do planeta, e um grande apologista dos perigos da falta de preservação dos recursos naturais.

Em longa entrevista concedida ao caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o jornalista levantou a seguinte questão: “Alguns cientistas afirmam que não se pode dizer ao certo que o aquecimento global seja culpa da ação do homem; pode ser parte de um ciclo natural da Terra.”.

Diamond respondeu: “O argumento de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje sejam apenas naturais é simplesmente ridículo. Tanto como aquele que nega a evolução das espécies. As evidências de que tais mudanças se devem a causas humanas são irrefutáveis. Os anos mais quentes registrados em centenas de anos se concentram nos últimos cinco que passaram. O planeta já enfrentou flutuações de temperatura no passado, mas nunca nos padrões registrados hoje. Não conheço um único cientista respeitável que afirme que as atuais mudanças de clima não se devam à ação humana.”.

E lembrou que a catástrofe – ele usa mais a expressão colapso – pode ser evitada: “Se ocorrer, será porque nós, humanos, o causamos. Não há segredo sobre quais são os problemas: a queima exagerada de combustíveis fósseis, a superexploração dos pesqueiros no mundo, a destruição das florestas, a exploração demasiada das reservas de água e o despejo de produtos tóxicos. Sabemos como proceder para resolver essas coisas. O que falta é vontade política.”.

Foi discreto e cavalheiresco quanto à participação do Brasil na degradação do meio ambiente; no resumo que abriu a reportagem, os editores da matéria relatam que ele “avalia que o Brasil dos combustíveis verdes tem sido ‘uma inspiração para o mundo’, mas também um ‘mau exemplo’ na preservação de suas florestas tropicais”.

Para acessar o inteiro teor da entrevista, cliqueaqui.

Daniel Piza analisa a contradição entre o antiamericanismo e a influência norte-americana no Brasil

Não sei quando começou o antiamericanismo, esse sentimento de antipatia aos Estados Unidos da América que é forte no Brasil e parece existir em todo o planeta.

Mas o percebo desde que ingressei no mundo dos adultos.

E nunca o digeri bem quando surgiu nalguma comparação com o Brasil: nossos problemas certamente são diferentes, e ainda maiores que os deles.

Em bate-papo já tive até a oportunidade de usar uma lógica bem simplista, rasteira mesmo: argumentei que os EUA estão certamente abaixo de algumas nações – como os países escandinavos – em qualidade global de vida, mas o Brasil não pode almejar chegar ao estágio ideal sem passar pelo intermediário.

Precisa ser um Estados Unidos antes de ser uma Suécia.

Na última semana de 2011 eu preparei – para posterior publicação no meu blog – um texto do jornalista Daniel Piza sobre o assunto; no penúltimo dia do ano o autor morreu repentina e precocemente, aos 41 anos.

Não apenas pela pertinência, como também por homenagem, transcrevo abaixo o artigo intitulado “Declínio americano?”, publicado n’O Estado de São Paulo de 28/08/2011 (excluí tão somente o segundo parágrafo para reduzir o post e por entender que fugiu um pouco do tema básico).

A crise econômica dos EUA, afundados em dívidas que há muito se sabe que um dia eles teriam dificuldades para rolar, faz muita gente apontar um declínio breve do ‘império’ e, em consequência, a tentar adivinhar de quem será este século 21, já que o anterior foi americano. Muitos apontam a China – ou a Ásia em geral – e alguns como o presidente Lula, cuja bravata patriótica soava e soa tão parecida com a do regime militar, chegaram a dizer que seria ‘o século brasileiro’. No entanto, observando culturas como a brasileira, me pergunto se a influência americana sequer começou a ceder. Assim como vai demorar para os EUA serem ultrapassados no PIB e no IDH por um mesmo país (a China pode ultrapassar no PIB até 2050, dizem, mas vai precisar de muito mais para fazê-lo no IDH), a força sedutora do ‘american way’ também vai se estender bastante.

[...]

No campo do consumo do chamado ‘entretenimento’, então, nem é preciso listar muitos fatos. A TV por assinatura multiplicou os seriados e programas americanos, seguidos fielmente no mundo todo; Hollywood continua a dar as cartas nas bilheterias globais, com sua usina de celebridades que povoam sites e revistas; cantoras como Beyoncé e rappers como Jay Z dominam os videoclips em TV e You Tube; filmes de HQ em cartaz como Capitão América e Lanterna Verde insinuam a velha ideologia do heroísmo que livra Nova York e outras cidades de vilões com tonalidades nazistas ou comunistas ou terroristas; e até para rirmos das manias americanas, de sua mentalidade consumista, precisamos de um americano como Woody Allen. E o que dizer do admirável mundo novo da tecnologia? Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg estão muito acima da manada forasteira – e que eu saiba a internet fala inglês, não chinês.

Talvez alguém argumente que a cultura americana não perdeu influência em termos de quantidade, de comportamentos massificados, mas em termos de qualidade, de modelos refinados. Por um bom tempo, bebendo na fonte europeia, a cultura americana buscou padrões cada vez mais elevados e produziu escritores como Henry James, Scott Fitzgerald, Saul Bellow (irrelevante que tenha nascido no Canadá); importou cientistas como Einstein e cineastas como Hitchcock; produziu movimentos na pintura, como o expressionismo abstrato, e na música, como o jazz, o bebop e o rock, que mudaram o mundo a fundo; também gerou pensadores, metafísicos ou pragmáticos (de Peirce a Rorty), e espalhou fundações e museus indispensáveis. Nomes e instituições já não surgem como antigamente nos EUA. Mas alguém me diga: e onde surgem?

Sim, também sonho com um mundo mais multipolar, o que significaria uma América menos hegemônica, e, sim, também me canso dessa cultura americana de arte enlatada e mente dicotômica, que com seus apelos emotivos e ‘power points’ afasta muitas pessoas de outros conteúdos e formas de pensamento e estética. Não nego que algumas coisas estejam mudando e que isso seja bom, que os tempos de colonialismo bélico possam estar passando. Mas acho desonesto ignorar a presença ainda tão forte dos produtos e atitudes dos EUA, tantas vezes imitados até por quem diz odiá-los, e confundir uma fase crítica com um fracasso estrutural. Talvez o fato de o século 21 não vir a ter um ‘dono’ seja a melhor notícia, mas, por ora, um deles ainda serão os EUA por um bom tempo. Como diria Mark Twain, os boatos sobre o declínio americano são exagerados.

Para acesso ao inteiro teor do texto, publicado no seu blog (mantido pelo jornal), cliqueaqui. Provavelmente o blog ficará permanentemente no portal do jornal já que Daniel Piza era o seu editor de cultura.

Delis Ortiz narra o caso do motorista cara de pau que criticava os políticos enquanto lesava passageiros

A jornalista Delis Ortiz, depois de duas décadas como principal repórter da TV Globo em Brasília, agora é correspondente em Buenos Aires.

Apareceu um pouco diferente, engordou um tiquinho atraindo minha curiosidade (que sempre se expande através do Google).

Está com 48 anos, duas filhas e dois netos, o que explica a mudança. O tempo é tirano.

E encontrei um texto dela que se encaixa perfeitamente num tema que me é caro: a incrível capacidade que muitos brasileiros possuem em pregar o oposto do que praticam.  Leia o resto deste post »

Luís Fernando Veríssimo, desumano, não quer saber do furúnculo da tia Elvira

O humorista Luís Fernando Veríssimo é famoso por sua timidez e discrição; talvez por isso se irrite com a moderna contaminação dos vícios sociais.

Pela sua coluna dominical d’O Estado de São Paulo se queixou do cigarro do vizinho e das conversas pelo celular, em público e voz alta.

Tão revoltado que não quer saber nada sobre o furúnculo da tia Elvira: se dói, se solta pus, nem onde está localizado (será que é ali?).

Tia Elvira que se dane…

E assim ele fechou a crônica de 28/08/2011:

Fumar em lugar fechado está sendo proibido em todo o mundo para evitar a contaminação do vizinho, que pega fumaça e seus males de segunda mão. Acho que deve-se pensar em obrigar quem tem telefone celular a também ir usá-lo na rua. O objetivo seria nos proteger da contaminação pela vida alheia. Não precisamos saber do furúnculo da tia Elvira. E agora, com os pods e pads que fazem de tudo e informam tudo, há uma nova praga. Gente que no cinema, no meio do filme, liga o troço.

Se ainda fosse para saber como está o índice Bovespa. Mas não, geralmente é para saber da tia Elvira.”.

Pedestres, ciclistas, motoqueiros e motoristas disputam território nas ruas

Um fenômeno estranho que não perde força no Brasil é a manifestação pública externa, usada com a finalidade de expor para a sociedade um problema específico de um grupo.

O estranho do fenômeno é que, no caso brasileiro, existe uma regra não escrita, mas sempre seguida: a manifestação somente será respeitada pelas autoridades se criar impacto, seja social ou midiático.

E a forma de impacto mais usada é a interrupção do tráfego de automóveis nalguma importante via pública de uma grande cidade, causando prejuízos a muitas pessoas sem vínculo com a questão.

É a mesma lógica — guardadas as proporções — dos terroristas muçulmanos que não se importam em matar outros muçulmanos nos atentados, sob o argumento de que estas vítimas estão ajudando a Causa, ainda que em troca da vida. Leia o resto deste post »

Filósofo pessimista afirma que o povo brasileiro usa o direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais

Um dos comportamentos sociais brasileiros que mais me deprimem é o saque, realizado por grupos não organizados da população, que se apropriam de produtos que parecem não possuir um proprietário claro.

O tipo mais comum é a espoliação da carga de caminhões acidentados, antes que a polícia ou o dono da mercadoria chegue.

Se o produto é perecível, a alegação, a explicação-desculpa, é que ele se perderá mesmo; quando não é o caso, os autores diluem a culpa alegando que foi um ato coletivo, e que apenas fizeram “o que todo mundo está fazendo”.

“Não tem dono mesmo” ou “vamos pegar antes que outros peguem” são outras desculpas, os disfarces para o roubo perpetrado por ladrões não profissionais, não assumidos.

No artigo O direito do abutre, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, edição de 22/01/2011, o sociólogo José de Souza Martins não amacia as palavras:

A rapina de cargas de veículos acidentados é outra modalidade de sebaça, multidões repentinas carregando o que podem. Não se trata de ladrões profissionais. Trata-se de algo pior: da prontidão de pessoas comuns, que nunca sairiam de casa para assaltar alguém, mas o fazem simplesmente porque a oportunidade se apresenta.”.

Outra ilegalidade comum no Brasil é o desvio de doações destinadas às vítimas das grandes tragédias, como as inundações sazonais de todo início de ano.

A desculpa inventada pelos ladrões — usada para se autoenganarem — é assemelhada: enquanto não estiver oficialmente entregue ao flagelado o produto está sem dono.

Martins ainda inclui no grupo “o saque do que restava das casas das vítimas, com gente até se oferecendo como voluntária para ajudar apenas para ter a oportunidade de saquear” e “os oportunistas que oferecem água à venda por preços multiplicados e casas para alugar pelo dobro do preço de mercado”.

E vê raízes tanto históricas quanto primitivas:

Essa prática tem entre nós raízes culturais profundas. Herdamos da Europa medieval o direito à sebaça, ao saque dos bens dos vencidos. Na história social e política brasileira temos vários episódios e ocorrências desse tipo nas chamadas lutas de famílias. O caso mais emblemático, ocorrido em Dianópolis, no norte do antigo Estado de Goiás, virou enredo de obra clássica da literatura, O Tronco, de Bernardo Élis. Também no cangaço, a sebaça se propunha como um direito do vencedor sobre o vencido.”.

E assim fecha o pessimista ensaio, motivado pelos eventos posteriores à grande tragédia de janeiro de 2011, que foi a inundação da região serrana do Rio de Janeiro:

Em outras sociedades, essas formas primitivas de direito foram banidas e superadas pelas revoluções sociais e políticas. Aqui, historicamente as coisas foram diversas. A superficialidade das mudanças sociais sempre facilitou a agregação do direito velho ao direito novo, traço profundo da nossa cultura política da conciliação. Os saques e a especulação econômica contra as vítimas sobreviventes do desastre ambiental na região serrana do Rio de Janeiro nos mostra a vitalidade entre nós do direito do abutre a se nutrir da carniça das tragédias sociais.”.

Para acessar o inteiro teor do artigo, cliqueaqui.

Cavalo e cavaleiro (jóquei) em disputa pelo poder

Quem domina, o grande ou o pequeno? Parece que, neste caso, o controle está nas mãos do jóquei Vágner Borges, jovem revelação das corridas do Hipódromo da Gávea. A potranca Super Tóta, de três anos, reage contra as rédeas controladas por quem tem pouco mais do que 10% do seu peso. Mas vai ceder.

Foto de Márcio de Ávila Rodrigues (jóquei Vágner Borges, Hipódromo da Gávea)

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